CONTA DE LUZ

Por que a conta de energia não para de subir e quais os problemas disso?

A escassez de água dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste vai trazer impactos na conta de luz de setembro e no reajuste anual de 2022

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Angela Fernanda Belfort

Publicado em 27/08/2021 às 19:22 | Atualizado em 27/08/2021 às 19:26
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A escassez de água dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste vai fazer a conta de luz dos brasileiros aumentar em setembro e mais ainda em 2022 no reajuste anual feito pelas distribuidoras, que no caso dos pernambucanos ocorrerá no dia 29 de abril do próximo ano. Primeiro, o aumento que vai ocorrer em setembro é o da bandeira tarifária vermelha no patamar 2 que terá o novo valor anunciado pela Agência Nacional de Energia Eletrica (Aneel) na próxima semana. A expectativa é de que o preço da bandeira vermelha saia dos atuais R$ 9,492 e fique entre R$ 14,00 e R$ 15,00, o que daria uma variação entre 50% e 58%. Esta taxa é cobrada a cada 100 quilowatt-hora (kWh) consumido de energia elétrica.

>> Aneel estima que tarifas de energia podem subir 16,08% no próximo ano

A bandeira tarifária vermelha no patamar 2 é a mais alta em valor. O sistema de bandeiras tarifárias foi adotado como uma forma de cobrar do consumidor, já no próximo mês, quando a geração de energia fica mais cara, como está ocorrendo agora por causa da crise hídrica dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste, responsáveis por armazenar cerca de 70% da água que pode ser acumulada no País para gerar energia. Eles estão passando pela maior estiagem dos últimos 91 anos.

 

A falta de água nos reservatórios é o motivo que está fazendo a conta de luz aumentar em setembro e um dos principais razões para o preço ficar mais alto no reajuste anual da tarifa a ser cobrada em  2022. Quando os reservatórios estão com boa capacidade de armazenamento, pouco mais de 60% da energia produzida no País vem das hidrelétricas que, como o nome diz, usam a água. Quando os reservatórios estão em baixa, a produção de energia elétrica no País fica mais cara porque o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) manda as usinas termelétricas produzirem mais energia a um custo mais alto já que a matéria-prima usada por esses empreendimentos são o gás natural, o carvão e óleo diesel.

Até as 17h33m, desta sexta-fera (27), o acumulado da energia consumida no Brasil foi gerada pelas seguintes fontes: 48,9% vieram das hidrelétricas; 29% das termelétricas e 16,2% das eólicas. Isso significa que o volume de energia produzida pelas térmicas está sendo maior do que a média e, provavelmente, só a cobrança da bandeira tarifária não será suficiente para pagar as despesas das térmicas, incluindo algumas que tem o preço muito alto e geram energia a mais de R$ 1 mil, o megawatt-hora (MWh). Somente para o leitor ter uma ideia, no último leilão (A-3), realizado pela Aneel em julho deste ano, a o MWh da enegia eólica foi comercializada entre R$ 130 e R$ 160 e a mesma quantidade de solar foi vendida por R$ 123. 

IMPACTO

"Quem sempre paga a conta do setor elétrico é o consumidor. Pelas informações já divulgadas, a expectativa é de um reajuste médio de 15% na conta de energia no próximo ano. Só as térmicas devem responder por 5% deste percentual. Mas tem outras coisas, como a conta covid-19", diz o consultor do Instituto Clima e Sociedade (ICS), Ricardo Lima, que acompanha o setor elétrico.

A conta covid-19 foi um empréstimo feito pelo governo federal para evitar o prejuízo que as distribuidoras de energia, aquelas que entregam a energia na casa do consumidor residencial, poderiam ter pela diminuição do consumo de energia que ocorreu durante alguns meses na pandemia do coronavírus, quando muitos empreendimentos fecharam temporariamente as portas, como foi o caso do comércio, ou diminuíram a sua produção feito a indústria. Explicando de uma maneira mais grosseira: a distribuidora tinha um contrato para compra R$ 100,00 em energia de uma geradora, mas precisou de menos energia e aí comprou R$ 80,00. A diferença dos R$ 20 será bancado por esse empréstimo que vai chegar na conta de luz de todos os brasileiros em 2022.

Ricardo também critica a cobrança da bandeira vermelha no patamar mais alto para os consumidores de baixa renda. "Um cliente de baixa renda que tenha um consumo de 100 KWh por mês vai deixar de comprar dois quilos de arroz para bancar os quase R$ 10 da bandeira vermelha. Essa taxa penaliza muito quem é mais pobre", conclui.

PROBLEMA

Embora o ministro da Economia, Paulo Guedes, tenha questionado na quarta-feira (25 ), "qual o problema da energia ficar um pouco mais cara porque choveu menos ?", o aumento do preço da conta de luz impacta toda a cadeia produtiva. O Brasil tem uma das energias mais caras do mundo e, algumas indústrias - que possuem o consumo alto - já se mudaram para países vizinhos para não pagar essa conta.

Mas este aumento não prejudica só as empresas, impacta diretamente o orçamento das famílias, porque faz tudo ficar mais caro, porque estabelecimentos, como por exemplo supermercados, cabelereiros, bares, restaurantes, repassam esse custo para o consumidor final. Resultado: a prévia da inflação do IPCA-15 divulgado na quinta-feira (26) ficou em 0,89% em agosto, sendo a maior variação para este mês desde 2002. Pelas contas do IBGE, a energia subiu 5% em agosto e provocou um impacto de 0,23 ponto percentual na composição deste índice que mede a alta do custo de vida.

O aumento que ocorreu na tarifa foi o aumento da bandeira vermelha no patamar 2 que saiu de R$ 6,243 em junho para R$ 9,492 a partir de 1º de julho último. A única coisa boa é que a bandeira vermelha no patamar 2 deixará de ser cobrada, quando for regularizada a situação de armazenamento de água dos reservatórios do Sudeste/Centro-oeste, porque quando isso ocorre a bandeira é verde e não resulta em qualquer pagamento extra pelo consumidor. A má notícia é nem o governo federal nem técnicos do setor sabem dizer quando isso vai acontecer. Se chover muito a partir de novembro, pode ser que o preço da bandeira fique mais baixo em 2022. 

 

 

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