PESQUISA

Seis em cada dez casas brasileiras vivem insegurança alimentar; falta comida em 15%

Os números constam de estudo de pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de Brasília (UnB)

Estadão Conteúdo Marcelo Aprígio
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Marcelo Aprígio
Publicado em 15/04/2021 às 10:23
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
A pesquisa foi feita entre novembro e dezembro de 2020 - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Quase três quintos dos domicílios brasileiros (59,4% ou mais de 125 milhões de pessoas) apresentaram algum grau de insegurança alimentar no último quadrimestre de 2020.  Outro dois quintos diminuíram o consumo de alimentos importantes, como carnes e frutas. A situação mais grave está no Nordeste. Aqui, 73,1% das casas registraram insegurança alimentar no período. Os números constam de estudo de pesquisadores da Universidade Livre de Berlim, na Alemanha, em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Universidade de Brasília (UnB).

A pesquisa, cujos resultados foram divulgados na terça-feira (13) foi feita entre novembro e dezembro de 2020. As duas mil pessoas que compuseram a amostra consideraram sua situação de segurança alimentar a partir de agosto. É considerado em insegurança alimentar um domicílio com incerteza quanto o acesso à comida no futuro ou que já apresenta redução de quantidade ou qualidade dos alimentos consumidos.

O levantamento mostrou que 59,4% dos domicílios brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar no fim de 2020. Considerando os números totais, 31,7% relatou insegurança leve, 12,7% moderada, e 15% grave. Nesse caso, há falta de alimento. As pessoas que convivem na casa, incluindo as crianças, passaram fome.

Depois do Nordeste, a pior situação era a do Norte, com 67,7% de domicílios em situação de insegurança alimentar. A região em melhor situação foi a Sul, mas lá ainda assim mais da metade dos domicílios (51,6%) estava em insegurança alimentar. Centro-Oeste (54,6%) e Sudeste (53,5%) também registraram números altos.

Os dados reforçam a conclusão da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em setembro do ano passado. O estudo, pela primeira vez na série histórica, indicou queda nos níveis de segurança alimentar dos brasileiros. Os números apresentados agora, contudo, mostram que a pandemia e a situação econômica do País nos últimos anos pioraram a alimentação dos brasileiros.

"O aumento ainda maior da insegurança alimentar, bem como a redução drástica no consumo regular de alimentos saudáveis, eram esperados por múltiplos fatores, de ordem econômica e política" avalia Renata Motta, professora de Sociologia na Universidade Livre de Berlim e uma das responsáveis pelo estudo. "Os efeitos da desaceleração da economia desde 2015 não foram, como quando houve a queda do PIB com a crise financeira mundial de 2008, mediados por políticas sociais anticíclicas de garantia da renda A pandemia veio neste caldo e tornou ainda mais visíveis as consequências das escolhas políticas recentes do País."

DIVULGAÇÃO
Houve um aumento de 156% na quantidade de pernambucanos com insegurança alimentar moderada e grave entre 2013 e o período 2017-2018 - DIVULGAÇÃO

O trabalho das universidades mostrou que 63% dos domicílios entrevistados declararam ter utilizado o auxílio emergencial em 2020 para compra de alimentos. Por isso, o fim do benefício, em dezembro, e seu retorno agora, em valores bem mais baixos, causam preocupação.

"A instabilidade da política de auxílio emergencial, seu descontinuamento e seu corte significativo no valor e no universo têm efeitos imediatos na vida das famílias que dependem deste auxílio, pelo menos de duas grandezas: a limitação do acesso a alimentos pela própria redução do valor e também efeitos nas escolhas devido à preocupação de faltar dinheiro para comprar comida", pontua.

Cai consumo de alimentos de qualidade no Brasil

Outro ponto destacado pela pesquisa é a piora na qualidade do que os brasileiros comem. O estudo mostrou queda superior a 40% no consumo de carnes, frutas e queijos, e de 36,8% no de hortaliças e legumes.

"Alimentos como as carnes e frutas são considerados marcadores de alimentação saudável", ressalta a nutricionista e pesquisadora Melissa Araújo, da UFMG. "Além disso, indivíduos em insegurança alimentar apresentam maior consumo de alimentos não saudáveis, como os ultraprocessados, de maneira que o comprometimento na qualidade da alimentação contribui para maiores riscos de agravos em saúde como a obesidade, e, para as crianças, déficit cognitivo e no desenvolvimento."

REDE DE SOLIDARIEDADE

Welington Lima/ TV Jornal
Esta é a terceira entrega de cestas básicas e kits de limpeza do IJCPM em comunidades da Zona Sul do Recife - Welington Lima/ TV Jornal

Para tentar reverter esta triste realidade, ações solidárias se multiplicaram pelo Brasil afora. Na busca por ajudar as pessoas e conter o aumento da fome, instituições da sociedade civil têm se mobilizado para atender comunidades vulneráveis, em meio ao agravamento da crise sanitária, social e econômica da covid-19. Uma dessas organizações é o Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM).

O Instituto JCPM de Compromisso Social soma a doação de quase 42 mil cestas básicas nas quatro cidades onde tem unidades (Recife, Salvador, Aracaju e Fortaleza). As iniciativas emergenciais foram realizadas em duas fases, sendo a primeira ao longo de 2020, já no início da pandemia, e a segunda agora em março deste ano, quando se percebeu o agravamento considerável da fome nas regiões.

“Nossa atuação nas comunidades é, originariamente, focada em educação para jovens. Ajudamos na construção do futuro profissional deles. Mas, em meio ao aumento substancial da pobreza e da fome, tivemos que mudar nossos projetos durante a pandemia e focar em medidas de apoio ao que há de mais emergencial que é o alimento”, destaca a diretora de Desenvolvimento social do Grupo JCPM, Lucia Pontes. “Priorizamos as famílias dos jovens atendidos nos projetos educativos e nas entidades que atuam nas comunidades próximas a nós. Mas isso não é suficiente. É preciso haver uma mobilização maior da sociedade como um todo. É um dos momentos mais difíceis que já passamos”, completa ela.

Em 2020, o Grupo encerrou o ano com aportes de R$ 5,3 milhões em ações sociais para amenizar os efeitos da pandemia. Em 2021, quase R$ 500 mil já foram aportados em novas medidas.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Grupo JCPM faz doações de cestas básicas em comunidades do Pina - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Diante de tantas pessoas com fome, um ano atrás, no penúltimo dia de março, a empresária Maria Eduarda Fernandes, 46, decidiu arregaçar as mangas e começou, sozinha, fazendo 20 marmitas por dia, em sua casa, para distribuir perto da sua casa, em Boa Viagem. Vendo a atitude dela, alguns vizinhos decidiram ajudar. A ação cresceu e hoje são 22 voluntários. O projeto Vizinhos Solidários já atendeu, em 12 meses, mais de 20 comunidades. Distribuiu mais de 70 mil marmitas e 10 mil cestas básicas em 72 pontos de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.

"De segunda à sexta-feira entregamos, todos os dias, entre 150 e 200 refeições, sempre em um local diferente. Vai também suco, bolo e um kit de higiene pessoal para cada pessoa. Mapeamos algumas comunidades para entregar cestas básicas. Tudo com doações", conta Eduarda, dizendo perceber que, com o aumento da fome, mais pessoas têm ido às ruas pedir refeição. "De dois meses para cá a situação está gritante. Cresceu assustadoramente o número de pedintes nas ruas", atesta a empresária.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Moradores de rua passam necessidades durante a pandemia - Bairro do Espinheiro (Denise Viana) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

O Armazém do Campo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também vai intensificar as saídas do projeto Marmita Solidária justamente para atender um maior contingente de pessoas nas ruas. "Até a semana passada saíamos duas vezes, com 500 refeições para distribuir pelas ruas. A partir desta semana serão cinco vezes, ou seja, 2.500 refeições. Cada vez mais percebemos o aumento da miséria", lamenta o coordenador do espaço, Ramos Figueiredo.

Conheça iniciativas e saiba como ajudar:

IJCPM de Compromisso Social

Para entrar em contato com a instituição, acesse www.ijcpm.com.br/contato

Cúria Metropolitana

Av. Rui Barbosa, 409, Graças, Recife, todos os dias, de domingo a domingo, das 7h às 17h, além de paróquias das igrejas católicas

Associação Vizinhos Solidários

Rua Souto Filho, 118, Pina

Armazém do Campo 

Rua Imperador Dom Pedro II, 387, Santo Antônio
Para doações em dinheiro: Associação da Juventude Camponesa Nordestina - Terra Livre - Banco do Brasil | AG 0697-1 | CC 58892-X (outros bancos, substituir o X por 0)
PX: 09.423.270.0001.80

A Fome Não Pode Esperar
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Diocese de Palmares - CNPJ: 10.193.944/0028-04 - Banco do Brasil | AG: 3924-1 | CC: 40.629-5

Central de Cidadania
As doações podem ser feitas pelo site www.centraldecidadania.org/doe-contato

Cores do Amanhã
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Movimento Social e Cultural - Cores do Amanhã - CNPJ: 13.449.687/0001-9 - Banco do Brasil | AG: 4118-1 | CC: 20.766-7

Enche Panela
As doações podem ser feitas via vakinha.com.br/vaquinha/enche-panela

Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC)
As doações podem ser feitas pelo site www.nacc.org.br/como-ajudar/doacoes/

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Houve um aumento de 156% na quantidade de pernambucanos com insegurança alimentar moderada e grave entre 2013 e o período 2017-2018 - FOTO:DIVULGAÇÃO

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