Guerra Fria

"Conflito entre EUA e China é briga por influência, incluindo a questão brasileira da tecnologia 5G", diz o analista

Em entrevista ao Jornal do Commercio, sociólogo analisa as tensões entre EUA e China, diz que o conflito não tem uma solução à vista e que o Brasil não pode, por isso, "ficar paralisado sem tomar decisões".

Edilson Vieira
Edilson Vieira
Publicado em 01/08/2020 às 13:00
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O sociólogo Thiago de Aragão, especialista em estratégia e análise de risco, acha que a guerra fria entre Estados Unidos e China vai durar muito tempo e inclui a disputa pela tecnologia da telefonia 5G que será utilizada no Brasil. - FOTO: Divulgação
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O acirramento da disputa comercial entre os Estados Unidos e a China pode sim, ser chamada de a guerra fria do século XXI. Assim como o conflito dos Estados Unidos com a extinta União Soviética, moldou as relações políticas e econômicas de ambos os países durante quatro décadas, este novo confronto não tem uma solução fácil, vai durar ainda muito tempo e pode representar uma ameaça à paz mundial.
As conclusões são do sociólogo Thiago de Aragão, 38 anos, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Johns Hopkins (EUA), pesquisador do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégicas e diretor de estratégia da consultoria Arko Advice, com sede no Brasil e escritórios em Nova Iorque e Londres.

De Washington DC, onde mora, Thiago de Aragão conversou, por telefone, com o repórter de Economia Edilson Vieira, e analisou os desdobramentos que essa nova guerra fria pode ter, inclusive para o Brasil. “O leilão para implementação no País da tecnologia 5G de transmissão de dados é uma das peças desse intrincado xadrez. Para a China seria muito importante que uma grande Economia, como a brasileira, adotasse a tecnologia da Huawei. Seria uma vitória simbólica dos chineses sobre os americanos”, afirmou Thiago que também fez ponderações sobre como o Brasil deve se portar, estando no centro dessa disputa e como ficará o cenário entre os dois gigantes mundiais, caso o presidente Donald Trump não seja reeleito em novembro, nas eleições americanas. “Para os chineses seria melhor que Trump ganhasse”, afirmou Thiago, entre outras polêmicas.

EDILSON VIEIRAEm janeiro deste ano, Estados Unidos e China assinaram um acordo comercial de 86 páginas que era tido como o início do fim da disputa comercial entre os dois países. O que aconteceu de lá até aqui para que as relações estremecessem a ponto de ambos os países fecharem consulados, trocarem farpas e até insinuarem a prática mútua de espionagem?

THIAGO DE ARAGÃO – Apesar de jeito, cara e formato de guerra comercial o assunto não envolvia apenas comércio. No final de 2018, e ao longo de 2019, o assunto era a balança comercial. Mas aí os Estados Unidos começaram a agregar alguns pontos na negociação que, para os chineses, não eram legítimos, como a questão da propriedade intelectual e da segurança e transparência tecnológica. E não havia acordo ainda sobre esses temas, por isso, o acordo de janeiro foi chamado de “fase 1”. Nesta fase, a China concordava em pagar 200 bilhões de dólares por produtos americanos, principalmente agrícolas e commodities para equilibrar a balança. Mas ambos os países estavam bem longe de entrar em acordo em relação a fase 2, que tratava das outras áreas mais sensíveis.

JC - Aí veio a pandemia...

Thiago - Com o aparecimento do coronavírus, houve uma pressão grande sobre o governo americano para que cobrasse transparência por parte do governo chinês em relação a doença. Os americanos então aumentaram a pressão em cima dos chineses sobre os outros temas da negociação, que iam além do puramente comercial. Temas como espionagem industrial, direitos humanos e influência geopolítica entraram na pauta e começou um efeito dominó que, por sua vez, criou várias frentes de tensão entre os dois países.

JCÉ apropriado fazer uma relação deste momento atual com a guerra fria iniciada após a Segunda Guerra Mundial, entre Estados Unidos e União Soviética?

Thiago – A gente pode chamar de guerra fria. Mas não dá para comparar com a que envolveu a União Soviética. A semelhança entre os dois conflitos está na batalha por influência. No conflito de agora, o aspecto comercial é uma peça, a capacidade de financiamento da China é uma outra peça e como esse financiamento chinês vincula países emergentes a política chinesa e os afasta dos Estados Unidos. Entram ainda questões como a expansão chinesa no mar do Sul da China (importante rota de navios cargueiros), a soberania de Hong Kong, os direitos humanos na província de Xinjiang (onde a China é acusada de perseguir muçulmanos da etnia uigur) e entra a questão brasileira com a Huawei e a transparência e segurança tecnológica (os Estados Unidos acusam a Huawei de possível compartilhamento de dados com o governo chinês).

JCCom tantos pontos divergentes um acordo fica difícil.

Thiago – Não se trata de acordo. São duas visões de mundo completamente diferentes onde o sucesso de um implica, invariavelmente, no enfraquecimento do outro.

JCVocê vê alguma forma de apaziguamento neste cenário?

Thiago – Não existe uma solução única. A parte de comércio é a mais fácil. Bastaria a China comprar mais dos Estados unidos e pronto. Você equilibra a balança comercial. Já a discussão sobre a propriedade intelectual é crítica. A China teria que reconhecer a interpretação ocidental sobre o assunto, o que é um problema para eles. A questão do Mar do Sul da China eu também não vejo solução porque, para os Estados Unidos, a solução é a China abrir mão do controle daquela área. Mas para os chineses isso é assunto de segurança nacional, ou seja, não tem solução. A questão do financiamento externo chinês para os países emergentes é outro ponto complicado. Se os Estados Unidos aplicassem sanções aos bancos chineses que operam no exterior isso seria considerado a maior agressão norte-americana até agora. A China tem hoje quase 3,3 trilhões de dólares nesses bancos chineses que atuam no exterior, e que financiam linhas de crédito para Venezuela, Argentina, Peru, Etiópia, Sudão, Irã... alguns desses países poderiam ignorar as sanções americanas como a Venezuela e o Irã mas um país como a Alemanha, que também tem investimento chinês, não iria ignorar. Eu não vejo solução nem a curto e nem a médio prazo porque não existe uma hierarquia de qual problema é maior do que o outro. O ponto final é conceitual. Enquanto existir o Partido Comunista Chinês, a China vai ser um problema para os Estados Unidos e enquanto os americanos tratarem o Partido Comunista Chinês como um problema, isso será um problema para a China.

JCO fato de esse acirramento entre os dois países acontecer praticamente às vésperas da eleição norte-americana não teria a ver com o fato de Trump tentar amealhar votos entre os americanos que, por questões ideológicas, são resistentes ao avanço chinês?

O sentimento anti-China vai continuar, mesmo que Joe Biden vença as eleições americanas em novembro. Mas os chineses preferem uma vitória do Trump".
Thiago de Aragão, analista de risco e diretor de estratégia da consultoria Arko Advice

Thiago – A profundidade e a velocidade com que a crise chegou a esse nível tem sim a ver com o aspecto eleitoral. Mas todos esses temas - propriedade intelectual, espionagem industrial, direitos humanos, discussão geopolítica e financiamento chinês, já fazem parte das preocupações americanas há 10, 12 anos. Agora, essas preocupações sempre foram amenizadas por conta das relações comerciais, das cadeias produtivas e pela postura e personalidade dos presidentes.

JCRecentemente o governo americano ordenou o fechamento do consulado chinês em Houston, no Texas. Em represália, a China fechou o consulado americano na cidade de Chengdu. Qual o recado que há por trás dessas atitudes?

Thiago – Não foram atitudes aleatórias. Foi uma espécie de conversa simbólica entre os dois países. Quando o consulado chinês em Houston é fechado, os Estados Unidos querem mostrar que estão preocupados com a propriedade intelectual e a espionagem industrial, porque Houston é um dos maiores centros tecnológicos e de pesquisa do mundo. E quando a China escolhe Chengdu pra fechar é porque era o consulado que monitorava as questões de direitos humanos em Xinjiang e no Tibet. A resposta da China foi: se nós incomodamos os americanos sobre tecnologia, nós nos incomodamos quando os americanos colocam no mundo a mensagem de que nós violamos os direitos humanos.

JCNa possibilidade de Joe Biden (candidato do partido Democrata) vencer a eleição em novembro, tirando a reeleição de Trump, o que mudaria neste diálogo?

Thiago – Mudaria muito pouco. Tudo aquilo que o Trump acusa a China de fazer, o Biden concorda. O que vai mudar é a forma do diálogo. Em vez de mensagens de Twitter e linguagens mais duras, teríamos uma briga mais discreta. Agora, os chineses preferem uma vitória do Trump do que uma vitória do Biden.

JCMesmo o Biden sendo mais diplomático?

Thiago – A posição anti-China não vai mudar. Mas o Biden, com sua diplomacia, poderia trazer de volta os aliados tradicionais americanos que o Trump afastou. Os europeus, a Coreia do Sul, o Japão... O Biden teria uma linguagem menos agressiva, mas poderia criar uma aliança global contra China que traria mais problemas para os chineses de que o Trump.

JCA China tem como atrair aliados? Do lado europeu seria difícil, já que eles são muitos vigilantes em relação a direitos humanos.

Thiago – A China não reconhece a lógica ocidental de direitos humanos. No Ocidente, as sociedades modernas se baseiam no valor e no reconhecimento do indivíduo. Já na cultura milenar chinesa, o valor se dá na coletividade. Nesta lógica, a autoridade do País opta por retirar o direito do indivíduo porque existe a opção pelo coletivo. Isto faz sentido para a grande maioria dos chineses. Mas eles conseguem buscar aliados por meio da sua capacidade financeira. Países emergentes com problemas financeiros têm hoje duas opções. Os bancos ocidentais, como Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Mundial, Banco Interamericano, etc. que exigem um nível de transformação fiscal que muitos não conseguem atender, ou os bancos chineses, que oferecem linhas de crédito sem exigir obrigação estrutural. O pagamento aos chineses pode ser feito por meio de commodities e ativos que esses países têm.

JCNesse xadrez todo, qual deveria ser a posição do Brasil. Ficar neutro? Ou tomar posição ao lado da China, ou dos Estados Unidos?

Thiago - Historicamente, o Brasil sempre buscou sua independência, mas na prática não é bem assim. A forma ideal seria o Brasil se beneficiar do relacionamento com os dois países, e não ficar dependente de um deles, para que o medo de retaliação não paralise as decisões que o Brasil tenha de tomar. Hoje, o Brasil tem um receio muito grande de tomar uma decisão em relação a Huawei, no leilão do 5G, porque gerou uma hiper dependência comercial da China. O grande defensor da Huawei no Brasil é a bancada ruralista na Câmara dos Deputados.

JCO cônsul-geral dos EUA no Recife, John Barret, em uma entrevista recente ao Jornal do Commercio, afirmou que as empresas do Porto Digital, nosso polo de tecnologia, deveriam ficar atentas a disputa da telefonia 5G com a China por se tratar de uma questão de proteção de dados. Com o quê devemos nos preocupar?

Thiago – Quando você tem uma empresa que é listada em Bolsa, como a Nokia e a Ericsson, essas empresas têm algumas responsabilidades de transparência. Quando você sabe quem são os acionistas de uma empresa, é possível identificar quem pode ser punido caso essa empresa faça alguma coisa errada. Agora, em uma empresa como a Huawei que é tecnicamente excepcional mas que claramente você não sabe quem são os acionistas, você não tem quem punir. Isso cria dificuldades para a agência reguladora. Essa é a parte complicada. Nem entrei na parte da segurança na transmissão de dados. Outro complicador é que parte dos fornecedores de componentes para a Huawei não são chineses, e caso haja alguma sanção americana a esses fornecedores isso pode afetar a capacidade técnica da empresa e a qualidade do serviço prestado. Como planejar o desenvolvimento de uma tecnologia no Brasil a longo prazo com essa incerteza e sem o ente regulador ter a quem cobrar?

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