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Médico acredita que Brasil poderá seguir estratégia do Reino Unido: "segunda dose da vacina após 3 meses da primeira"

Nesta entrevista, Eduardo Jorge da Fonseca Lima analisa o planejamento da vacinação contra covid-19

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 10/01/2021 às 16:39
Entrevista

GLEYSON RAMOS/DIVULGAÇÃO
No Reino Unido, a opção foi dar uma dose, e a 2ª depois de três meses (e não com 21 dias). "Com isso, é possível imunizar de forma rápida mais pessoas", diz Eduardo Jorge - FOTO: GLEYSON RAMOS/DIVULGAÇÃO
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Entre os mais reconhecidos especialistas em imunização do Brasil, o médico Eduardo Jorge da Fonseca Lima comenta sobre o planejamento da vacinação contra covid-19 e explica por que o País poderá adotar estratégia semelhante à do Reino Unido.

JC - Como o senhor analisa o planejamento da estratégia de vacinação contra covid-19?

EDUARDO JORGE - A pandemia é muito grave, e nós temos a meta de vacinar o maior número possível de pessoas num curto espaço de tempo. Para os brasileiros, incomoda o fato de vários outros países já terem começado a imunização. E aqui ainda se está numa expectativa. Para o Brasil, de fato, temos duas vacinas: a da AstraZeneca e a do Butantan. O País, no começo da pandemia, fez a escolha de não ter negociado com tantos laboratórios, o que trouxe grande desvantagem. Há ainda a possibilidade de compra da vacina da Pfizer, cerca de 80 milhões de doses, mas ainda não se bateu o martelo sobre essa aquisição.

JC - Como avalia a vacina da AstraZeneca?

EDUARDO JORGE - Os estudos de fases 1 e 2 dessa vacina foram os mais robustos, com melhores resultados, pois avaliaram a imunidade humoral (produção de anticorpos) e a imunidade celular. Isso dava tranquilidade de que esse imunizante funcionaria bem. Mas veio o estudo de fase 3, que teve a complicação do grupo que tomou dose menor do que era para receber e inexplicavelmente essas pessoas tiveram a melhor resposta do que o grupo que tomou as duas doses plenas, com resposta de 72%. Atualmente a AstraZeneca trabalha com subgrupos de voluntários e revendo dados, o que permitiu a inferência de que uma dose aplicada poderia dar proteção.

JC — É o que vem sendo feito no Reino Unido?

EDUARDO JORGE - Como a pandemia se alastra na Europa em meio a uma nova mutação, com transmissibilidade maior do que 70%, há premência de vacinar rapidamente a população. Então, a opção foi dar uma dose, e a 2ª depois de três meses (e não com 21 dias). Com isso, é possível imunizar de forma rápida mais pessoas. Nos subgrupos dos estudos, quem tomou uma dose já teve soroproteção de 70% a partir de 21 dias. E como a gente tem que deter a pandemia e vacinar mais rápido o maior quantitivo de pessoas, essa ação de retardar a 2ª dose tem lógica. Mas, com essa estratégia, é preciso considerar a hipótese de o vírus possa ser enganado com a 1ª dose e criar resistência, além do risco de as pessoas não voltarem para tomar a 2ª dose após um intervalo maior, de três meses. Particularmente acho que a necessidade de vacinar de forma rápida é uma estratégia que poderá ser repetida no Brasil.

 

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