CRIMINALIDADE

Guerra entre gangues eleva violência no Recife; abril teve maior nº de homicídios em 41 meses

Nova Descoberta e Ibura estão entre os bairros com mais casos de assassinatos; confira o ranking

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 18/05/2021 às 6:38
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BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
No último mês de abril, capital pernambucana registrou 60 assassinatos - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
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Se já não bastasse a pandemia da covid-19, a violência armada também está amedrontando quem vive na capital pernambucana. Principalmente nos bairros periféricos, onde a criminalidade e o tráfico de drogas se multiplicam, resultando em guerra entre gangues rivais. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS), Recife registrou 209 Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), que englobam os homicídios e latrocínios, entre janeiro e abril deste ano. Foram 20 casos a mais do que no mesmo período do ano anterior - um aumento de 10,58%. 

Mês a mês a capital pernambucana segue a tendência de crescimento da violência. E o ápice, até agora, foi atingido em abril deste ano, quando 60 pessoas foram assassinadas - uma média de duas por dia. Foi o pior resultado em 41 meses - a última vez que o Recife atingiu esse patamar foi em novembro de 2017, ano em que Pernambuco contabilizou recorde histórico de homicídios. Diferente do registrado naquele ano, o Estado, como um todo, apresenta recuo da violência. Entre janeiro e abril foram 1.136 CVLIs contra 1.316 no mesmo período de 2020. A queda foi de 13,8%.

A ativista de direitos humanos Emmanuelly Carolina Barbosa Fragoso, 33 anos, foi uma das vítimas da violência na capital neste ano. Logo após sair de um restaurante no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife, ela foi assassinada com vários tiros por dois homens que chegaram em um carro, em 29 de abril. Conhecida por denunciar irregularidades no sistema prisional pernambucano, a vítima fundou um grupo "Canta Liberdade", para receber denúncias e ajudar familiares de presos. O caso segue impune. Questionada sobre a autoria e motivação do crime, a Polícia Civil diz que "a investigação segue sob sigilo. E só poderemos nos pronunciar ao término do trabalho policial".

ARTE JC
Estatísticas da violência em Pernambuco - ARTE JC

Mas o que explica o Recife estar com a violência em alta, na contramão de Pernambuco?

De acordo com a SDS, "as disputas de território entre grupos com atuação no narcotráfico vitimaram pessoas em alguns territórios específicos da cidade, que já estão sendo alvo de ação integrada de policiamento ostensivo, especializado, operações de repressão qualificada, cumprimento de mandados e desarticulação de quadrilhas". 

O gestor do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Bruno Magalhães, também comenta. "A atividade criminal é cíclica. A polícia está sempre trabalhando para diminuir a violência. É o que a gente almeja. Aqui no Recife não há muitos casos de crimes de proximidade. O problema está no tráfico. No começo do ano, os homicídios estavam em alta na área integrada do bairro da Várzea e proximidades. Conseguimos diminuir e houve redução em abril, por exemplo. Agora, a área de bairros como Nova Descoberta e Macaxeira está com mais casos. Mapeamos e descobrimos que existia uma disputa pelo tráfico de drogas entre grupos. Inclusive com detentos. Conseguimos a transferência deles para outro presídio (de segurança máxima)", afirma.

Dados do Instituto Fogo Cruzado, que mapeia a violência armada no Grande Recife, mostram que o bairro de Nova Descoberta, na Zona Norte do Recife, lidera o número de mortes nos primeiros quatro meses deste ano. Foram menos 11 vítimas. O bairro do Ibura, na Zona Sul, aparece em seguida com 10 casos. Lá também o tráfico de drogas é um problema que a polícia tenta, há anos, combater.

Instituto Fogo Cruzado
Dados da violência armada no Recife - Instituto Fogo Cruzado

A SDS informa que, somente no Recife, 31 operações de repressão qualificada foram desencadeadas neste ano para prender criminosos. "Estão envolvidas nessas ações as diretorias metropolitanas e especializadas da Polícia Militar e Polícia Civil", diz a pasta. 

DESIGUALDADE E PREVENÇÃO

Para a socióloga e coordenadora do Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares (Gajop), Edna Jatobá, o aumento da violência não é só um problema que pode ser solucionado apenas com a repressão da polícia. "A pandemia aumentou a desigualdade e a pobreza, que historicamente atingem primeiro as cidades com mais de 100 mil habitantes. A pobreza acaba elevando a violência, porque muita gente acaba entrando para o mundo das drogas para sobreviver. Por isso a necessidade de os municípios agirem, junto ao Estado, para diminuir a desigualdade. É preciso uma articulação com todas as políticas públicas. Não é só caso de polícia", afirma. 

A longo prazo, o bairro do Ibura - que aparece em segundo lugar com maior número de mortes neste ano na capital - contará com um projeto de prevenção à violência. O secretário de Segurança Cidadã do Recife, Murilo Cavalcanti, diz que um Centro Comunitário da Paz (Compaz) será instalado no bairro. Atividades esportivas, educativas e serviços essenciais a todos os públicos serão oferecidos no equipamento, que já conta com outras quatro unidades na capital - a primeira foi no Alto Santa Terezinha em 2016 e que ajudou a integrar os moradores da localidade e reduzir os números de violência. Por conta da pandemia, no entanto, várias atividades estão suspensas nos quatro Compaz. "Estamos operando com 30% da capacidade por causa das restrições. Estamos sem atividade esportiva, sem aulas de formação profissional", lamenta Cavalcanti.

PERNAMBUCO

Edna Jatobá avalia que o Estado conseguiu uma redução nos homicídios graças às regiões do interior. "Talvez porque lá houve uma maior distribuição da polícia nos momentos em que houve lockdown", diz. Na comparação do 1º quadrimestre de 2021 e 2020, os CVLIs decresceram em 23,7% no Agreste (308 para 235). Também recuaram na Zona da Mata, em -23,31% (296 para 227), no Grande Recife em -13,67% (373 para 322) e, no Sertão, a diferença foi de -6% (150 para 141).

 

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