CRIMINALIDADE

São Vicente Férrer vê "banho de sangue" com guerra entre grupos criminosos de Pernambuco e da Paraíba

Força-tarefa criada pela Polícia Civil investiga assassinatos numa cidade que, historicamente, sempre foi pacata, mas passou a vivenciar onda de violência nos últimos anos

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 17/04/2021 às 8:00
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ALEX OLIVEIRA/JC IMAGEM
MEDO Moradores de cidades do interior observam, atônitos, avanço de organizações criminosas que tiram vidas e o sossego das pessoas - FOTO: ALEX OLIVEIRA/JC IMAGEM
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Pernambuco comemorou, na última semana, a redução dos homicídios ao longo do primeiro trimestre deste ano. No acumulado, foram 834 mortes violentas contra 994 no mesmo período de 2020. Na contramão do resultado, municípios pernambucanos - a maioria localizada no interior - apresentaram alta taxa média de assassinatos por 100 mil habitantes (ver lista abaixo). No topo está São Vicente Férrer, no Agreste, a aproximadamente 115 km da capital. Diante do avanço da criminalidade, uma força-tarefa da Polícia Civil investiga os casos. 

O município tem uma população estimada em 18 mil habitantes. Historicamente pacato, São Vicente Férrer passou a vivenciar uma onda de violência nos últimos anos. Enquanto em 2015 registrou três assassinatos, a cidade chegou a 18 no ano passado. Só nos três primeiros meses deste ano, segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS), sete mortes violentas já foram registradas. A taxa média por 100 mil habitantes chegou a 38,63.

Levantamento feito pela coluna Ronda JC mostra que todas as vítimas eram do sexo masculino. E tinham idades entre 19 e 43 anos. Entre as principais motivações, a polícia diz que estão os conflitos entre grupos criminosos rivais e também o tráfico de drogas. "Os últimos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) registrados no município têm relação com recentes conflitos entre grupos criminosos de Pernambuco e da Paraíba - uma vez que se trata de área de divisa entre os dois estados", informou a SDS.

Em 19 de março, um duplo homicídio chocou os moradores de São Vicente Férrer. De acordo com as testemunhas, as vítimas de 20 e 34 anos estavam na Rua João do Melo quando foram surpreendidas por outros dois homens que já se aproximaram atirando. Os assassinos conseguiram fugir. A principal suspeita da polícia é que o crime tenha relação com as drogas, porque moradores contaram que as vítimas seriam usuárias.

Mas a taxa da violência na cidade ficou tão preocupante que a polícia decidiu criar uma força-tarefa para investigar esses crimes. "A 11ª Delegacia Seccional da Polícia Civil ativou uma força-tarefa para conferir celeridade aos inquéritos policiais na cidade, em consonância com as investigações e diligências que a Delegacia de São Vicente Férrer vem conduzindo, com o objetivo de chegar à autoria dos homicídios e à punição dos responsáveis", disse a SDS. Em paralelo, o 2º Batalhão de Polícia Militar disse ter reforçado o policiamento ostensivo com equipes táticas a pé e motorizadas para prevenir e reprimir a atuação desses criminosos. E, claro, dar um pouco de tranquilidade à população.

ARTES JC
Cidades com maior taxa de homicídios (por 100 mil habitantes*) - ARTES JC

REDUÇÃO

Depois de amargar aumento de 8,4% nos homicídios em 2020, mesmo com a pandemia da covid-19 e a consequente diminuição de circulação de pessoas nas ruas, Pernambuco começou o ano com bons resultados. O número de homicídios no primeiro trimestre foi o menor dos últimos sete anos - houve queda de 16%.

"Podem argumentar que a pandemia é responsável pela redução. Mas vimos o isolamento social fazer os assassinatos crescerem em todo o país, no ano de 2020. Podemos falar do trabalho das forças de segurança de Pernambuco, incansáveis no combate ao crime. Só em março, 224 homicidas foram presos, sendo 86 em flagrante. Isso mostra com clareza que os criminosos não param, e os nossos agentes da segurança param menos ainda", argumentou o secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua.

A socióloga e coordenadora do Gabinete de Assessoria Jurídica às Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, fez uma avaliação do resultado. "O lockdown exigiu uma distribuição do efetivo policial, com a inspeção de mais de 80 mil estabelecimentos. As fiscalizações e a presença da polícia desencorajam os crimes. Outro ponto: a própria tragédia da pandemia trouxe um sentimento de comoção nacional e isso tem influenciado a relação entre as pessoas, reduzindo os crimes de proximidade (aqueles que ocorrem entre vizinhos, por exemplo, por motivo banal)", pontuou.

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