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Coronavírus: a solidão da quarentena perturba a saúde mental

Confinamento gera um sentimento de incerteza, tédio e solidão

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Publicado em 10/03/2020 às 15:38
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Os primeiros 100 mil casos foram relatados em cerca de 55 dias e os primeiros 500 mil, em 76 dias - FOTO: JUNG YEON-JE/AFP
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O medo da infecção, a solidão da quarentena e a pressão dos médicos para salvar vidas são alguns dos muitos problemas que fazem parte da rotina de trabalho de psicólogos na China, que está mergulhada na comoção causada pela epidemia do novo coronavírus.

A escassez de profissionais qualificados aumenta o problema em um país onde 50 milhões de habitantes estão confinados na província de Hubei, no centro do país. Ponto de origem do vírus, muitos chineses desta região ainda estão sendo mantidos em quarentena em suas casas.

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"Todos os dias, cerca de 20 pessoas ligam. Algumas pessoas viram seus entes queridos morrerem, devido à falta de medicamentos no início da epidemia, quando não havia leitos suficientes nos hospitais", explica Xu, psicólogo de um hospital de Wuhan.

Estudantes presos em casa, porque as escolas continuam fechadas, grávidas que têm medo por seus bebês, ou pais que devem enfrentar o problema do fechamento de creches e escolas também telefonam para essas linhas de assistência psicológica.

"Muitos telefonemas também vêm de pacientes nervosos, porque o tratamento não tem efeito sobre eles, ou de pessoas com medo de contágio", acrescenta Xu.

Em Wuhan, na província de Hubei, os primeiros casos foram detectados no final de 2019. A maioria das mortes e dos contágios também está concentrada na cidade e, portanto, a ajuda psicológica é mais necessária.

O novo coronavírus contaminou mais de 80.750 pessoas na China, das quais mais de 4.000 morreram.

O confinamento, ao qual milhares de chineses são forçados, também gera um sentimento de incerteza, tédio e solidão, sublinha Chee Ng, professor de psiquiatria da Universidade de Melbourne, na Austrália.

"Quanto mais longa a quarentena, mais repercussões ela tem na saúde mental", diz ele.

Poucos psiquiatras

A China tem apenas 2,2 psiquiatras a cada 100 mil habitantes, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). É um país onde a aceitação e o tratamento de problemas psicológicos ainda são limitados.

O Ministério da Saúde informou que mais de 300 linhas telefônicas de assistência psicológica foram ativadas por universidades, autoridades locais, ou organizações especializadas.

Vários voluntários desses serviços em Pequim, ou em Xangai, disseram à AFP não terem recebido qualquer treinamento específico para lidar com uma crise dessa magnitude.

"E alguns deles afundam quando o turno termina", conta Ming Yue, psiquiatra estagiária nesta plataforma criada por uma universidade em Pequim. "Eles estão chocados e tristes", acrescenta. De Wuhan, Xu explica que acorda todas as manhãs e dedica alguns minutos à meditação antes de ir ao hospital para trabalhar. "É minha maneira de ser forte. Caso contrário, a carga psicológica seria muito pesada", explica.

Música relaxante

Os médicos e profissionais da saúde que trabalham com os doentes nos hospitais também fazem parte dos grupos mais vulneráveis, principalmente quando precisam cuidar de seus colegas doentes. Mais de 3.400 trabalhadores de serviços de saúde foram infectados, conforme dados oficiais.

A propaganda estatal os apresenta como "heróis", o que poderia ter um efeito negativo sobre eles, segundo o professor Chee Ng. "Quando eles são apresentados como fortes e totalmente dedicados ao trabalho, é mais difícil aceitar suas próprias fraquezas", explica.

O secretário-geral da Associação de Conselheiros Psicológicos de Hubei, Du Mingjun, relata que recebeu apenas alguns telefonemas de profissionais da saúde.

"A maioria deles está muito ocupada, ou com vergonha de pedir ajuda", explica ele.

A falta de profissionais qualificados também levou à criação de grupos on-line, dos quais centenas de pessoas participam. Eles compartilham conselhos de especialistas, exercícios de meditação, música relaxante, ou experiências pessoais.

"Minha vida hoje é como se alguém tivesse pressionado o botão 'pausa'", escreve um cidadão em um desses fóruns de conversa. Ele mora em Wenzhou, leste da China, outra cidade confinada. "Não sei quando poderei dar 'play' e voltar à rotina", completa.

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