INSEGURANÇA ALIMENTAR

Mais da metade dos brasileiros encara avanço da covid-19 no País com fome e sem renda

Dados fazem parte do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Penssan

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 06/04/2021 às 14:20
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Cerca de 116,8 milhões de brasileiros conviveram com algum grau de insegurança alimentar no país nos últimos meses do ano - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Cerca de 19 milhões de pessoas foram atingidas pela fome durante a pandemia de covid-19 no Brasil. Elas fazem parte de um grupo que reúne 116,8 milhões de brasileiros que conviveram com algum grau de insegurança alimentar no País nos últimos meses do ano, o que corresponde a 55,2% dos domicílios. É o que apontam os dados do Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, realizado pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).

Os números significam que pela primeira vez em 17 anos, mais da metade da população não teve certeza se haveria comida suficiente em casa no dia seguinte, teve que diminuir a qualidade e a quantidade do consumo de alimentos ou até passou fome. Engana-se, porém, quem acredita que este é um fenômeno recente. Segundo o levantamento, o aumento da fome no Brasil está mais acelerado nos últimos anos. Entre 2018 e 2020 a alta foi de 27,6% ao ano. Entre 2013 e 2018, esse ritmo não passava de 8%.

A pesquisa foi feita em 2.180 domicílios nas cinco regiões do Brasil, questionando os moradores sobre os três meses anteriores ao momento coleta, entre os dias 5 e 24 de dezembro, quando o auxílio emergencial foi diminuído de R$ 600 para R$ 300 e de R$ 1.200 para R$ 600 — quando a pessoa de referência era uma mãe solo —, afetando a renda de milhões de beneficiários.

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FOME Desempregado, o ajudante de carpinteiro José Cícero Santos exibe pelas ruas do bairro do Espinheiro um cartaz com pedido de comida para a família - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Mesmo sendo uma ajuda providencial para um momento de crescente desemprego, em virtude das medidas de isolamento social para frear o avanço da doença, o auxílio emergencial não foi suficiente para conter os impactos socioeconômicos da pandemia na vida dos brasileiros, sobretudo, os mais pobres. “Certamente, estaríamos numa situação pior se não houve o auxílio, mas houve um erro de avaliação por parte do governo sobre ritmo da pandemia que resultou praticamente numa inércia, que só foi resolvida há pouco com a aprovação da PEC Emergencial, que garantiu os recursos para uma nova etapa do auxílio emergencial”, diz o economista Jorge Jatobá, sócio-consultor da Ceplan.

De acordo com o inquérito da Rede Penssan, entre os domicílios que receberam o auxílio emergencial, 28% viveram insegurança alimentar grave — em outras palavras, passaram fome — ou moderada e 37,6% viveram de forma leve. Já no rol daqueles que não receberam, 10,2% passaram por insegurança grave ou moderada, e a maior parte deles, 60,3% viveram em segurança alimentar.

Uma nova rodada do auxílio emergencial foi aprovada e começou a ser paga nesta terça-feira (6) a 2,36 milhões de famílias. Os primeiros a receber serão beneficiários nascidos em janeiro e que não fazem parte do Bolsa Família. Os valores variam entre R$ 150 e R$ 375.

“É claro que vai ajudar muita gente, mas é muito menor que ano passado. E, obviamente, que isso vai se refletir no tamanho da pobreza no Brasil. Dados da FGV já mostram como a pobreza absoluta cresceu no trimestre passado, justamente no período que o auxílio foi descontinuado”, pontua Jatobá. “Junto a isso, vem o fantasma da fome, que pode ser visto diariamente nos semáforos do Recife. Uma verdadeira tragédia social”, completa.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Moradores de rua passam necessidades durante a pandemia - Boa Viagem (Sinval Barbosa) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Já na avaliação de Ecio Costa, professor de economia da UFPE e autor de dois estudos sobre o benefício, o intuito da ajuda por parte da União é, como sugere o próprio nome, temporário e não atinge profundamente problemas estruturais.

“Menos pessoas serão beneficiadas nesta rodada do auxílio, que terá um orçamento seis vezes menor que em 2020. Mas essa, sem dúvidas, não é política que vem para resolver o problema da miséria e da fome das famílias. Para que haja uma solução para isso, é preciso um programa mais sólido e permanente, que tenha recursos mais elevados”, diz ele, frisando que um novo programa só seria possível se houvesse uma reformulação do tamanho do Estado.

OS MAIS AFETADOS

Ser mãe solo, negra e com baixa escolaridade diminui o nível de segurança alimentar no Brasil. A fome se fez presente em 11,1% das casas chefiadas por mulheres. Quando o domicílio em que a pessoa de referência é um homem, esse número cai para 7,7%. A diferença na segurança alimentar entre os gêneros é consideravelmente maior: quando se trata de uma mãe solo, 35,9% das famílias têm a alimentação garantida, já no caso dos homens são mais que a metade, 52,5%. Quando a pessoa de referência é negra, a fome está presente em 10,7% das casas, enquanto se ela é branca, 7,5%.

Além disso, a falta de comida na mesa atingiu 14,7% dos lares em que a pessoa de referência não tinha escolaridade ou ensino fundamental incompleto. Com ensino fundamental completo ou ensino médio incompleto, caiu para 10,7%. E em lares chefiados por pessoas com ensino médio completo em diante, despencou para 4,7%.

“Pessoas com baixa escolaridade têm muito mais dificuldades de permanecer no mercado de trabalho, que no final, é o que garante o poder aquisitivo das famílias. Por essa razão esse problema de insegurança alimentar”, diz José Arlindo Soares, sociólogo e pesquisador do Centro Josué de Castro, apontando que a atual situação do país tende a ser ainda mais agravada nos próximos anos, considerando que, com a pandemia, centenas de crianças e jovens foram prejudicados no acesso à educação.

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Números fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira, 17 - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

“Então, é possível entender algo: se houver um investimento maciço em educação, a médio e longo prazo, vamos assistir a uma intensa redução da miséria e, consequentemente, da fome. Não dar cabo, porque algumas pessoas, ainda assim, não vão conseguir ingressar no mercado de trabalho e, para suprir isso, o Poder Público precisa criar um programa de renda mínima permanente”, afirma Soares.

Assim como gênero, raça e escolaridade, as desigualdades regionais também impactam a segurança alimentar. O Norte e o Nordeste concentram menos domicílios com acesso pleno a alimentos. No Norte, 18,1% das famílias passavam fome, enquanto 13,8% no Nordeste. Em comparação com a macrorregião Sul e Sudeste, agrupadas na pesquisa, a fome atingiu 6%. No Centro-Oeste, foram 6,9%.

“Essa já é uma questão histórica, que não tem, especificamente, relação com a pandemia. Se observarmos dados do IBGE, encontraremos, por exemplo, em estados como Maranhão, Alagoas, Amapá, Amazonas, Pará, e até mesmo Pernambuco, com um percentual elevado de sua população em condições de pobreza e extrema pobreza. Isso é algo de décadas”, afirma Ecio Costa, ressaltando que condições naturais, como a seca, e políticas econômicas, que primaram pela industrialização do Sudeste, contribuem para esta desigualdade regional.

A pesquisa da Pensann mostra ainda o aumento da fome no Brasil aos níveis observados em 2004, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), quando a insegurança alimentar moderada estava em 12% e a grave em 9,5%. Na pesquisa atual, os dados mostram o primeiro quesito em 11,5%, e o segundo em 9%.

É o pior índice desde então. Em 2004, o país tinha 64,8% da população em segurança alimentar, hoje tem 44,8%. Até 2013, pesquisas mostravam regressão da fome no país. A Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, no entanto, evidenciou o aumento da insegurança alimentar. Agora, é ainda maior.

Segundo o sociólogo José Arlindo Soares, nenhum dos fatores que influenciam na segurança alimentar das famílias melhorou nos últimos meses. Entre eles estão as garantias de emprego e renda, cada vez mais enfraquecidas. "Outro indicador indireto é verificar como aumentaram as manifestações de preocupação em relação à fome e as ações de solidariedade. Então, seja pelo agravamento dos determinantes, seja pela maior presença do tema nos debates públicos, tudo nos leva a crer que a situação só fez piorar", pontua ele.

REDE DE SOLIDARIEDADE

Welington Lima/ TV Jornal
Esta é a terceira entrega de cestas básicas e kits de limpeza do IJCPM em comunidades da Zona Sul do Recife - Welington Lima/ TV Jornal

De fato, ações solidárias se multiplicaram pelo Brasil afora. Na busca por tentar ajudar as pessoas e conter o aumento da fome, instituições da sociedade civil têm se mobilizado para atender comunidades vulneráveis, em meio ao agravamento da crise sanitária, social e econômica da covid-19. Uma dessas organizações é o Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM).

O Instituto JCPM de Compromisso Social soma a doação de quase 42 mil cestas básicas nas quatro cidades onde tem unidades (Recife, Salvador, Aracaju e Fortaleza). As iniciativas emergenciais foram realizadas em duas fases, sendo a primeira ao longo de 2020, já no início da pandemia, e a segunda agora em março deste ano, quando se percebeu o agravamento considerável da fome nas regiões.

“Nossa atuação nas comunidades é, originariamente, focada em educação para jovens. Ajudamos na construção do futuro profissional deles. Mas, em meio ao aumento substancial da pobreza e da fome, tivemos que mudar nossos projetos durante a pandemia e focar em medidas de apoio ao que há de mais emergencial que é o alimento”, destaca a diretora de Desenvolvimento social do Grupo JCPM, Lucia Pontes. “Priorizamos as famílias dos jovens atendidos nos projetos educativos e nas entidades que atuam nas comunidades próximas a nós. Mas isso não é suficiente. É preciso haver uma mobilização maior da sociedade como um todo. É um dos momentos mais difíceis que já passamos”, completa ela.

Em 2020, o Grupo encerrou o ano com aportes de R$ 5,3 milhões em ações sociais para amenizar os efeitos da pandemia. Em 2021, quase R$ 500 mil já foram aportados em novas medidas.

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Grupo JCPM faz doações de cestas básicas em comunidades do Pina - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Diante de tantas pessoas com fome, um ano atrás, no penúltimo dia de março, a empresária Maria Eduarda Fernandes, 46, decidiu arregaçar as mangas e começou, sozinha, fazendo 20 marmitas por dia, em sua casa, para distribuir perto da sua casa, em Boa Viagem. Vendo a atitude dela, alguns vizinhos decidiram ajudar. A ação cresceu e hoje são 22 voluntários. O projeto Vizinhos Solidários já atendeu, em 12 meses, mais de 20 comunidades. Distribuiu mais de 70 mil marmitas e 10 mil cestas básicas em 72 pontos de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.

"De segunda à sexta-feira entregamos, todos os dias, entre 150 e 200 refeições, sempre em um local diferente. Vai também suco, bolo e um kit de higiene pessoal para cada pessoa. Mapeamos algumas comunidades para entregar cestas básicas. Tudo com doações", conta Eduarda, dizendo perceber que, com o aumento da fome, mais pessoas têm ido às ruas pedir refeição. "De dois meses para cá a situação está gritante. Cresceu assustadoramente o número de pedintes nas ruas", atesta a empresária.

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Moradores de rua passam necessidades durante a pandemia - Bairro do Espinheiro (Denise Viana) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

O Armazém do Campo, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também vai intensificar as saídas do projeto Marmita Solidária justamente para atender um maior contingente de pessoas nas ruas. "Até a semana passada saíamos duas vezes, com 500 refeições para distribuir pelas ruas. A partir desta semana serão cinco vezes, ou seja, 2.500 refeições. Cada vez mais percebemos o aumento da miséria", lamenta o coordenador do espaço, Ramos Figueiredo.

Conheça iniciativas e saiba como ajudar:

IJCPM de Compromisso Social

Para entrar em contato com a instituição, acesse www.ijcpm.com.br/contato

Cúria Metropolitana

Av. Rui Barbosa, 409, Graças, Recife, todos os dias, de domingo a domingo, das 7h às 17h, além de paróquias das igrejas católicas

Associação Vizinhos Solidários

Rua Souto Filho, 118, Pina

Armazém do Campo 

Rua Imperador Dom Pedro II, 387, Santo Antônio
Para doações em dinheiro: Associação da Juventude Camponesa Nordestina - Terra Livre - Banco do Brasil | AG 0697-1 | CC 58892-X (outros bancos, substituir o X por 0)
PX: 09.423.270.0001.80

A Fome Não Pode Esperar
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Diocese de Palmares - CNPJ: 10.193.944/0028-04 - Banco do Brasil | AG: 3924-1 | CC: 40.629-5

Central de Cidadania
As doações podem ser feitas pelo site www.centraldecidadania.org/doe-contato

Cores do Amanhã
As doações podem ser feitas por depósito bancário na conta: Movimento Social e Cultural - Cores do Amanhã - CNPJ: 13.449.687/0001-9 - Banco do Brasil | AG: 4118-1 | CC: 20.766-7

Enche Panela
As doações podem ser feitas via vakinha.com.br/vaquinha/enche-panela

Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (NACC)
As doações podem ser feitas pelo site www.nacc.org.br/como-ajudar/doacoes/

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SOCORRO Pedidos de ajuda e relatos de fome têm crescido nas ruas da RMR - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores de rua passam necessidades durante a pandemia - Bairro do Espinheiro (Denise Viana) - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores de rua passam necessidades durante a pandemia - Boa Viagem (Sinval Barbosa) - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Grupo JCPM faz doações de cestas básicas em comunidades do Pina - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Welington Lima/ TV Jornal
Esta é a terceira entrega de cestas básicas e kits de limpeza do IJCPM em comunidades da Zona Sul do Recife - FOTO:Welington Lima/ TV Jornal
FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Números fazem parte da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017-2018: Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira, 17 - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
EMERGENCIAL Auxílio não foi suficiente para conter os impactos socioeconômicos da pandemia na vida dos brasileiros e nova rodada terá menos força - FOTO:BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
ARTES JC
Conheça iniciativas e saiba como ajudar: - FOTO:ARTES JC

Escolaridade, raça e gênero pesam

Ser mãe solo, negra e com baixa escolaridade diminui o nível de segurança alimentar no Brasil. A fome se fez presente em 11,1% das casas chefiadas por mulheres. Quando o domicílio em que a pessoa de referência é um homem, esse número cai para 7,7%. A diferença na segurança alimentar entre os gêneros é consideravelmente maior: quando se trata de uma mãe solo, 35,9% das famílias têm a alimentação garantida, já no caso dos homens são mais que a metade, 52,5%. Quando a pessoa de referência é negra, a fome está presente em 10,7% das casas, enquanto se ela é branca, 7,5%.

Além disso, a falta de comida na mesa atingiu 14,7% dos lares em que a pessoa de referência não tinha escolaridade ou ensino fundamental incompleto. Com ensino fundamental completo ou ensino médio incompleto, caiu para 10,7%. E em lares chefiados por pessoas com ensino médio completo em diante, despencou para 4,7%.

"Pessoas com baixa escolaridade têm muito mais dificuldades de permanecer no mercado de trabalho, que no final, é o que garante o poder aquisitivo das famílias", diz José Arlindo Soares, sociólogo e pesquisador do Centro Josué de Castro. Ele prevê que a atual situação do País tende a ser pior nos próximos anos, considerando que, com a pandemia, centenas de crianças e jovens foram prejudicados no acesso à educação.

"Se houver um investimento maciço em educação, a médio e longo prazo, vamos assistir a uma intensa redução da miséria e, consequentemente, da fome. Ainda assim, muitos não vão conseguir ingressar no mercado de trabalho e, para suprir isso, o Poder Público precisa criar um programa de renda mínima permanente", afirma Soares.

Assim como gênero, raça e escolaridade, as desigualdades regionais também impactam a segurança alimentar. O Norte e o Nordeste concentram menos domicílios com acesso pleno a alimentos. No Norte, 18,1% das famílias passavam fome, enquanto 13,8% no Nordeste. Em comparação com o Sul e Sudeste, regiões agrupadas na pesquisa, a fome atingiu 6%. No Centro-Oeste, foram 6,9%.

"Essa já é uma questão histórica, que não tem, especificamente, relação com a pandemia. Se observarmos dados do IBGE, encontraremos, por exemplo, em Estados como Maranhão, Alagoas, Amapá, Amazonas, Pará, e até mesmo Pernambuco, com um percentual elevado de sua população em condições de pobreza e extrema pobreza", afirma Ecio Costa, ressaltando que condições naturais, como a seca, e políticas econômicas, que primaram pela industrialização do Sudeste, contribuem para esta desigualdade regional.

A pesquisa da Pensann mostra ainda o aumento da fome no Brasil comparados aos níveis observados em 2004, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), quando a insegurança alimentar moderada estava em 12% e a grave em 9,5%. Na pesquisa atual, os dados mostram o primeiro quesito em 11,5%, e o segundo em 9%.

É o pior índice desde então. Em 2004, o País tinha 64,8% da população em segurança alimentar, hoje tem 44,8%. Até 2013, pesquisas mostravam regressão da fome, mas Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, já evidenciava o aumento da insegurança alimentar.

Segundo o sociólogo José Arlindo Soares, nenhum dos fatores que influenciam na segurança alimentar das famílias melhorou nos últimos meses. Entre eles estão as garantias de emprego e renda, cada vez mais enfraquecidas. "Outro indicador indireto é verificar como aumentaram as manifestações de preocupação em relação à fome e as ações de solidariedade", pontua ele.

Ajuda cada vez mais necessária

Na busca por tentar ajudar as pessoas e conter o aumento da fome, ações solidárias têm se mobilizado. Uma dela é organizada pelo Instituto João Carlos Paes Mendonça de Compromisso Social (IJCPM), que soma a doação de quase 42 mil cestas básicas nas quatro cidades onde tem unidades (Recife, Salvador, Aracaju e Fortaleza).

As iniciativas emergenciais foram realizadas em duas fases, sendo a primeira ao longo de 2020, já no início da pandemia, e a segunda agora, em março deste ano, quando se percebeu o agravamento da fome nas regiões.

"Nossa atuação nas comunidades é, originariamente, focada em educação para jovens. Mas, em meio ao aumento substancial da pobreza e da fome, tivemos que mudar nossos projetos durante a pandemia", destaca a diretora de Desenvolvimento social do Grupo JCPM, Lucia Pontes.

"Priorizamos as famílias dos jovens atendidos nos projetos educativos e nas entidades que atuam nas comunidades próximas a nós. Mas é preciso uma mobilização maior da sociedade", completa.

Em 2020, o Grupo JCPM encerrou o ano com aportes de R$ 5,3 milhões em ações sociais para amenizar os efeitos da pandemia. Em 2021, quase R$ 500 mil já foram investidos em novas medidas.

Diante da fome dos outros, a empresária Maria Eduarda Fernandes, 46, decidiu arregaçar as mangas e começou, sozinha, fazendo 20 marmitas por dia, em casa, para distribuir na sua vizinhança, em Boa Viagem. Logo, alguns vizinhos decidiram ajudar e hoje são 22 voluntários. O projeto Vizinhos Solidários já atendeu, em 12 meses, mais de 20 comunidades. Distribuiu mais de 70 mil marmitas e 10 mil cestas básicas em 72 pontos de Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes.

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