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'Não Olhe para Cima' é uma sátira deliciosamente real sobre os nossos tempos

Disponível na Netflix, filme de Adam McKay vem impactando pela forma como discute negacionismo, política e mídia

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 27/12/2021 às 17:58
NETFLIX/DIVULGAÇÃO
STREAMING "Não Olhe pra Cima" reúne grandes astros de Hollywood para fazer sátira ao negacionismo - FOTO: NETFLIX/DIVULGAÇÃO
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A Netflix chegou no fim de 2021 apostando alto com o lançamento do filme "Não Olhe Para Cima", dirigido, produzido e escrito por Adam McKay (A Grande Aposta, 2015, e Vice, 2018). Trata-se de uma produção "astronômica", tanto no investimento quanto na temática: ele reúne grandes astros como Leonardo diCaprio, Jennifer Lawrence e Meryl Streep num enredo satírico sobre o fim do mundo pela colisão de um cometa com a Terra.

Embora o longa-metragem não tenha tido uma divulgação tão massiva comparado a algumas séries da plataforma de streaming, a sua popularidade vem crescendo de uma forma eficiente: o boca a boca das redes sociais. Isso porque "Não Olhe para Cima", ou "Don't Look Up”, no título original, tem uma sinergia com o nosso presente.

No filme, a doutoranda em astronomia Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence) descobre a existência de um asteroide de grande amplitude. Ela e o seu orientador, o Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio), confirmam que ele está vindo em direção à Terra para uma colisão efetuada em torno de seis meses. Eles entram em contato com instâncias superiores da Nasa e são direcionados à Casa Branca.

A partir daí, o longa passa a expor com acidez os bastidores das movimentações políticas e midiáticas, o que já é comum no currículo de McKay. A grande excursão de constrangimento começa já no Salão Oval, quando a dupla de cientista lida com o desdém da presidente dos Estados Unidos, Janie Orlean (Meryl Streep), uma espécie de Donald Trump de saias.

Uma das boas sacadas de Adam McKay, que já venceu um Oscar de melhor roteiro por "A Grande Aposta" (2015), foi ter colocado justamente uma presidente mulher e vivida por Streep. Ela não reproduz as bravatas autoritárias de Trump ou Bolsonaro, mas carrega uma energia vilanesca que pende para uma aura de "bitch". Ela e seus auxiliares - incluindo um inconveniente chefe de gabinete, que é o seu filho - desacreditam dos cientistas por serem do "baixo escalão", de fora do circuito da Ivy League.

Após a decepção com a política, a dupla recorre à imprensa, primeiro a um jornal de grande circulação e em seguida a um programa de TV. A tentativa de alerta se torna um vexame dado à apatia dos apresentadores, que estão mais interessados no término do relacionamento de uma pop star vivida por Ariana Grande.

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As críticas ao sistema político e à imprensa, então, se fundem com o comportamento das redes sociais. A estudante vivida por Lawrence vira meme, é alvo de misoginia e se torna uma espécie de vilã da esfera pública. DiCaprio, por sua vez, consegue mais simpatia pela sua beleza - o que escancara o machismo da sociedade, já que foi Kate quem descobriu o asteroide.

Com uma duração longa para os padrões do streaming, com duas horas e meia, "Não Olhe para Cima", então, assume ser uma grande sátira sobre o negacionismo dos dias de hoje. Quando o asteroide já pode ser visto a olho nu, brota o movimento que dá título ao longa. Apesar de soar como uma metáfora à pandemia do coronavírus, ele começou a ser desenvolvido em novembro de 2019. Essa metáfora também serve para o aquecimento global.

McKay desvela o infindável interesse eleitoral dos políticos, a aliança entre políticos e mega empresários, espetacularização das tragédias (com direito a show de Ariana Grande), o negacionismo promovido por governos e o grande dilema sobre a comunicação contemporânea, recheada de fake news, achismos e boatos. Uma das melhores cenas é um desabafo de DiCaprio, que questiona: "Como paramos aqui? Como faremos para voltarmos a nos entender?".

Isso tudo é exibido de forma bastante palatável, alguns dirão até "confortável", para os padrões do diretor. O filme não traz um tipo de humor que provoca gargalhadas, mas sim uma certa vergonha alheia pela similaridade com a realidade. Não existem diálogos tão profundos ou cenas com mensagens implícitas. Esse é um filme para o público médio que entra na Netflix para passar o tempo. É uma "farofa" que pode não agradar quem deseja algo mais intelectualizado.

Contudo, a produção funciona dentro da sua proposta, que é atingir as massas para divertir e alertar. A presença desse elenco estelar, numa gigante do streaming, disseminando, de certa forma, esse conteúdo, é quase um posicionamento de marca da Netflix, já que o negacionismo vem sendo uma bandeira de correntes políticas. São engrenagens do sistema falando sobre o sistema. Resta torcer para que a nossa sociedade "olhe para cima" e que tenhamos um futuro melhor.

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