MÚSICA

The Weeknd faz da pista de dança um purgatório em 'Dawn FM'

Novo álbum do cantor canadense usa estação de rádio fictícia para mesclar hinos da pista de dança e baladas românticas, expurgando os mais variados sentimentos

Emannuel Bento
Emannuel Bento
Publicado em 14/01/2022 às 9:47
UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO
MÚSICA POP The Weeknd lança álbum "Dawn FM" - FOTO: UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO
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"Você está ouvindo agora a rádio 103.5 Dawn FM / Você esteve no escuro por tempo demais / É hora de caminhar para a luz / E aceitar de braços abertos o seu destino". Esse trecho, narrado por Jim Carrey, abre o novo álbum do astro da música pop The Weeknd, lançado na última semana e intitulado com o nome dessa rádio fictícia, criada para guiar a narrativa do disco.

A locução da "Dawn FM" é uma mistura de estação radiofônica oitentista com boas vindas ao purgatório, estado de castigo temporário que envolve um turbilhão de sensações e reflexões sobre o passado - não coincidentemente, o cantor aparece idoso na capa.

Em 16 faixas, o canadense consegue chegar ao êxtase proporcionado pela pista de dança, com potentes batidas sintéticas e instrumentações orgânicas classudas, típicas dos anos 1980. Mas também usa esse potencial nostálgico para expurgar dores, amores e traumas não superados. E nesse processo, ele assume que a pista de dança também é um local para chorar, exatamente como num purgatório.

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MÚSICA POP The Weeknd lança álbum "Dawn FM" - UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO
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MÚSICA POP The Weeknd lança álbum "Dawn FM" - UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO

Abel Tesfaye (nome de batismo) surgiu no começo dos anos 2010 como figura de um R&B alternativo, mais sombrio e com batidas eletrônicas lentas, já demonstrando sua inventividade e ousadia. Ele flerta com o mainstream pela primeira vez em 2014, em parceria no álbum de Ariana Grande, emplacando logo em seguida o disco "Beauty Behind The Madness” (2015).

The Weeknd inicia suas investigações com o pop oitentista em "Starboy" (2016), que teve parceria do Daft Punk. Desde então não largou esse apelo, aprofundando-o no "After Hours" (2020), de onde saiu o megahit "Blinding Lights". Essa canção conseguiu uma proeza similar a dos tempos analógicos: a estabilidade nas paradas. O single bateu o recorde histórico de canção com mais tempo no top 10 da Billboard, totalizando 88 semanas.

Aclamado pelo público, o "After Hours" foi completamente esnobado pelo Grammy em 2021. The Weeknd, portanto, disse que nunca mais inscreverá canções na premiação. O ocorrido dialogou com outras controvérsias da Academia: já em 2017, por exemplo, Drake criticava a premiação por não conseguir concorrer nas categorias pop, como se figuras que surgiram no rap e no R&B, sobretudo homens negros, não pudessem ser lidos como música pop.

A Academia deveria estar arrependida de seu modus operandi, pois o "Dawn FM" é um grande disco pop. O álbum foi todo produzido por The Weeknd ao lado do lendário Max Martin e de Daniel Lopatin, que assina como Oneohtrix Point Never. Há ainda colaborações de Swedish House Mafia, Calvin Harris e Oscar Holter. Nas locuções das faixas introdutórias - que dão ainda mais profundidade ao projeto - também está Quincy Jones, que ajudou Michael Jackson a produzir o disco "Thriller".

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MÚSICA POP The Weeknd lança álbum "Dawn FM" - UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO
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MÚSICA POP Em 16 faixas, o canadense consegue chegar ao êxtase proporcionado pela pista de dança, com potentes batidas sintéticas e instrumentações - UNIVERSAL MUSIC/DIVULGAÇÃO

O "Dawn FM" deve ser ouvido na ordem estabelecida. A primeira parte é para dançar: "Gasoline", "How Do I Make You Love Me?" e "Take My Breath" são elétricas, com sintetizadores hipnotizantes. Essa última, com quase seis minutos (tamanho incomum para o streaming) é um hino das pistas que lembra o "Random Access Memory" (2013), do Daft Punk - que foi um respiro numa época mediana da música pop. Em "Sacrifice", Abel permite que a quentura da boate queime seu coração gélido.

Logo após a faixa introdutória "Tale By Quincy", quando Quincy Jones relata traumas familiares, o álbum entra em sua fase mais introspectiva, com excelentes vocais. Em “Out of Time”, é difícil não lembrar das baladas do auge de Michael Jackson, como “Human Nature”. “Há tanto trauma na minha vida / Fui tão frio com aqueles que me amaram, amor / Olho para trás agora e percebo”, canta Abel.

Em "Here We Go... Again", com Tyler, the Creator, ele faz uma suposta menção à relação que teve com Angelina Jolie, reconhecendo que a vida íntima das estrelas é sempre irresistível. Já "I Heard You're Married", com Lil Wayne, assume que ficou com uma mulher casada. Nas faixas seguintes, como "Best Friend", ele retoma um pouco o R&B da fase do "The Beauty Behind The Madness", mas sempre mais eletrônico, reverenciando o legado de nomes como Giorgio Moroder.

É verdade que o disco talvez soasse mais conciso se tivesse menos faixas, mas Abel não tem medo dos exageros e vai cantando suas canções até conseguir sair do purgatório e finalmente chegar ao paraíso.

Ao invés de uma possível repetitividade, por insistir no pop dos anos 1980, uma escuta mais atenta permite perceber que The Weeknd se reinventa dentro dessa proposta como artista. Ele quebra rótulos, busca a perfeição e resgata cânones da cultura pop sem soar como paródia, pois consegue criar suas próprias iconografias. E com "Dawn FM", dá mais um passo para consolidar o seu nome no sagrado panteão pop.

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