ENTREVISTA

Vice-diretor da OPAS acredita que ampliação da vacinação é uma forma de barrar novas variantes da covid-19

Jarbas Barbosa falou sobre a temática no Passando a Limpo desta terça-feira (09)

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 09/02/2021 às 12:16
Notícia

Tânia Rêgo/Agência Brasil
VACINA CONTRA A COVID-19 - FOTO: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Leitura:

O vice-diretor da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS), o médico Jarbas Barbosa, concedeu entrevista ao Passando a Limpo da Rádio Jornal nesta terça-feira (9) e falou sobre a ampliação da vacinação contra a covid-19 como uma forma de barrar o surgimento de novas variantes.

“O mundo estaria muito mais protegido se a gente já tivesse mais vacinas disponíveis e as pessoas estivessem mais vacinadas, porque a gente não daria chances para novas variantes aparecerem. As novas variantes só aparecem porque o vírus continua se disseminando”, explicou.

De acordo com o Our World in Data, plataforma da Universidade de Oxford, o Brasil, até o momento, imunizou cerca 3,4 milhões de pessoas, o que corresponde a apenas 1,6% de sua população de cerca de 210 milhões. Uma porcentagem muito abaixo dos 70% que os especialistas consideram ideal para garantir uma imunização segura da população e controlar a pandemia.

Para Jarbas Barbosa, Israel deve ser o primeiro país a atingir a marca. “Acho que a gente, muito em breve, vai ter o primeiro país a atingir 70% de cobertura vacinal, que é Israel. Infelizmente Israel é uma exceção a conseguir uma vacinação muito rápida. Mas talvez a gente tenha a comprovação de que depois que passa de 70% da população vacinada a gente consegue interromper a transmissão do vírus”.

Israel já vacinou 40% da população, segundo dados da Universidade de Oxford, da Bloomberg, e do Consórcio de veículos divulgados pelo Portal UOL. Lá, a vacinação contra a covid-19 começou ainda no final de 2020.

Além da vacinação, o médico também abordou a importância de monitorar a saúde dos pacientes que já contraíram o novo coronavírus. Barbosa acredita que este acompanhamento é crucial para descobrir se outros órgãos acabaram afetados pela doença.

"Acho que acompanhar, mesmo os que tiveram caso leve, é importante, porque muitas vezes você pode ter alguma manifestação de longo prazo. Tem pessoas que precisaram fazer fisioterapia por meses pra recuperar totalmente a capacidade pulmonar, tem impacto em outros órgãos. É importante fazer um monitoramento do paciente para confirmar mesmo se todos os órgãos continuam funcionando bem", concluiu.

Veja a íntegra da entrevista:

Rádio Jornal: Queria começar perguntando sobre uma questão que era uma preocupação do Dr. Gauss Cordeiro. Ele dizia que tinha uma grande preocupação com crianças que tinham de forma assintomática a covid-19 e quais as sequelas disso. Existe algum estudo sobre isso?

Jarbas Barbosa: A observação é que a grande maioria das crianças tem uma forma muito leve de covid. Efetivamente um número pequeno de crianças existe uma reação inflamatória grave e pode levar a um quadro mais severo, que exige atenção. Mas quando a gente olha as taxas de mortalidade entre crianças, adolescentes e adultos jovens é muito baixa quando a gente compara com adultos e com idosos. Agora, claro que algum efeito de longuíssimo prazo nós só vamos poder avaliar no futuro, mas até agora, um pouco mais de um ano depois das primeiras infecções, nós não temos uma avaliação de que haja algum risco futuro para quem desenvolveu um caso leve.

Rádio Jornal: Aqui já tem grupos de médicos que estão sugerindo um check-up completo em qualquer pessoa que tenha contraído a covid-19, por conta de diversos órgãos que são atingidos.

Jarbas Barbosa: É uma doença nova, então creio que essa atitude é uma atitude prudente. Acho que acompanhar, mesmo os que tiveram caso leve, é importante, porque muitas vezes você pode ter alguma manifestação de longo prazo que ocorre em pessoas que precisam ser acompanhadas. Tem pessoas que precisaram fazer fisioterapia por meses para recuperar totalmente a capacidade pulmonar, tem impacto em outros órgãos. É importante fazer um monitoramento do paciente para confirmar mesmo se todos os órgãos continuam funcionando bem.

Rádio Jornal: Queria que o senhor falasse um pouco das variantes e dos efeitos das vacinas. Pelo menos três grandes variantes já estão sendo monitoradas e já estão se espalhando, uma delas nossa, daqui do Amazonas, além da Sul Africana e da variante do Reino Unido, que parece que teve um poder de contaminação maior do que o vírus original. Queria saber se já existem estudos preliminares indicando que algumas vacinas não tenham o efeito de imunizar, por exemplo, contra a variante da África do Sul, acredito que a vacina de Oxford não tem se mostrado eficiente na imunização quanto a essa variante, pelo menos nos estudos preliminares. Queria que o senhor explicasse, apesar disso, a importância da pessoa se vacinar, independentemente desses estudos provarem que a vacina não vai servir para todas as variantes. Porque o que eu temo é que esses estudos terminem reforçando a campanha anti-vacina.

Jarbas Barbosa: Essas variantes podem realmente alterar o comportamento do vírus. Inclusive a variante do Reino Unido já se tem evidências que ela é mais contagiosa e com isso, quanto mais casos se tem, mais casos graves aparecem e com isso o serviço de saúde pode ser sobrecarregado de maneira mais rápida. Foi percebido na África do Sul um numero muito pequeno de casos de pessoas que tinham sido vacinadas com a vacina da Astrazeneca/Oxford e que desenvolveram a doença. Isso está sob avaliação, porque nenhuma vacina é 100% eficaz. A comprovação da eficácia é que você tem menos casos entre os vacinados do que entre os não vacinados, e isso acontece com qualquer vacina praticamente. Então é muito importante tomar a vacina, sem dúvidas. Esse caso que aconteceu na África do Sul está sob estudo. Está sob investigação, se foi realmente porque os anticorpos criados pela vacina não conseguiram proteger a pessoa contra a nova variante ou se foi o que a gente chama de falha primária. Ou seja, uma pessoa que tomou a vacina e que por algum motivo do seu sistema imunológico ela não desenvolveu anticorpos suficiente. De toda maneira eu concordo que o mundo estaria muito mais protegido se a gente tivesse mais vacinas disponíveis e as pessoas estivessem mais vacinadas, porque a gente não daria chance para as novas variantes aparecerem. As novas variantes só aparecem porque o vírus continua se disseminando. Acho que a gente muito em breve vai ter o primeiro país que vai alcançar 70% de cobertura vacinal, que é Israel. Infelizmente Israel é uma exceção, teve uma vacinação muito rápida, mas a gente vai ter a comprovação lá que depois que passa dos 70% da população vacinada a gente consegue realmente já interromper a transmissão do vírus.

Rádio Jornal: O nosso correspondente de Israel, já que o senhor falou de lá, Mário Roberto Melo, nos deu a informação que ele estava impressionado como essa notícia não havia repercutido, de um remédio que surgiu em Israel, e que de 36 pessoas que foram hospitalizadas, algumas graves, elas foram todas curadas. É um medicamento utilizado contra o câncer, então foi um grupo de pacientes em estado grave, que começou a ser tratado com esse medicamento e que tiveram uma recuperação muito rápida, inclusive com pouquíssimos dias, de dois há três dias. E desse grupo de 30, apenas um não teria ficado curado imediatamente, mas 29 ficaram curados de dois a três dias. Essa amostragem é pequena, por isso não repercute?

Jarbas Barbosa: Exato. Essa amostragem é muito pequena. Para fazer comprovação de que um medicamento tem eficácia é preciso fazer o chamado estudo de caso controle. É um estudo que você compara pessoas que tomaram esse medicamento com pessoas que tomaram placebo. Aí você comprova efetivamente que em condições semelhantes, pacientes de mesma idade, mesma gravidade, o desfecho foi diferente. Porque infelizmente o que pode acontecer muitas vezes é que vários pacientes melhoram, com medicamentos, mas esse medicamento tem que demonstrar que tem superioridade em relação aos outros. Creio que essa notícia é promissora, mas precisa ser comprovada para que a gente possa ter segurança de fazer a recomendação. Essa notícia, inclusive, foi recebida com uma boa expectativa, mas precisa ainda ser comprovada com estudo mais consistente.

Rádio Jornal: E o remédio que está sendo testado na Alemanha? Que teria sido usado em Donald Trump, e que a Alemanha se interessou? Tem alguma informação?

Jarbas Barbosa: Tem alguns medicamentos experimentais que são utilizados, mas ainda não existe nenhuma comprovação forte de que ele tenha uma vantagem quando utilizado. O único medicamento até agora, que se mostrou efetivo, naqueles quadros mais graves de pessoas que precisam de assistência respiratória, foi o Dexametasona, mas utilizado em pacientes graves, não em qualquer paciente. Em pacientes graves, a Dexametasona comprovou uma redução na mortalidade de 30%.

Rádio Jornal: Dr. Jarbas, vou citar aqui três movimentos que ocorrem aqui no Brasil, acredito que devido à baixa velocidade de vacinação em nosso país. O primeiro já arrefeceu um pouco, até porque houve uma resistência de três grandes grupos, como Valle, Itaú e Petrobrás, que frustrou a iniciativa de comprar, pelo menos, 11 milhões de doses de vacina da Oxford/Astrazeneca e uma proposta que seria inclusive de parceria com o Ministério da Saúde, de repartir metade dessas doces com o Ministério da Saúde. O outro movimento, está começando hoje, liderado pela empresária Luíza Trajano, que pretende lançar um amplo movimento empresarial visando a agilização da vacinação da população brasileira contra a covid-19, como ferramenta de reativação da economia. Como esse movimento vai ser lançado hoje, a gente não tem muitos detalhes de qual é a pretensão, se de fato é incentivar ou ajudar o poder público a adquirir essas vacinas ou também distribuir essas vacinas às empresas privadas. E outro movimento aponta um crescimento muito rápido, inclusive de interesse, mais de interesse do que de efetiva ação, é a possível chegada de vacinas contra a covid-19 na rede particular de vacinação aqui no Brasil. São três movimentos que no meu entendimento denotam uma espécie de agonia da sociedade brasileira em busca dessa vacinação o mais rápido possível. Qual a sua avaliação?

Jarbas Barbosa: Com exceção desse movimento de Luiza Trajano, dona da Magazine Luiza, que eu não conheço, vi ontem só e me pareceu um movimento para incentivar as pessoas a se vacinarem, se confirmado, creio que é muito positivo. Os outros dois eu acredito que precisamos olhar bem qual o objetivo dessa vacina hoje. O objetivo da vacina atualmente é salvar vidas. Nós não temos vacinas suficientes no mundo para já atuar buscando o controle da transmissão, isso vai levar meses, mesmo aqui nos Estados Unidos, mesmo nos países da Europa. É preciso que essa vacina seja usada com critério técnico. Ou seja, tem que vacinar os trabalhadores de saúde, porque eles estão expostos ao vírus, proteger aqueles que podem morrer mais facilmente pela covid-19, os que desenvolvem formas graves, que são os idosos, os adultos com hipertensão, com diabetes, com câncer, com outras doenças. Esse é o objetivo principal. Creio que não faz nenhum sentido ter um funcionário jovem saudável de uma empresa privada vacinado, enquanto um idoso está correndo risco de morrer pela doença. Em nenhum país do mundo a vacina está sendo vendida em clínica privada. Aqui nos Estados Unidos, o sistema de saúde daqui usa farmácias privadas para dar a vacina, a vacina é dada de graça, porque é comprada pelo governo, e segue rigorosamente a fila. Ninguém pode chegar na farmácia e comprar, o pessoal agenda pela internet e só vai aquele grupo que está determinado, acima de 65 anos, pessoas com hipertensão, diabetes, etc. Isso no mundo inteiro, então eu acredito que no atual momento de indisponibilidade de vacina, vai melhorar nos próximos meses, mas agora a fabricação ainda é muito limitada. Todo mundo que compra vacina, compra vacina e tira de outro. Ou seja, qualquer movimento para furar a fila, digamos assim, eu pessoalmente tenho uma posição contrária, porque tira a vacina do que seria o grande objetivo dela agora, que é salvar vidas, e depois usar essa vacina para atingir uma cobertura de pelo menos 70% da população, para aí a gente conseguir controlar a transmissão.

Rádio Jornal: No começo o senhor admitiu que o clima frio poderia favorecer a transmissão do vírus. Isso está confirmado?

Jarbas Barbosa: Não. A gente não tem uma comprovação de que haja essa sazonalidade, porque já no começo da pandemia, quando a gente teve, por exemplo, a primeira onda em Manaus, estava verão. Manaus não muda o clima, o clima não fica frio em momento algum do ano. Aqui nos Estados Unidos, a gente teve um crescimento grande de infecções no começo do inverno, provavelmente, por outras causas, mas nas últimas três semanas a tendência já é de redução, e acho que agora tem uma mensagem mais clara do governo, sobre o uso de máscara, por exemplo. Virou obrigatório, e não era. E o uso de máscara é primordial enquanto a vacina não chega para todo mundo. Se 95 pessoas usarem máscaras na América Latina quando saírem de casa, isso vai salvar perto de 50 mil vidas, até junho. Isso é um estudo de um dos mais importantes centros dos EUA, ele divulgou há duas semanas. Então é muito importante as pessoas lembrarem que essas medidas são importantes, usar máscara quando sair de casa, evitar aglomerações, evitar lugares fechados que não sejam essenciais de você ir, procurar manter distância física entre as pessoas. Isso vai continuar salvando vidas até que a gente consiga vacina para que todas as pessoas possam ser vacinadas.

Rádio Jornal: O Brasil literalmente jogou no esquecimento a testagem em massa. Tanto é que insumos e equipamentos serão doados agora ao Haiti, quando a maioria dos brasileiros nem passou por alguma testagem. É importante fazer o teste e o governo brasileiro ignorou a importância?

Jarbas Barbosa: A testagem continua sendo um dos extras, digamos assim, de seguir e monitorar o caminho do vírus e conseguir ir interrompendo esse caminho. Todos os países que estão apresentando um resultado melhor no controle tiveram na estratégia de uma testagem ampla uma das ações mais importantes, porque quando você oferece amplamente a testagem, as pessoas que testam positivo sabem imediatamente que estão com o vírus, podem ser colocadas em isolamento nas suas casas. Os familiares e contatos próximos testam também, aí você consegue fazer com que aquela pessoa deixe de ser um elemento de dispersão do vírus. Se você multiplica isso por milhares, ou milhões, você tem a possibilidade de ter, na testagem ampliada, um aliado importante para controlar a transmissão do vírus. Eu não sei exatamente o que aconteceu no caso do Brasil. O Brasil solicitou a compra de testes, nós compramos os testes, entregamos para o Brasil e estamos recomendando a todos os países que continuem testando e buscando ampliar a testagem.

Rádio Jornal: Sei que o senhor é um entusiasta da Covax, iniciativa da OMS para distribuição da vacina de forma igualitária. Queria que o senhor detalhasse quando é que a Covax vai começar a distribuir de fato as doses de vacina que foram reservadas para a iniciativa e por onde é que ela vai começar.

Jarbas Barbosa: A Covax mandou já a carta para todos os países participantes. Vamos ter dois grupos. Um grupo pequeno de países que vão fazer um projeto piloto, digamos assim, são quatro países aqui nas Américas (Peru, Colômbia, El Salvador e Bolívia), 18 no mundo inteiro. Eles foram selecionados mediante alguns critérios e recebem a vacina provavelmente em duas semanas. Os outros países, inclusive o Brasil, começam a receber a partir da última semana de fevereiro e primeira semana de março. O mecanismo Covax vai entregar para todos os países, essa semana ainda, provavelmente, um cronograma mensal das entregas. É uma logística complicada, porque são 190 países participando num momento em que você tem voos cancelados e aeroportos fechados, coisas que atrapalham na logística. Mas nós estamos otimistas, fechamos o acordo para 40 milhões de doses com a Pfizer, fechamos com o Sérum Instituto da Índia, que produz a vacina da Oxford/Atrazeneca, e que vai produzir uma outra vacina muito boa, a Novavax, que deve estar no mercado daqui a dois meses, a gente espera. Estamos concluindo acordo com a outra produtora da Oxford/Astrazeneca, então nesse primeiro semestre a nossa expectativa é que mesmo com o acesso limitado que o mundo inteiro tem, vários países vão receber a vacina três meses depois que o primeiro país começou a vacinar, que foi o Reino Unido. Isso jamais ocorreria se a gente não tivesse um mecanismo como esse funcionando. É só a gente lembrar que na época dos anti-retrovirais da Aids, os países pobres levaram dez anos para começar a usar os anti-retrovirais. Na pandemia de influenza, em 2009, a H1N1, os países mais pobres das Américas levaram um ano para ter acesso às vacinas. E eu acho que agora o mecanismo Covax comprova que se ele já existisse com financiamento, com as doações, com tudo funcionando bem desde o ano passado, a gente já teria um outro quadro de distribuição de vacinas. Mas acredito que vai ser um êxito tremendo da saúde pública e do acesso equitativo, ter o Haiti, o país mais pobre das Américas, recebendo vacina já agora no final de fevereiro.

Comentários

Últimas notícias