COLUNA JC SAÚDE E BEM-ESTAR

Aulas presenciais: como deve ser o retorno à escola?

Protocolo de retorno às escolas é focado na redução de riscos da infecção, mas não é possível eliminá-los - pelo menos, considerando o momento atual

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 13/09/2020 às 21:49
Análise

FREEPIK/BANCO DE IMAGENS
Aulas deverão ser retomadas quando o panorama da epidemia de covid-19 for de curva ascendente, quando houver leitos de terapia intensiva disponíveis e redução de óbitos, segundo especialistas - FOTO: FREEPIK/BANCO DE IMAGENS
Leitura:

Nos últimos dias, tornou-se mais intensa a discussão sobre a retomada das aulas presenciais na educação básica e a expectativa sobre o anúncio do calendário para esse retorno em Pernambuco. E como essa volta deve estar associada ao cenário epidemiológico da covid-19, entendo que é importante trazermos informações sobre o assunto para este nosso espaço dominical. Mas aqui não vamos focar em pontos contra ou a favor da retomada das atividades presenciais. A nossa intenção é levantar pontos que devem ser priorizados quando chegar esse momento.

Em uma das palestras remotas apresentadas pelo pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, assimilei um detalhe que merece ser considerado pelas famílias, especialistas, gestores das escolas e autoridades sanitárias. Ele diz que as aulas deverão ser retomadas quando o panorama da epidemia for de curva descendente, leitos de terapia intensiva disponíveis e redução de óbitos.

Outra faceta do tema está no fato de que o protocolo de retorno às escolas é voltado na redução de riscos de infecção, mas não é possível eliminá-los - pelo menos, considerando o momento atual. Por isso, com base no material Covid-19 e a volta às aulas, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), reunimos alguns pontos que podem ajudar a promover a segurança quando for autorizada a reabertura das escolas, a fim de que o novo coronavírus passe longe do ambiente escolar.

1. Salas de aula

As medidas de distanciamento social devem ser adotadas na escola, com o objetivo de diminuir a circulação de pessoas no mesmo espaço, a fim de reduzir o contágio. Num primeiro momento, o número de alunos por sala deve ser reduzido: eles podem ser divididos em grupos que se alternem entre a atividade presencial e a distância. É recomendável manter um espaçamento entre os alunos, de acordo com a realidade de cada instituição, idealmente com espaço mínimo de um metro entre as mesas.

2. Intervalos, horários de chegada e saída

Cabe à escola evitar aglomerações, na entrada, na saída de estudantes e intervalos, criando horários alternativos para as turmas. A instituição deve se organizar para que cada grupo tenha intervalos em horário diferente. É preciso estabelecer ainda horários de entrada e saída escalonados. Sobre o transporte escolar, é necessário avaliar o número de passageiros, para que se preserve distância recomendável entre as pessoas no veículo.

3. Vigilância e monitoramento

Se profissionais da comunidade escolar, crianças ou membros da família apresentarem sintomas de covid-19 e/ou teste positivo, a instituição precisa ser comunicada, e o retorno deve acontecer quando houver melhora do quadro (não antes de 14 dias, a contar do primeiro dia de sintomas).

4. Higiene e demais medidas de prevenção

Máscaras devem ser usadas por todos e durante todo o tempo, sendo trocadas a cada duas horas ou se estiverem úmidas. Elas são contraindicadas para menores de 2 anos. Além disso, a escola deve oferecer diversos locais para lavagem de mãos, água, sabão e álcool em gel. A escola tem que propiciar ambientes arejados, e atividades ao ar livre podem ser estimuladas.

5. Rotinas para alimentação

Deve-se aumentar o distanciamento, na hora do lanche, para dois metros, devido à retirada da máscara. Filas nas cantinas e lanchonetes devem ser organizadas.

6. Socialização

Jogos, esportes, festas, reuniões, comemorações, uso do parquinho e atividades que envolvam coletividade devem ser suspensos.

7. Outras recomendações

Alunos com contraindicação de frequentar a escola por terem doenças crônicas devem seguir com o ensino remoto. Alguns profissionais sugerem que, especialmente nesses casos, as famílias devem consultar um profissional de saúde ou o pediatra que acompanha a criança ou o adolescente.

O que pensam os professores, segundo pesquisa

A Nova Escola, organização de Educação e marca reconhecida por professores do ensino básico no Brasil,
fez um levantamento para saber a opinião dos educadores sobre o retorno das aulas presenciais. Entre os 8.140 respondentes, 78,3% não concordam com essa volta neste segundo semestre. A maioria relata receio de infecção e de falhas no cumprimento de protocolos. Entre esse grupo, 53% dizem que, como a pandemia não acabou, eles temem pela própria saúde e segurança. Além disso, 48% não sentem confiança que as escolas consigam seguir medidas de higiene. Para 30% dos que não concordam com o retorno, há a possibilidade de nem todos os pais enviarem os alunos, o que poderá ampliar a desigualdade no processo
de aprendizagem. E 17% alegam que o ensino remoto tem funcionado e pode ser uma opção até a pandemia acabar. Por outro lado, entre os 21,7% dos professores que desejam a retomada neste segundo semestre, 60% afirmam que o ensino remoto não alcança todos os estudantes, o que gera desigualdade.
Ainda nesse grupo, 30% dizem que têm orientações de higiene e pedagógicas necessárias para voltar com segurança. E mais: 22% acreditam que o retorno à escola é necessário porque os pais dos alunos estão voltando ao trabalho e precisam que as instituições de ensino estejam de portas abertas.

Acolher sem abraços: desafio no ensino infantil

Com quase seis meses em casa, longe do ambiente escolar, um dos principais espaços de socialização na
infância e na adolescência, crianças e jovens aguardam ansiosamente o dia da retomada das aulas presenciais. Quando esse momento chegar, as famílias, as escolas e as crianças passarão a lidar com um grande desafio, especialmente o de acolhida emocional mútua, um ponto que precisa ser reforçado no retorno às escolas. Isso é um dos detalhes que demonstram o quanto a volta às salas de aula vai além dos aspectos estruturais e organizacionais do ambiente escolar. Nas aulas online em casa, os alunos,  especialmente os menores, encontram nos pais a segurança e a confiança para realização das tarefas e resolução de problemas. Os professores, que transformaram um local do seus lares em sala de aula, não estavam preparados para migrar para o ensino remoto. E agora certamente eles precisam de apoio para voltar às aulas presenciais, que serão bem diferentes da era pré-covid. Para toda a comunidade escolar, um apoio psicopedagógico e psicoemocional deve se fazer presente neste novo momento, em que estresse,
ansiedade e insegurança possam ser controlados de forma que não se traga mais conflito.

 

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