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Retinopatia diabética: conheça a maior causa de cegueira em pessoas com idade economicamente ativa

Depois de 15 anos vivendo com diabetes, cerca de 2% das pessoas ficam cegas e 10% terão perda visual grave, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 17/11/2021 às 11:56
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
A retinopatia diabética pode se desenvolver sem sintomas em fase inicial. Por isso, é importante a consulta periódica ao oftalmologista - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Você sabia que a diabetes pode reduzir a capacidade da nossa visão? Sim, a doença pode atacar a retina, estrutura do olho que capta os sinais luminosos e os envia ao cérebro, onde são geradas as imagens que vemos. É o que oftalmologistas chamam de retinopatia diabética, a maior causa de cegueira em pacientes em idade laboral, de acordo com o documento As condições de saúde ocular no Brasil, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). 

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Neste Novembro Azul, mês de conscientização sobre diabetes, é importante orientar também sobre os cuidados com a saúde ocular, especialmente em um cenário de aumento do número de casos de diabetes tipo 2 no mundo. Geralmente a doença está relacionada a uma condição chamada de resistência à insulina, que desponta como consequência do excesso de peso, vida sedentária e outros hábitos nocivos, acentuados na pandemia de covid-19. Muitos indivíduos nem sabem que sofrem desse mal e já podem ter sequelas, como alguma perda de visão por retinopatia diabética, que pode se desenvolver sem sintomas em fase inicial. Por isso, é fundamental a consulta periódica ao oftalmologista.

Na retinopatia diabética, os finos vasos que irrigam os olhos incham e podem se romper ou mesmo ter seu fluxo dificultado. Em certos casos, formam-se vasos anormais. Com a piora, a pessoa pode se queixar de estar vendo “moscas volantes” (manchas em forma de filamentos, círculos ou teias, produtos do vítreo, a substância gelatinosa e viscosa que fica entre o cristalino, a lente do olho, e a retina), de visão turva, dificuldade de enxergar à noite e que as cores parecem borradas.

Essa condição é responsável por 4,8% dos 37 milhões de casos de cegueira devido a doenças oculares em todo o mundo (1,8 milhão de pessoas) e, ainda segundo o CBO, depois de 15 anos vivendo com diabetes, cerca de 2% dos indivíduos ficam cegos e 10% terão perda visual grave. Acima de 20 anos de diagnóstico de diabetes, estima-se que mais de 75% dos pacientes têm alguma forma de retinopatia diabética.

No entanto, o diagnóstico e o tratamento precoces na consulta ao oftalmologista podem diminuir o risco de deterioração da visão na maioria dos casos de retinopatia diabética. Isso se torna ainda mais relevante porque a capacidade visual perdida em decorrência da condição não pode ser restaurada.

“A retinopatia diabética apresenta direta relação com a gravidade da doença de base e a melhor forma de prevenir é controlar a glicemia (concentração de glicose no sangue). Ou seja, quanto mais baixo os níveis de glicose, menor o risco de surgimento e progressão da retinopatia. Casos leves e iniciais podem até ser revertidos”, diz o oftalmologista Leonardo M. Machado, da clínica EyeCenter (do grupo Opty), com doutorado pela Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e especialista em retina e vítreo.

O diagnóstico de retinopatia diabética (não proliferativa e proliferativa, quando há formação de novos vasos e mais grave) é realizado em consultório de oftalmologia. Para confirmar a suspeita, o especialista poderá pedir análise por angiografia fluoresceínica, que usa substância corante injetada por via intravenosa e fotografa os vasos da retina, mostrando se eles apresentam alterações. Outro exame, que permite observar essa estrutura em detalhe, é a tomografia de coerência óptica (OCT, na sigla em inglês), que possibilita investigar e medir o inchaço da mácula, a área nobre da retina.

Medicamentos e cirurgias para controlar a retinopatia diabética 

O tratamento da retinopatia depende de cada situação, de acordo com o oftalmologista Leonardo M. Machado. E pode incluir e associar, a critério do médico, além do controle da diabetes, uso de medicamentos (como aplicações de injeções intraocular anti-VEGF para bloquear o crescimento de vasos sanguíneos anormais e o inchaço da mácula, e esteroides), cirurgias a laser (fotocoagulação, para vedar vazamento e reduzir crescimento dos vasos) e de vitrectomia, que consiste em retirar o gel vítreo e o sangue dos vasos anormais na parte posterior do olho. Isso viabiliza que os raios de luz se concentrem corretamente na retina novamente. Essa técnica também serve para remover o tecido cicatricial da retina.

“A retinopatia diabética não tem cura propriamente dita, porém é passível de controle em longo prazo. Alguns pacientes melhoram muito após tratamento inicial, mas sempre devem manter o acompanhamento com o oftalmologista”, enfatiza Machado. Ele lembra que há estudos demonstrando relação (direta ou indireta) da diabetes com outras doenças dos olhos, como catarata (a opacidade do cristalino, a lente natural, e fator número um de cegueira reversível) e glaucoma (maior causa de perda de visão de forma irreversível, geralmente associada a aumento agudo ou crônico da pressão intraocular).

Exame oftalmológico pode dar pistas sobre doenças do coração

O oftalmologista lembra que, além da diabetes, o exame oftalmológico ajuda a identificar sinais de doenças cardiovasculares. As avaliações dos segmentos anterior (biomicroscopia) e posterior (fundoscopia) dos olhos podem revelar anomalias decorrentes de hipertensão arterial (retinopatia hipertensiva) ou indícios indiretos desses e outros males que afetam os tecidos oculares. Por exemplo: a aterosclerose, que é a formação de placas de gordura, cálcio e outros elementos na parede das artérias. Doenças inflamatórias e infecciosas que cursam com lesões vasculares no olho podem ser detectadas na consulta oftalmológica.

É comum, no exame de vista, o médico observar evidências de outros problemas de saúde, além dos já mencionados. Os olhos podem apresentar sintomas de hepatite, esclerose múltipla, hipertensão intracraniana, anemia falciforme, linfoma e outros cânceres (alguns, como mama, podem gerar metástases no olho) e insuficiência renal.

Deficiência visual pode ser um dos primeiros sinais de demência

E a deficiência visual pode ser um dos primeiros sinais de demência, segundo pesquisa divulgada na revista científica British Journal of Ophthalmology. Os autores desse trabalho afirmam que degeneração macular relacionada à idade, catarata e retinopatia estão associadas a perigo maior de declínio cognitivo. Novas análises serão realizadas para explicar essa hipótese.

Globalmente, cerca de 2,2 bilhões de pessoas têm deficiência visual ou cegueira e metade dos casos poderiam ter sido evitados com a consulta de rotina ao oftalmologista. Conforme o documento As Condições da Saúde Ocular no Brasil, a prevalência da cegueira, de diferentes formas, na população brasileira, é estimada em 1.577.016 (somando crianças, adolescentes e adultos). E a mensagem mais importante é: a maioria das alterações nos olhos tem prevenção, diagnóstico precoce e tratamento.

Para a boa saúde ocular, é essencial, além da consulta ao oftalmologista, praticar atividades físicas regularmente, ter sono reparador, controlar o estresse, não fumar e fazer alimentação balanceada (rica em carboidratos integrais, proteínas com poucas quilocalorias, verduras, hortaliças, frutas e gorduras boas).

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