ANÁLISE

Transporte público, aglomerações e demagogia

Apesar do discurso de que tudo está sob controle, governo de Pernambuco não consegue - por diversas razões - evitar aglomerações e dar o exemplo de algo que tem exigido de toda a sociedade

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 15/06/2020 às 17:32
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Operação do Metrô do Recife segue insuficiente. Aumentou duas horas, mas continua apenas nos horários de pico da manhã e da noite - FOTO: JAILTON JR./JC IMAGEM
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Mais difícil do que ver o trabalhador enfrentar as aglomerações no transporte público em plena pandemia do coronavírus é acompanhar a insistência do poder público em demonstrar preocupação com a situação. Não tem funcionado. A crise é séria - para muitos, a maior de todas já enfrentada pelo setor -, e ninguém duvida disso. Mas o governo de Pernambuco deveria ser mais enfático no cumprimento das regras que ele mesmo criou - o que significa exigir mais ônibus nas ruas, mesmo que isso gere déficit financeiro - ou assumir para a população não ter mecanismos de controle do serviço porque o custo é alto e não há recursos para pagá-lo. Na prática, deveria deixar de demagogia.

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Novo conceito de transporte público no pós-pandemia

Ou seja, a lição aprendida antes mesmo da pandemia fica ainda mais evidente agora: nossos gestores apenas planejam o transporte público coletivo. Não o utilizam. Por isso não se importam. Ou não se importam como deveriam
Coluna Mobilidade


Desistir de repassar a ideia de que o transporte público tem conseguido operar dentro das novas regras sanitárias de distanciamento e higienização impostas pela pandemia. De que está evitando as aglomerações e de que os problemas são apenas pontuais, em poucas linhas e terminais. Não são. Nos horários de pico a população tem sofrido sem qualquer tipo de distanciamento, nem nas filas, muito menos nos coletivos. O argumento que vem sendo utilizado desde o início do isolamento social não funciona mais. Principalmente agora, quando vemos o mesmo Estado exigir de estabelecimentos comerciais o cumprimento de regras do plano de convivência com a covid-19 - que prevê a retomada gradativa de setores da economia - , quando ele não consegue sequer evitar as aglomerações no transporte público. E ainda repassa a imagem de que tem feito muito e de que tudo está sob controle. É fato que aglomerações estão na essência do transporte público urbano, mas é perceptível que poderia ser feito mais pelo passageiro, pela imagem do sistema.

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Estação e Terminal Integrado Joana Bezerra lotados na manhã desta segunda-feira (15) - JAILTON JÚNIOR/JC IMAGEM

A VERDADE
É mais prático revelar o que acontece no setor. Que o governo não tem recursos para cobrir o custo da operação de mais ônibus circulando com poucos passageiros fora dos horários de pico da manhã e da noite. E que não tem força - inclusive legal, já que 75% do sistema de ônibus da RMR opera sem contrato licitado - para fazer os operadores disponibilizarem mais veículos na frota sem a garantia de que o custo será coberto. Afinal, o sistema já deixou de arrecadar R$ 155 milhões desde que a pandemia começou e até o dia 29/5. É como uma cabo de guerra: de um lado, a pressão do setor empresarial para esperar a demanda de passageiros reagir e, só então, ampliar a oferta de serviço. E, do outro, o Estado, que precisa dar respostas à sociedade, mas não tem mais dinheiro para pagar a conta - já que tem colocado, por ano, R$ 250 milhões em subsídios públicos no sistema e não pode (ou não quer) aumentar esse valor.

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Frota de ônibus teve aumento de apenas 6% para reabertura do comércio, passando de 54% para 60% - JAILTON JÚNIOR/JC IMAGEM


As pequenas ampliações do serviço promovidas pelo Grande Recife Consórcio de Transporte Metropolitano (CTM) em paralelo à retomada das atividades econômicas são um flagrante da pouca importância que o transporte público tem na prática. É valorizado apenas no discurso. Passamos toda a pandemia com 53% da frota de ônibus em operação, embora o Estado tenha criado um decreto determinando que os coletivos levassem os passageiros apenas sentados. Nas duas primeiras etapas da reabertura oscilamos para 54% e somente na terceira fase - nesta segunda (15) - é que o Estado ousou ampliar a frota de ônibus em 6%, passando para 60%. Por isso, não foi à toa que mais aglomerações foram vistas nos coletivos e terminais da RMR. Não estamos falando aqui de superlotações comuns ao pré-pandemia. Mas das aglomerações que propagam a contaminação do vírus que tanto o governo diz estar combatendo.

MESMA SITUAÇÃO NO METRÔ DO RECIFE
A situação do Metrô do Recife é a mesma. Está com uma operação reduzida aos horários de pico desde o início da pandemia, que joga os passageiros para a aglomeração e estimula a propagação do coronavírus. E apesar de um acréscimo de quase 10% no número de passageiros entre a primeira e a segunda fase de reabertura das atividades, com a perspectiva de mais gente nesta segunda (15), foi oferecida uma ampliação de apenas duas horas a mais na operação. Resultado: mais e mais aglomerações. No caso do metrô, a justificativa é o efetivo insuficiente de funcionários, já que 50% estariam afastados por fazerem parte do grupo de risco. Mas, novamente, uma demonstração de que o mínimo distanciamento social pouco importa.

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CBTU diz que o aumento de 8,17% dos passageiros no dia 8/6 não era suficiente para ampliar ainda mais a operação - JAILTON JR./JC IMAGEM

Na cidade de São Paulo, por exemplo, a falta de controle e pulso firme do órgão gestor sobre a oferta de transporte para a população fez o secretário da pasta, Edson Caram, pedir demissão depois de ser cobrado e ameaçado publicamente pelo prefeito Bruno Covas. A Prefeitura do Recife, assim como outros prefeitos da RMR - especialmente os de Olinda, Jaboatão dos Guararapes e Paulista -, também deveria se envolver na batalha para oferecer mais transporte para o trabalhador. Para quem não sabe, quase 80% do sistema de ônibus da RMR passa ou tem como destino o Recife. As duas linhas do Metrô do Recife também cortam as áreas Oeste e Sul da capital. Ou seja, não dá para a prefeitura se omitir e apenas delegar a responsabilidade ao Estado, via convênio.

Ou seja, a lição aprendida antes mesmo da pandemia fica ainda mais evidente agora: nossos gestores apenas planejam o transporte público coletivo. Não o utilizam. Por isso não se importam. Ou não se importam como deveriam.

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Metrô alega que não ampliou mais a operação porque 50% dos funcionários estão afastados por serem grupo de risco - JAILTON JR./JC IMAGEM

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