IMPACTOS DA COVID-19

Apesar de alta nas vendas de supermercados, varejo recua 2,5% no Brasil e 6,8% em Pernambuco em março

Para especialistas, resultado foi influenciado pelas medidas de restrição impostas em razão da pandemia do novo coronavírus

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 13/05/2020 às 19:10
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LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM
Cidades da Região Metropolitana do Recife entrarão em isolamento social mais rigoroso a partir deste sábado (16). - FOTO: LEO MOTTA/ACERVO JC IMAGEM
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Sob a pandemia do novo coronavírus (covid-19), em todo País, a venda de alimentos e bebidas em supermercados cresceu 14,6% em março ante fevereiro deste ano. Ainda assim, o resultado do comércio para o mês é o pior desde 2003, com queda de 2,5%. O recuo foi ainda maior em Pernambuco, onde o volume de vendas do comércio varejista caiu 6,8%. Os dados são da Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada nesta quarta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Na comparação com março de 2019, o recuo em Pernambuco foi de 8,6%, enquanto no País retração ficou em 1,2%. No acumulado do ano, de janeiro a março, o Estado também registrou baixa. O índice foi de -0,2%. Nos últimos 12 meses, Pernambuco acumula alta de 1,1%, único dos indicadores que oscilou positivamente. No País, houve crescimento nos dois cenários, 1,6% e 2,1% respectivamente.

Os índices do varejo ampliado, que incluem as atividades de veículos, motos, partes e peças, além de material de construção, também apresentaram retração maior do que a média nacional em março: -16,9%, em Pernambuco e -13,9%, no Brasil. Quando são isolados apenas os índices do Estado, a variação mensal, que considera o mesmo mês do ano passado, foi de -9,4% e a variação acumulada no ano marcou -1,6%. O único cenário sem retração foi o acumulado nos últimos 12 meses, com 1,9%.

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Segundo o IBGE, no campo positivo, as influências para o resultado estão relacionadas com os setores considerados essenciais, como supermercados e farmácias, que permaneceram em funcionamento após fechamento de comércio a partir da segunda quinzena de março. Por outro lado, com menor circulação de pessoas nas ruas os segmentos de veículos e motos, tecidos, vestuário e calçados e artigos de uso pessoal, registraram quedas.

Para o economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Pernambuco (Fecomércio-PE), Rafael Ramos, o resultado foi influenciado pelas medidas de restrição impostas em razão da pandemia do novo coronavírus. “Esse número é reflexo do início do isolamento, com o fechamento de shoppings e comércios não essenciais”, explica ele, lembrando que nos meses de janeiro e fevereiro, o setor varejista já havia registrado uma queda no Estado, que foi agravada com a crise da covid-19.

Nacionalmente, na passagem de fevereiro para março, a queda só não foi maior porque foi freada pelo setor de supermercados e alimentos. De acordo com o IBGE, as vendas de supermercados atingiram em março o maior patamar da história. Já as de artigos farmacêuticos, que cresceram 1,3% estão apenas 0,1% abaixo do recorde, de novembro de 2019. Os números para Pernambuco nos indicadores não foram divulgados.

O gerente da PMC, Cristiano Santos, concorda com o economista pernambucano e credita à pandemia a retração sentida no país. “Março foi bastante impactado pela estratégia de isolamento social adotada em algumas das cidades mais importantes e populosas a partir da segunda quinzena do mês”, diz Santos, ressaltando que essas localidades consideraram hiper e supermercados e produtos farmacêuticos como atividades essenciais, enquanto os demais tipos de comércio, como o de rua, tiveram as portas fechadas. Ele diz ainda que, com o desempenho de março, o setor de supermercados passou a responder por 55,3% do indicador, contra 49,6% no mês anterior.

No comércio varejista ampliado em Pernambuco, o setor de tecidos, vestuário e calçados, registrou a maior queda no mês de março com um índice negativo de -28% em comparação ao mesmo período de 2019. Para Rafael, esse setor tem uma característica peculiar, visto que, geralmente, os consumidores preferem ir às lojas conhecer os produtos pessoalmente, mas os estabelecimentos estão fechados. "O segmento teve uma queda mais expressiva, porque as pessoas, geralmente, gostam de sentir o tecido, provar a peça, e isso é algo que e-commerce não oferece", diz Ramos, afirmando que, ainda que parte da população migre para o comércio online, esse será um dos segmentos que mais terá influência negativa.

A PMC é o quarto indicador dos efeitos das primeiras semanas de isolamento social sobre a economia brasileira. A Organização Mundial de Saúde (OMS) decretou pandemia no dia 11 de março. Nas semanas seguintes, estados e municípios começaram a impor restrições à circulação de pessoas.

O setor de serviços, responsável por 60% do PIB nacional e 75,3%, do estadual, teve queda recorde no mês, de 6,9% no Brasil, e em Pernambuco. Já a produção industrial, afetada pela queda nas vendas, no Estado, o índice registrou a maior queda desde 2010, atingindo um recuo de -10,8%. Já no País, caiu 9,1%, pior resultado desde a greve dos caminhoneiros de 2018. Com isso, a taxa de desemprego avançou para 12,2% no trimestre encerrado em março, com 1,2 milhão de pessoas a mais na fila por uma vaga. No comércio, por exemplo, o fechamento de vagas foi o maior da série histórica, iniciada em 2012.

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Abril deve ter ainda menos vendas

Diante da intensificação das medidas restritivas em abril, Rafael Ramos aponta que o recuo nas vendas do varejo deve ser mais intenso na próxima PMC e deve variar entre -8% e -10% em Pernambuco, no Brasil, a queda pode chegar a -4%. “O comércio precisa do fluxo das pessoas que estão nas ruas, pois são elas que compram seja de forma planejada ou por impulso”, pontua. Segundo ele, além do fechamento das lojas, a mudança no comportamento das famílias em relação ao consumo e à aquisição de novas dívidas. “As famílias começaram a observar que este é um momento de dificuldades e desaceleraram o consumo, passando a focar no que consideram essencial, como alimentação e higiene”, explica o economista, classificando a atitude das famílias como redução de riscos.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostrou que os efeitos da pandemia sobre comércio no País se aprofundaram em abril. No mês passado, a fatia de varejistas com volumes excessivos de estoque atingiu 20%. São níveis próximos de recordes históricos atingidos em outros períodos de recessão, segundo o estudo. "Com uma parcela muito elevada do varejo com estoques indesejados fica difícil saber quando as coisas voltarão à normalidade, mesmo que haja flexibilização do isolamento social", afirma o economista responsável pela pesquisa, Rodopho Tobler.

A situação mais crítica ocorreu nas lojas de eletroeletrônicos e móveis. Nesse segmento, a fatia de empresas super estocadas mais que dobrou de março para abril, de 12,1% para 27,4%. Além dos eletroeletrônicos e móveis, o varejo de veículos, motos e peças é outro setor onde o encalhe de produtos é grande. De março para abril, a parcela de empresas com estoques excessivos quase dobrou, de 18% para 33,5%, mostra a pesquisa.

A sobra de produtos é reflexo da queda 66% nas vendas no mesmo período. No mês passado, foram comercializados apenas 55,7 mil veículos novos no varejo, o pior mês para as concessionárias em mais de 21 anos. Para escoar os estoques, Tobler acredita que na saída da quarentena, empresas podem começar a promover grande liquidações.

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