CRESCIMENTO

Indústria brasileira cresce em junho pelo 2º mês mas não reverte perdas com pandemia

Em meio à flexibilização das medidas de isolamento social contra a disseminação do vírus, a produção cresceu 8,9% em junho ante maio

Da Redação com agências
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Publicado em 04/08/2020 às 17:10
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José Paulo Lacerda/CNI
Em 12 meses, o consumo aparente de bens industriais acumula redução de 3,6%. - FOTO: José Paulo Lacerda/CNI
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A indústria brasileira retoma aos poucos o ritmo, passado o choque inicial provocado pela pandemia do novo coronavírus. Em meio à flexibilização das medidas de isolamento social contra a disseminação do vírus, a produção cresceu 8,9% em junho ante maio, depois de ter avançado 8,2% no mês anterior. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgados nesta terça-feira (4) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Em dois meses de altas, a indústria brasileira acumula um avanço de 17,9%, ainda insuficiente para anular a perda de 26,6% registrada nos meses de março e abril. “Esses avanços, contudo, estão longe de suprir as perdas observadas em março e abril”, afirma o economista da Federação das Indústrias de Pernambuco, Cezar Andrade.

A indústria ainda opera 13,5% abaixo do patamar de fevereiro, antes que a crise sanitária provocada pela pandemia tivesse chegado ao País. No entanto, o desempenho de junho foi um pouco melhor do que o esperado por analistas do mercado financeiro, que estimavam uma alta mediana de 8%. "Estamos vendo que realmente abril foi o fundo do poço na atividade e, a partir daí, temos uma retomada que é gradual, mas parece estar se consolidando", avalia o economista-chefe do Banco MUFG Brasil, Carlos Pedroso.

O acumulado do primeiro semestre de 2020 registra um recuo de 10,9% na produção industrial. Em 12 meses, a queda foi de 5,6%, retração mais intensa desde dezembro de 2016, quando havia caído 6,4%. Na comparação com o mesmo mês do ano passado, a produção industrial caiu 9% em junho deste ano, com resultados negativos em 21 dos 26 ramos investigados. O mês de junho de 2020 teve dois dias úteis a mais que junho de 2019, mas o ritmo da produção industrial permanece menos intenso, ainda influenciado pelos efeitos da doença.

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A queda na indústria em junho foi a oitava taxa negativa consecutiva nesse tipo de comparação, mas os resultados de maio (-21,8%) e abril (-27,5%) tinham superado os dois dígitos em decorrência da pandemia. Em junho de 2020 ante junho de 2019, o setor de veículos automotores encolheu 51,6%, maior influência negativa sobre a média global da indústria. A indústria fechou o segundo trimestre com uma retração de 17,5% em relação ao primeiro trimestre do ano. No trimestre anterior, a produção já tinha recuado 2,7% ante o quarto trimestre de 2019.

Em junho, 24 dos 26 ramos pesquisados tiveram um incremento na produção em relação a maio. “Apenas alimentos e combustíveis caíram. Provavelmente, essa queda vem pelo fato de que no começo da pandemia esses produziram muito e agora estão estocando”, argumenta Cezar Andrade. A influência positiva mais relevante sobre a média global foi do setor de outros equipamentos de transporte, que cresceu 141,9%.

Outro destaque positivo, em magnitude, veio de veículos automotores, que avançou 70,0%. "A produção tinha sido quase toda paralisada, especialmente em abril", pondera o gerente da Coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo. A fabricação de veículos acumulou uma alta de 495,2% nos últimos dois meses consecutivos de crescimentos (maio e junho), mas ainda opera 53,7% abaixo do patamar de fevereiro, período pré-pandemia.

"O que temos de positivo é uma recuperação rápida no curtíssimo prazo, que está dentro do esperado, mas o ponto central é descobrir onde vamos parar quando saírem estímulos como o auxílio emergencial da economia", observa o economista-chefe do Haitong Banco de Investimento, Flávio Serrano.

PRODUÇÃO EM PERNAMBUCO

Apesar de a divulgação dos resultados regionais da PIM estar prevista apenas para a terça-feira (11), o economista da Fiepe, Cezar Andrade, acredita que a produção industrial pernambucana deve seguir a tendência nacional de alta. "Devemos seguir o mesmo caminho do Brasil, com crescimento na indústria geral na comparação com o mês anterior. E tendo um tombo muito grande comparado com o mesmo mês do ano passado", afirma ele, ponderando que em setores específicos poderemos ter números opostos ao do índice do País. “Alimentos e a produção de outros equipamentos de transporte devem ter um desempenho diferente do registrado nacionalmente", avalia ele.

Em todo o Brasil, a indústria alimentícia apresentou retração (-1,8%). No Estado, porém, ela tende a continuar crescendo. “O ramo de alimentos deve continuar tendo aumentos em Pernambuco, diferente do cenário brasileiro”, observa Cezar, ressaltando que as incertezas causadas pela crise dificultam as projeções. Por outro lado, Andrade explica que o segmento de outros equipamentos de transporte, que engloba a indústria naval e já vinha muito ruim, deve permanecer com números negativos. “O Estaleiro Atlântico Sul teve as atividades encerradas em 2019, o que já vinha contribuindo para o recuo da produção no setor, agora essa queda deve desacelerar, mas continuará caindo”, ressalta ele.

Na avaliação de Cezar, a tendência é a produção industrial, seja nacional ou estadual, feche o ano em queda devido à baixa demanda. "A população ainda está cautelosa em comprar e se endividar. Isso acaba exigindo menos da indústria, precisa escoar sua produção e não estocar mais", afirma Andrade, explicando que, além disso, o recuo no primeiro semestre foi muito grande. “Para recuperar isso totalmente, seria preciso incrementos altíssimos consecutivamente durante os próximos meses”, argumenta.

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