DIA DAS BRUXAS

Halloween 2020: no século XXI, bruxas ainda usam caldeirões e vassouras, mas não são o que você imagina

Perseguidas durante a Idade Média e representadas, normalmente, como as antagonistas na ficção, as bruxas ainda existem na vida real e utilizam elementos da natureza em rituais de magias

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 31/10/2020 às 0:00
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CORTESIA
A bruxa e jornalista Priscila Ferraz, 28, fundou o blog Diário da Bruxa — hoje com 100 mil seguidores no Instagram e 75 mil no Youtube - FOTO: CORTESIA
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Quem nunca se divertiu com as presepadas da bruxa Onilda em “As Trigêmeas”, com o charme de Samantha em “A Feiticeira” e participou, através das telinhas, das aventuras dos personagens de Harry Potter? Sem dúvidas, a magia torna-se presente no imaginário social ainda durante a infância, por meio dos contos de terror e dos filmes de ficção, e, talvez por isso, há quem não acredite que as bruxas realmente existam. Ainda no século XXI, entretanto, elas usam caldeirões, vassouras, cristais, ervas e outros elementos para se conectar com a natureza e realizar desejos, mas não são exatamente o que você pensa. Neste Dia das Bruxas, ou “Halloween”, em 31 de outubro, conheça mais sobre a crença de cerca de 300 mil feiticeiras que existem no país, segundo a União Wicca do Brasil (UWB).

“Os bruxos de hoje tentam resgatar conhecimentos e conceitos de antigas religiões pagãs. Essa bruxaria neopagã vai abrir um imenso espaço para a poesia, dança, música, para o riso, não vai trabalhar com o diabo, como as pessoas falam; ela encoraja a abertura para a veneração do mundo natural, o amor pelos cosmos. Hoje a gente observa a relação da bruxaria com uma diversidade de crenças e práticas. Tem pessoas que reconhecem como religião neopagã, e outras não. Então, os bruxos modernos têm algumas linhas em comum, como o feminismo, a rejeição ao conceito de pecado, a reciprocidade espiritual. Há ainda a questão da magia, dos princípios físicos e espirituais femininos e a ligação com a natureza”, explica o teólogo e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Bruno Severo.

A bruxa, recifense e jornalista Priscila Ferraz, 28, fundou o blog Diário da Bruxa — hoje com 100 mil seguidores no Instagram e 75 mil no Youtube — como uma tentativa de desmistificar a crença e mostrar que a magia pode ser, na verdade, muito mais simples do que parece. “A bruxaria é um caminho de empoderamento total, ela te dá poder pessoal, você não precisa ficar esperando bênçãos, você é autônoma. Se você quer uma coisa, você move as energias e tem a capacidade de trazer para você. Claro que às vezes a gente não consegue, tem magias que não dão certo, mas você tem a opção de ter muito mais poder no seu dia a dia. A bruxaria mudou três grandes coisas [na minha vida]: me deu mais autonomia, uma ligação com a natureza e uma espiritualidade mais voltada para o feminino”, afirma.

Ela diz ter encontrado, na bruxaria natural, uma das vertentes do uso de poderes da natureza e uma espiritualidade que com foco a mulher, algo que não achava no catolicismo, religião que pertencia anteriormente. “Quando eu era mais nova, que eu ia para a missa e era católica, sempre sentia falta das figuras femininas. Eu gostava muito quando o pessoal cantava músicas de Maria e Santana, me sentia mais atraída. Comecei a sentir que eu queria uma espiritualidade que fosse mais voltada para o feminino. Eu não fui em busca disso, eu já sentia isso”, e completa: “eu entrei na bruxaria pelo fato de ser uma espiritualidade que tem como figura divina a natureza. Para a bruxaria, “deus” é, na verdade, a deusa, que é a natureza.”

Não é de hoje que há desinformação a respeito da bruxaria. Com base no livro o Martelo das Feiticeiras, de 1487, a Igreja Católica perseguiu e incentivou a queima de centenas de milhares de suspeitos de envolvimento em feitiçaria em fogueiras. Segundo Bruno Severo, foi na Idade Média e na Idade Moderna, entre os séculos 14 e 15, que a perseguição às bruxas tomou mais vigor. “As autoridades religiosas e políticas passaram a perseguir e desejar o banimento de crenças não-cristãs e superstições também. Com o pânico instalado no povo, foram perseguidos todos os possíveis hereges, configurando um clima de ódio”, explica.

As mais afetadas com o movimento de perseguição religiosa foram, segundo o teólogo, as mulheres. “Eram mais acusadas do que os homens com bruxaria por causa do mundo patriarcal e pela vertente cristã de que seriam mais suscetíveis ao diabo, mais fracas e menos santas. Também observamos que homens eram acusados, mas só quando eles se opunham contra a caça às bruxas. [...] As acusações não eram feitas por acaso. Muitas pessoas tinham conhecimento em propriedades curativas de plantas, ou desempenhavam algum papel na comunidade em que viviam. Com a medicina empírica, as mulheres, sobretudo as mais velhas, começaram a saber segredos da cura”, conta.

O especialista expõe que, por isso, a mulher tem um valor e papel muito mais importantes do que o homem na bruxaria moderna. “É uma inversão de valores por toda opressão que a mulher vem sofrendo historicamente; o oposto dessa sociedade, que tem dominação masculina”, afirma. No entanto, engana-se quem acha que não há espaço para os homens na bruxaria. “Meu marido é bruxo também. Os homens também despertam o feminino dentro de si. Todos nós temos o nosso feminino e o masculino, e os homens que entram na bruxaria são os que normalmente se abrem para honrar a deusa e o poder do feminino. Acho incrível e acharia maravilhoso se mais homens fossem da bruxaria”, diz Priscila.

Bruxo e professor de dança, André Marinho, 30, é exemplo disso. Ele acredita que a prática é “mais um caminho espiritual e filosófico”, e que “a magia é todo ato que a gente faz para transformar coisas à nossa volta”, diz. “Para mim, ser bruxo é acordar, estar um pouco ansioso, parar um pouco, meditar, respirar fundo e fazer com que o elemento do ar que entra no meu corpo me ajude nesse processo para me deixar mais calmo. É estar cansado e tomar um banho de chuveiro mentalizando as propriedades da água, pedindo para que elas limpem meu corpo de forma física e energética. A bruxaria é muito mais do que rituais”, afirma.

Assim, André diz sentir-se bruxo, mas frisa a necessidade do foco às mulheres na crença. “Existe uma polêmica que diz que não se pode ser bruxo por ser homem, e com razão, porque teve o dobro de mulheres morrendo e sofrendo por serem bruxas do que teve de homens. Nos filmes, é a imagem da mulher que é tida como a bruxa horrorosa ou a sedutora. O papel social é muito mais latente na mulher do que no homem. O homem pode seguir esse caminho como uma dedicação, mas devemos dar essa responsabilidade à mulher”, diz. Em algumas vertentes da religião neopagã chamada Wicca, fundada em 1950 pelo inglês Gerald Gardner (1884-1964), os seguidores honram a Deusa Terra e também o Deus Sol, representado pela figura masculina. Segundo Priscila Ferraz, “toda pessoa da Wicca vai fazer bruxaria, mas nem toda bruxa é Wiccana”.

Em relação ao preconceito sofrido pelos bruxos, para Bruno Severo, “os tempos mudaram, mas os comportamentos são semelhantes”. “Naqueles tempos não era aceitável dizer que talvez não fosse certo matar pessoas na fogueira, apenas por rumores de que aquela pessoa teria associação com o diabo, mas se você fizer qualquer coisa hoje, você também é rotulado”, diz. O fato é confirmado por André. “Geralmente, quando falo que sou bruxo tem uma predominância muito grande [da resposta] “sangue de Jesus tem poder’ ou “misericórdia”. Então, mesmo depois de todos esses anos, a bruxaria é vista como algo muito sobrenatural e pejorativo. Eu ainda tenho que lidar, muitas vezes, até na minha família, com olhares de medo ou palavras que relacionem a algo diabólico”, diz.

Já Priscila afirma que, apesar das diferentes reações, percebe uma receptividade cada dia melhor entre as pessoas do seu convívio. “Existem vários tipos de reações. Tem o pessoal que reage dizendo que é coisa do diabo, o que é completamente absurdo de se dizer, tendo em vista que a bruxaria é uma arte que retorna ao antigo paganismo, então o conceito de diabo não é da bruxaria, para nós nem existe o diabo. Existe também o pessoal que tem um olhar mais debochado, [como se perguntasse] “isso existe mesmo?”. Normalmente, assim, há pessoas que se assustam, mas a cada dia isso está mudando, pelo o menos as pessoas com que eu convivo estão mais abertas”, pontua.

A bruxa relata usar a mágia para necessidades pessoais. “Eu trabalho coisas que estou precisando no dia a dia. Toda magia precisa ser feita impulsionada por uma necessidade sua. Por exemplo, se eu acordo para baixo, com auto-estima chata, penso se estou precisando [da mágica], porque às vezes é necessário sentir-se assim também. Mas se não, eu preparo um banho de baunilha com rosas, ou acendo um incenso de hortelã ou de canela. Se desmotivada e preciso focar em um trabalho que preciso fazer naquele dia, coloco na minha mesa uma pedra como o citrino ou a olho de tigre. Então, a gente vai inserindo a magia natural no dia a dia. Abriu a lua cheia, então posso fazer um ritual de intuição ou de amor próprio. Se a lua está nova, faço um ritual para desapego do passado. Então a gente vai usando os elementos da natureza ao nosso favor”, explica.

Além disso, a feitiçaria pode ser usada para o bem coletivo e até para afetar o próximo, mas ela alerta para a necessidade de respeitar o livre-arbítrio do outro. “Tudo o que você faz desrespeitando o livre-arbítrio de uma pessoa, ou que vá fazer mal, você está levando a magia para uma esfera negativa. Dentro da bruxaria tem uma lei que diz que tudo o que você faz retorna três vezes para você. Também tem a grande de lei que diz que você pode fazer tudo o que você quiser, desde que não faça mal a ninguém. A bruxaria é um caminho de liberdade, mas a gente respeita que não se pode fazer mal a ninguém. O que costuma acontecer bastante é que quando uma pessoa fazer um ritual para prender alguém no relacionamento, depois ela quer sair e não consegue”, pontua.

Os clássicos acessórios usados para a magia na ficção, como caldeirão, vassoura e chapéu, também têm um papel nos rituais modernos. “A gente usa, mas não são obrigatórios. No caso do caldeirão, ele simboliza o útero da deusa. Nele a gente queima ervas para uma renovação. Se você está querendo prosperidade, você enche-o de folhas de louro. A gente utiliza a vassoura para limpar o local, você não precisa passar a vassoura no chão, você varre energeticamente para limpar o que há de negativo”, afirma.

Celebrado neste 31 de outubro, o Halloween é considerado, para as bruxas, como o Ano Novo, ou a última colheita. Na bruxaria natural, é comemorado o “Samhain” ou “Beltane”, antigas celebrações celtas que também marcavam a passagem do ano. Seja qual nome for dado, é dia reservado às bruxas, e elas podem estar mais perto que do que você imagina, e até mesmo dentro de você mesmo, como diz Ferraz. “A bruxa é como se fosse uma sábia anciã que você tem dentro de você. A intuição aguçada que te diz para não confiar em alguém, um sexto sentido, isso é a sua bruxa. Eu acredito que toda mulher que quiser despertar isso, pode.”

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