
Vocativo bastante adotado nos últimos tempos por mulheres alinhadas à luta feminista,“mana”é palavra íntima antiga entre paraenses. E por iniciativa justamente de duas mulheres naturais do estado nortista, o termo se tornou, há cerca de três anos, também nome de um festival ousado e grandioso, que retorna a
partir de hoje, reformulado para o formato online e batizado MANA 2.0. A idealização e direção artística são da cantora Aíla - também curadora das atividades - e da artista visual Roberta Carvalho.
O intuito do MANA é reunir múltiplas vozes e experiências, distribuídas pela programação através das presenças de mulheres negras e indígenas, cantoras, instrumentistas, rappers, produtoras, técnicas, jornalistas, curadoras, idealizadoras e diretoras para compartilhar e discutir impressões sobre viver de música a partir de dois aspectos principais: gênero e localização geográfica aplicada à lógica do Brasil.
“Em 2017, Roberta e eu imaginamos fazer um festival em que a gente pudesse debater o protagonismo das mulheres nas artes. Na primeira edição, abarcamos música, cinema, teatro, performance, grafite, video mapping... foi um festival de artes bem integradas, de caráter histórico para Belém e a região Norte como um todo. Porque não existia esse perfil de festival na Amazônia. Existem muito para o (e no) Sudeste, eventos que debatem arte e feminismo, ou arte-feminismo. Para a gente foi muito interessante, porque surgiram bandas a partir dele (o primeiro MANA)”, pontua Aíla em conversa por telefone.
“Existe uma vertente no Pará, a guitarrada, em que só tocavam homens, os mestres da guitarrada. A partir de uma provocação, convidei uma guitarrista paraense a montar um show de guitarrada só com mulheres, do qual surgiu o duo Guitarrada das Manas”, conta.
A dupla citada por Aíla não só virou sensação no Pará, como tem feito excelentes incursões fora da região Norte. Em fevereiro, a potente junção formada por Renata Beckmann e Beá foi um dos artistas convidados para o DayCase do Porto Musical, do qual Aíla também participou.
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A cantora destaca que o ineditismo do festival rendeu ainda mais frutos. “Fizemos com que ele fosse reconhecido também por isso. Foi a primeira vez que a (filósofa e escritora) Djamila Ribeiro esteve em Belém e lotou o espaço”.
A pluralidade do que significa produzir, viver e consumir música na Amazônia será outro ponto de destaque também na edição 2.0, minuciado no Fazer música na Amazônia: inspirações e desafios, painel que encerra a agenda este ano.
“Tentamos nessa mesa chamar representantes de vários cantos dessa Amazônia, que é muito gigante, vai além do Pará. Os desafios são inúmeros, por isso quero que cada uma das convidadas nos ajude a entender pelo que são inspiradas, suas origens”, complementa Aíla.
HOMENAGEADA
Entidade viva do carimbó, da música popular paraense e da cultura nacional, Dona Onete será a primeira homenageada do festival. As honrarias iniciam já na abertura, com a exibição de uma entrevista em vídeo feita com ela por Aíla. Nela, abordam assuntos atuais, como este ano de pandemia, em que Dona Onete precisou cancelar uma turnê internacional, e também retornam ao passado, suas origens, formação e crescimento.
“É muito especial fazer essa homenagem ainda em vida. Minha ligação com Dona Onete é antiga, fui a primeira cantora a gravar uma música dela, em 2012, a Proposta Indecente. Antes mesmo de eu gravar disco, já cantávamos juntas, ela participava dos meus shows. Ela é uma inspiração para todos, circula o mundo mostrando a sua cultura para outros povos. É sinônimo de força, coragem, potência”, destaca a curadora.
Aos 81 anos, Dona Onete complementa a importância de poder testemunhar o reconhecimento por suas colaborações para a cultura. “É tão bom quando a gente está vivo para ver o quanto as pessoas gostam da gente, quem ama a gente e o que falam de nós. Estou muito, muito feliz”, celebra a veterana.
“Está chegando um tempo em que as mulheres estão tomando (ainda mais) força. Estão tirando força de onde nem sabiam que poderiam tirar, mas tiraram. Estão vencendo muitos preconceitos, tomando a linha de frente de muitas coisas, na música, na escrita, em todos os recantos da cultura. E muitas fazendo isso com
a força de uma mulher guerreira. As ‘mana’ tão bem na fita”, se diverte.
MÚSICA E MAIS
O MANA 2.0 terá shows exclusivos de Tulipa Ruiz e MC Tha, propõe ir além do caráter expositivo e mergulha ainda pelo viés da capacitação das profissionais da música e outras expressões, promovendo três oficinas. A primeira delas tem como tema Criação, produção e performance no Ableton Live, ministrada por Neila Kadhí (BA), cantora, compositora, multi-instrumentista e produtora musical. Kadhí também integra a banda do musical Elza Soares.
Depois, será a vez de Som ok! Vídeo ok! Como fazer uma live em casa, comandada por Flora Guerra (MG), que há mais de uma década pesquisa e trabalha com operação de som ao vivo, gravação e finalização de áudio para shows e espetáculos.
A terceira e última oficina se debruça sobre o tópico Vjing para Shows, na tutela de Lê Pantoja, do Rio de Janeiro, “uma das VJs pioneiras no Brasil, que já assinou visuais para artistas como Fernanda Abreu, Marina Lima e Anitta”.
Todas as oficinas terão inscrições abertas ao público via formulário, disponível no site oficial do evento (confira o serviço abaixo), apenas para mulheres, e acontecerão remotamente, através da plataforma Zoom. O acesso a elas é gratuito.
SERVIÇO:
Festival MANA 2.0 - De 12 a 19 de dezembro, na plataforma online twitch.tv/festivalmana. A programação completa pode ser conferida no site oficial www.festivalmana.com.
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