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Duas semanas após praias cheias, Pernambuco não tem alta de casos de covid-19; Recife registra "ponto fora da curva"

Passados 14 dias das aglomerações nas praias, a média móvel de casos do novo coronavírus se mantém estável no Estado. O Recife apresentou aumento nas notificações no último domingo (22), mas secretário avalia incremento como consequência de acúmulo de registros no sistema

Katarina Moraes Cinthya Leite
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Katarina Moraes
Cinthya Leite
Publicado em 22/09/2020 às 18:58 | Atualizado em 25/09/2020 às 9:39
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
SETE DE SETEMBRO No feriadão, as pessoas se aglomeraram nas praias e ignoraram medidas sanitárias, como o uso obrigatório de máscara - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Em meio ao processo gradual de retomada das atividades de lazer e diante da estabilização dos casos da covid-19 em Pernambuco, o feriado prolongado do Dia da Independência (7 de setembro) atraiu, como em todos os anos, milhares de pessoas às praias dos Litorais Sul e Norte do Estado. Nas faixas de areia, o desrespeito às regras sanitárias era evidente: poucas pessoas usando máscaras, aglomerações e ausência de distância mínima entre muitas das barracas. O cenário fez com que a população e especialistas temessem o repique da covid-19. Passados 14 dias (duração média do período de incubação, que é o tempo que leva para os primeiros sintomas aparecerem desde a infecção pelo novo coronavírus), a média móvel de casos do coronavírus se mantém estável em Pernambuco (veja gráficos abaixo), mesmo que, para alguns especialistas, esse patamar ainda seja alto.

A média móvel é uma análise que soma os números de casos de um dia com os dos seis dias anteriores, dividindo o resultado por sete. O resultado reúne a influência de todos os dias da semana e pode ser atualizado diariamente. É uma forma de fazer um retrato da semana para diluir o represamento de notificações de covid-19 que geralmente ocorre nos fins de semana. 

O JC analisou os dados divulgados em boletim diário da Secretaria Estadual de Saúde entre os dias 8 e 22 de setembro. Confira:

Em entrevista à Rádio Jornal, nesta terça-feira (22), a infectologista Vera Magalhães, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), disse que os dados epidemiológicos, após duas semanas desde o feriadão, foram "surpreendentes". "Eu achei que fôssemos ter um repique", reconheceu. 

A especialista afirma que existem possibilidades para a estabilização ter ocorrido mesmo após as aglomerações, mas que não há resposta definitiva. "Existem várias possibilidades. [A primeira é] desenvolvimento de uma imunidade. Acha-se que ela existe, mas que é temporária. Então, se continuarmos com esses comportamentos, é possível que tenhamos um repique no futuro. Outra possibilidade seria uma mutação do vírus, que o tenha tornado mais ameno, mas isso também não tem comprovação", disse.

Segundo Vera Magalhães, um dos fatores que também podem ter evitado a alta de casos é o uso da máscara. "Existem estudos que apontam que o uso da máscara, mesmo que não impeça completamente a transmissão do vírus, pode diminuir a gravidade da doença. Esse seria um fator que poderia, de certa forma, explicar o não repique. É por isso que devemos continuar com o uso da máscara e o distanciamento social", alertou.

Assim como Vera, o epidemiologista Rafael Moreira, pesquisador da Fiocruz Pernambuco, também faz referência à imunidade coletiva. "O fato de muitas pessoas terem sido expostas e contaminadas, tanto de forma assintomática como sintomática, levou a uma imunidade para a covid-19. Isso fez com que, também, quem sobreviveu ficou, de certa forma, imune. Há casos raros de pessoas que pegaram mais de uma vez, mas é exceção. Muita gente pode ter se tornado imune o que, de certa forma, diminuiu o número de casos e de óbitos", acredita. Para Rafael, se o feriadão do 7 de Setembro fosse no começo da pandemia, o caos certamente teria se instalado. "Só que, como aconteceu basicamente seis meses depois, houve todo esse tempo de contaminação espontânea e de aprimoramento."

O pesquisador acrescenta que a sociedade pode estar vivendo a tão esperada descida da curva epidêmica. "Queremos acreditar nisso. Mas a experiência de outros países mostraram que houve novos momentos de subida, de surto. A gente não tem a vacina, não tem medicação. Li alguns artigos que dizem que a doença está menos letal; não sei se está ficando menos letal ou se estamos sabendo cuidar melhor dos pacientes. A gente não sabe até que ponto o vírus mudou para ficar mais brando."

Na capital pernambucana

No Recife, o último domingo (20), primeiro dia da atual semana epidemiológica, a de número 39, despertou a atenção por apresentar a confirmação de 426 casos nas últimas 24 horas. Para se ter ideia, é um dado um pouco menor do que o registrado ao longo de toda a semana de número 37 (6 a 12 de setembro), quando a cidade contabilizou 438 casos. "Analiso o aumento do domingo (dia 22) como um ponto fora da curva. Não parece ser um aumento real. Às vezes, há mudanças no sistema (de notificação) que podem levar a esse incremento. Esse dado parece mais ser algo decorrente de um acúmulo de notificações, que foram liberadas de uma vez, do que uma tendência epidemiológica de aumento de casos de covid-19 na cidade", explica o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia. 

Para fazer essa análise, ele considerou outros indicadores que ajudam a entender a tendência da epidemia. "Não detectamos aumento no número de atendimentos (por quadros respiratórios) nas unidades de atenção básica. O Samu também não registrou mais chamados e atendimentos. Além disso, a taxa de positividade de casos (por semana epidemiológica), que já esteve em 65%, mantém-se inferior a 20% por cinco semanas, em média. Por isso, esse aumento (do último domingo) não parece configurar uma tendência", esclareceu. Ainda assim, o secretário reforça que está atento ao momento e segue monitorando os dados da epidemia na capital. 

Confira os casos da covid-19 em Pernambuco por município:

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