SEGURANÇA VIÁRIA

Por menos vítimas no trânsito

Dia Mundial em Memória das Vítimas do Trânsito, lembrado no terceiro domingo do mês de novembro, é um grito de basta de violência nas ruas e avenidas e por uma mobilidade mais humana, com menos motor

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 15/11/2020 às 4:55
Notícia
HEUDES REGIS/JC IMAGEM
O trânsito mundial é violento, mas o brasileiro é ainda mais. O País melhorou, conseguindo reduções - por mérito e graças a conjecturas - da violência sobre rodas nos últimos quatro anos anos. Saímos de 43.780 mortos em 2014 para 30.371 em 2019. Mas o trânsito segue feroz. Mata, mutila e custa muito caro por isso - são R$ 132 bilhões por ano - FOTO: HEUDES REGIS/JC IMAGEM
Leitura:

A data ainda é pouco conhecida entre os brasileiros, mas o Dia Mundial em Memória às Vítimas do Trânsito carrega um simbolismo sem igual. Principalmente no Brasil, onde o trânsito ainda mata 30 mil pessoas todos os anos e mutila outras 250 mil. O trânsito mundial é violento, mas o brasileiro é ainda mais. O País melhorou, conseguindo reduções - por mérito e graças a conjecturas - da violência sobre rodas nos últimos quatro anos anos. Saímos de 43.780 mortos em 2014 para 30.371 em 2019. Mas o trânsito segue feroz. Mata, mutila e custa muito caro por isso - são R$ 132 bilhões por ano, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). É um fenômeno permanente, que tem provocado mortes evitáveis. Por isso, precisa estar permanentemente sob controle.

Confira os especiais:

ELES SÓ QUERIAM PEDALAR

FILHOS DA DOR

Thiago Lucas/ Artes JC
Dia Mundial das Vítimas do Trânsito - Thiago Lucas/ Artes JC

A morte prematura, violenta e desumana - não teve, sequer, a esperança do socorro - da socióloga Marina Kohler Harkot, de 28 anos, cicloativista reconhecida nacionalmente na luta pela mobilidade urbana sustentável, é resultado dessa voracidade. Marina Harkot ganhou a cara das vítimas do trânsito, passou a representar os Joãos e Josés que todos os dias morrem nas ruas e avenidas do País. Atores que não ganharam destaque na mídia como Marina, mas que são as vítimas cotidianas do trânsito brasileiro. Embora os motociclistas e motoristas estejam no topo dos números (58%) - revelando o quanto o trânsito ainda é violento -, pedestres e ciclistas somam 21% das mortes.

No mundo, mais de 1,25 milhão de pessoas morrem por ano vítimas do trânsito, calcula a Organização Mundial da Saúde (OMS). São entre 30 e 50 milhões de feridos. Brasil, China e Índia respondem por 40% das mortes globais devido ao tamanho da população e à taxa de motorização. O Dia Mundial em Memória das Vítimas do Trânsito (The World Day of Remembrance for Road Traffic Victims - WDR) foi reconhecido oficialmente pela ONU em 2005, justamente por causa desses números assustadores. E desde 2007 passou a ser comemorado no Brasil.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
No mundo, mais de 1,25 milhão de pessoas morrem por ano vítimas do trânsito, calcula a Organização Mundial da Saúde (OMS). São entre 30 e 50 milhões de feridos. Brasil, China e Índia respondem por 40% das mortes globais - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Saiba mais sobre o Dia Mundial em Memória das Vítimas de Trânsito

Os números do País justificam a deferência aos mortos e aos seus familiares. O Brasil fechou a primeira Década de Ação pela Segurança no Trânsito, estipulada pela ONU de 2011 a 2020 sem alcançar a redução de 50% estipulada - ficou na casa dos 30%. E agora tem que se preparar para enfrentar o mesmo desafio com a segunda Década de Ação pela Segurança no Trânsito, que a ONU já estipulou para o período de 2021 a 2030. Quem perdeu pessoas para a violência sobre rodas lamenta a injustiça que ainda cerca os crimes e a complacência da sociedade com motoristas que adotam posturas perigosas ao volante.

“As coisas são devagar demais no nosso País. Como ficar feliz com as injustiças. Só há mudanças para quem tem dinheiro ou está no poder. É um País sem leis. O poder é para poucos e nós, que somos os menos favorecidos, sofremos as consequências e perdas. Há quatro anos minha alma ficou cinza. Só nos resta a tristeza e a angústia. Não consigo nem encontrar palavras para o que sinto, ninguém tem ideia da dor de sofrer e esperar por uma solução que não vem. Minha alma vive angustiada. Continuo com essa tristeza de saber que ninguém pagou pelo tão grande estrago que mudou nossas vidas. É lamentável viver num País onde pessoas tiram vidas e continuam livres”, desabafa Alda Valéria de Souza, companheira de Isabela Cristina de Lima, 26 anos, e amiga de Adriano Francisco dos Santos, 19 anos, atropelados e esmagados quando estavam na porta de casa, numa comunidade às margens da Avenida Desembargador José Neves (Canal do Jordão), em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, em 2016. O motorista corria e estava alcoolizado.

Artes JC
Dia Mundial das Vítimas do Trânsito - Artes JC

“Mais um dia em homenagem às vítimas dos crimes de trânsito chega e eu, mais uma vez, lembro do que aconteceu com meu pai. Mesmo tendo sido em 2007, tudo se torna muito recente quando vejo novos casos de crimes no trânsito. Sempre que tomo conhecimento, sinto que arranca um pedaço do meu coração. Percebo o pouco avanço que tivemos nesses anos todos. Choro, me emociono ao ver essas pessoas em entrevistas, cobrando justiça. Sinto a dor delas. Me vejo 13 anos atrás, esperando pela justiça que nunca veio”, lamenta Rosemary Costa de Sá, filha do aposentado João Rufino de Sá, atropelado enquanto caminhava na calçada por um motorista embriagado, em Casa Forte, Zona Norte do Recife, em 2007. De tão bêbado que estava ao volante, Felipe Rabello Emery, com 19 anos na época, dormiu ao lado do corpo do aposentado depois de atropelá-lo. Na época ainda não existia a Lei Seca e, apesar de os policiais o encontrarem totalmente alcoolizado dormindo no veículo, pagou uma fiança de R$ 900 e foi liberado. Terminou indiciado por homicídio culposo (sem intenção).

GUGA MATOS/ACERVO JC IMAGEM
Rosemary Costa de Sá, filha do aposentado João Rufino de Sá, atropelado enquanto caminhava na calçada por um motorista embriagado, em Casa Forte, Zona Norte do Recife, em 2007 - GUGA MATOS/ACERVO JC IMAGEM

Quem trabalha com o trânsito alerta para a importância de as pessoas perceberem o risco de suas atitudes quando estão no trânsito. “Nossos números de mortes e feridos pelo trânsito são absurdos. Por isso o comportamento individual, entender o risco de suas atitudes, ter um comportamento preventivo, é fundamental. Não só para os motoristas, mas também para motociclistas, pedestres e ciclistas. Essa data é um dia para essa reflexão”, alerta Renan Soares Junior, especialista em psicologia do trânsito e diretor de Relações Institucionais da Associação Brasileira de Psicologia do Tráfego (ABRAPSIT).

SILVIA BALLAN/DIVULGAÇÃO
A morte prematura, violenta e desumana - não teve, sequer, a esperança do socorro - da socióloga Marina Kohler Harkot, de 28 anos, cicloativista reconhecida nacionalmente na luta pela mobilidade urbana sustentável, é resultado da voracidade do trânsito brasileiro - SILVIA BALLAN/DIVULGAÇÃO

HISTÓRIAS DE DOR E REVOLTA

INDIGNAÇÃO NACIONAL
O atropelamento da socióloga Marina Kohler Harkot, de 28 anos, pesquisadora e cicloativista atuante, na madrugada do domingo (8/11), enquanto pedalava em Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo, gerou uma revolta nacional. Marina foi pega por trás por um condutor que sequer parou para socorrê-la. Querida e respeitada no mundo da ciclomobilidade e da mobilidade sustentável como um todo, colocou mais uma vez em evidência a lógica injusta do planejamento das cidades - na qual a mobilidade ativa segue subjugada à predominância dos veículos motorizados. A morte de Marina foi definida por uma amiga como a expressão de um urbanismo que promove a morte, que está muito preocupado com a velocidade de circulação. O empresário José Maria da Costa Júnior, de 33 anos, identificado como o suspeito do crime, se apresentou à polícia paulistana dois dias após o atropelamento, mas não foi preso por estar na semana eleitoral, quando apenas as prisões em flagrante podem ser efetuadas. Marina Harkot lutava pela ampliação da ciclomobilidade em São Paulo e no Brasil e pelo direito das mulheres pedalarem com segurança.

MARILIA HILDEBRAND/DIVULGAÇÃO
Ciclistas paulistanos fazem uma manifestação em homenagem à pesquisadora Marina Harkot, atropelada e morta por um motorista que fugiu do local - MARILIA HILDEBRAND/DIVULGAÇÃO

ATROPELADOS NA CALÇADA
Outro caso de morte no trânsito que coleciona episódios de impunidade é o atropelamento do casal de amigos Isabela Cristina de Lima, 26 anos, e Adriano Francisco dos Santos, 19, esmagados quando estavam na porta de casa, numa comunidade às margens da Avenida Desembargador José Neves (Canal do Jordão), em Boa Viagem, pelo empresário Pedro Henrique Machado Villacorta, 28 anos, que estava alcoolizado no dia do atropelamento e tinha um histórico de fazer vergonha como condutor: acumulava em 2016, época da colisão, 116 pontos na CNH resultantes de 27 multas registradas entre 2012 e 2016. O empresário foi retirado do local pela PM e levado, mesmo sem ferimentos, para atendimento na UPA da Imbiribeira, no lugar de ser encaminhado à delegacia de polícia. Está livre até hoje. Villacorta, inclusive, por pouco não escapa do julgamento por homicídio doloso. O juiz do caso desclassificou o crime para culposo, mesmo o MPPE tendo denunciado por dolo eventual. Mas, em 2017, o TJPE manteve a denúncia dos promotores.

Sérgio Bernardo/JC Imagem
O casal de amigos Isabela Cristina de Lima, 26 anos, e Adriano Francisco dos Santos, 19, esmagados quando estavam na porta de casa, numa comunidade às margens da Avenida Desembargador José Neves (Canal do Jordão), em Boa Viagem, pelo empresário Pedro Henrique Machado Villacorta, 28 anos, que estava alcoolizado no dia do atropelamento - Sérgio Bernardo/JC Imagem

MUITO ÁLCOOL E VELOCIDADE
Um dos casos mais violentos do trânsito registrados no Recife é a tragédia da Tamarineira, como ficou conhecida a colisão ocorrida em novembro de 2017, na Zona Norte do Recife e que destruiu a família do advogado Miguel Arruda da Motta Silveira Filho, 46, que perdeu a esposa Maria Emília Guimarães, 39, o filho mais novo Miguel Arruda da Motta Silveira Neto, 3, e a babá Roseane Maria de Brito, 23, grávida de quatro meses. O advogado e a filha mais velha, Marcela Guimarães, 5, sobreviveram, mas a garota ficou com sequelas. O veículo da família foi destroçado pelo condutor João Victor Ribeiro de Oliveira Leal, 25, que bebeu o dia inteiro e avançou o semáforo a 108 km/h, 22 segundos depois de o equipamento ter ficado vermelho. A violenta colisão também ficou conhecida por ser uma das poucas exceções da não impunidade no trânsito. João Victor foi preso em flagrante, indiciado e denunciado por triplo homicídio doloso (dolo eventual) e dupla lesão corporal grave. Segue preso e já teve diversos pedidos de habeas corpus negados. Ainda não há data certa, mas o julgamento no Tribunal do Júri é certo.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O veículo da família do advogado Miguel Arruda da Motta Silveira Filho foi destroçado pelo condutor João Victor Ribeiro de Oliveira Leal, 25, que bebeu o dia inteiro e avançou o semáforo a 108 km/h, 22 segundos depois de o equipamento ter ficado vermelho - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

O CARRO COMO ARMA
Ninguém acreditava que um carro pudesse ter sido usado como arma para matar a engenheira de computação Patrícia Cristina Araújo Santos, 46 anos, em 2018. No início, pareceu uma colisão de trânsito. Chegou a ser noticiado dessa forma. Mas o alerta da família levou a polícia a descobrir que se tratava de um feminicídio no trânsito. Guilherme José de Lira Santos, 47, marido de Patrícia por 19 anos, pai dos dois filhos dela – um casal de 12 e 14 anos –, foi indiciado e denunciado por jogar o carro que dirigia contra uma árvore na Boa Vista, área central do Recife, e de matar na hora a mulher e mãe de seus filhos. Patrícia recebeu o impacto de uma tonelada de ferro sobre o corpo. As imagens de um circuito de monitoramento dos edifícios confirmaram a violência: o veículo passando em alta velocidade e se chocando, brutalmente, contra a árvore. A destruição foi tanta que os bombeiros não conseguiram tirar Patrícia pela porta do passageiro. O corpo foi retirado pela porta traseira. Ela estava morta. E o marido, sem qualquer ferimento. Guilherme José de Lira Santos foi denunciado por feminicídio e o julgamento aconteceria em 2020, mas a pandemia paralisou o processo. Segue preso, depois de dois meses solto em 2019. Os dois filhos do casal são criados pela família da mãe, que tem enfrentado dificuldades financeiras.

LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM
Guilherme José de Lira Santos, 47, marido por 19 anos de Patrícia Cristina Araújo dos Santos, 46, e pai dos dois filhos dela – um casal de 12 e 14 anos –, foi indiciado e denunciado por feminicídio ao jogar o carro que dirigia contra uma árvore na Boa Vista, área central do Recife, e de matar na hora a mulher - LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM

30.371 PESSOAS
morreram no trânsito brasileiro em 2019, segundo dados preliminares do DataSUS, do Ministério da Saúde. É o menor número na última década. É 7% menor do que as mortes de 2018, que totalizaram 32.655

1,25 MILHÃO
de pessoas morrem por ano vítimas do trânsito, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E são entre 30 e 50 milhões de feridos. Brasil, China e Índia respondem por 40% das mortes globais

132 BILHÕES
de reais é o custo anual da violência no trânsito brasileiro, segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Somente Pernambuco gasta R$ 6,1 bilhões por ano

Comentários

Últimas notícias