ENERGIA

Brasil já tem um parque de geração solar do tamanho de uma Chesf

O País alcançou a marca de 10 gigawatts (GW) instalados em geração solar fotovoltaica no mês passado. Mais de 60% disso foram de projetos pequenos, implantados, por exemplo, num telhado de uma casa

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Angela Fernanda Belfort

Publicado em 18/09/2021 às 7:30 | Atualizado em 21/09/2021 às 10:20
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De telhado em telhado, o Brasil já tem um parque gerador de energia solar fotovoltaica que corresponde a potência instalada de todas as hidrelétricas da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) ou a mais de 70% da Usina Hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior do mundo e a maior da América Latina. No mês passado, o País alcançou a marca de 10 gigawatts (GW) de potência instalada de energia solar. Isso significa que somente 13 nações no mundo produzem mais este tipo de energia do que o Brasil. Desse total, mais de 60% estão em pequenos projetos instalados, por exemplo, em cima de uma residência. "Sempre achei interessante gerar a própria energia e via empresas fazendo isso. Não imaginava que era acessível para um consumidor de baixa renda como é o meu caso. Mas isso mudou e me trouxe economia", comenta a dona de casa e professora Lúcia Helena Santos, que mora numa casa - com mais duas pessoas adultas - em Santo Aleixo, em Jaboatão Antigo, no município de mesmo nome. 

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Lúcia Helena estava pagando R$ 226 numa conta de luz por mês, o que ela considerava "muito alta" em 2018, quando tomou conhecimento que poderia instalar placas solares fotovoltaicas sem ter que fazer um investimento por conta própria. "A empresa me ofereceu um financiamento das placas que vou pagar por cinco anos. E eu já paguei por três anos e meio. Hoje, pago R$ 120  do financiamento e R$ 20 de uma taxa à Celpe", comenta a professora. E acrescenta:"Se eu tivesse pagando a conta normal seria muito mais que R$ 300,00 hoje. É uma fonte que veio pra ficar, porque também não agride a natureza". Foram colocadas seis placas solares no telhado dela que ocupam cerca de 25% do telhado. 

A opção de Lúcia Helena foi adotada por milhares de brasileiros e também ajudou a consolidar um outro tipo de negócio: empresas que oferecem também o financiamento para consumidores interessados em gerar sua própria energia. É o caso da pernambucana Insole, um fintech - startups que oferecem soluções financeiras junto com uma tecnologia, melhorando a experiência do usuário. A empresa pernambucana oferece desde o empréstimo - que banca o investimento -  até a instalação das placas solares no telhado do consumidor.

"As pessoas estão querendo reduzir o preço da conta de energia e percebemos um gap no financiamento. E aí passamos a oferecer uma alternativa financeira para o cliente. Damos descontos de até 50% na conta de energia, o cliente paga o financiamento e no final do contrato a placa solar é do cliente", resumiu o fundador e presidente da Insole, Ananias Gomes.

No caso da Insole, os financiamentos podem ser de até 10 anos. As placas fotovoltaicas que geram energia a partir da radiação solar têm, geralmente, uma vida útil de 25 anos. Os clientes que usam o financiamento da empresa dão como garantia as próprias placas fotovoltaicas e não comprometem o seu crédito bancário. "Se o consumidor deixou de pagar, perde a placa", conta Ananias, acrescentando que geralmente isso não ocorre, porque o cliente passa a pagar um financiamento, que é num valor menor do que a conta de energia que pagava antes de gerar a própria energia. 

Fundada em 2013, a Insole nasceu gerando duas vagas de trabalho dos dois sócios. Hoje, emprega 200 pessoas. E instala sistemas de geração de energia solar fotovoltaica para clientes que têm contas de energia a partir de R$ 200. "O grande boom, o marco para o crescimento ocorreu em 2019. Na pandemia, o custo continuou alto, porque as pessoas ficaram perturbadas com o custo da energia no home office", explica Ananias.

A Insole apresentou um crescimento de 150% na quantidade de sistemas instalados, comparando 2020 com 2019. A empresa destina uma parte do seu faturamento a 11 instituições que desenvolvem projetos sociais, é adepta do ESG, uma série de regras que ligam a geração de valor econômico às questões ambientais e sociais e também é signatária dos  17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). "Não existe a pegada de mudar somente a energia. Defendemos que muitas pessoas não precisam só receber uma cesta básica, mas ter um engajamento de transformação social", conclui Ananias. 

EXPANSÃO

São vários os motivos da expansão da geração de energia a partir da radiação solar. A primeira é que o custo da produção desta energia ficou mais barata nos últimos anos devido à evolução da tecnologia num processo parecido com o que ocorreu com a geração eólica.  Na última década também foi regularizada, a questão da geração distribuída formada por projetos pequenos que podem ser instalados, por exemplo, no telhado de um casa, fazendo com que a geração seja próxima ou no mesmo lugar onde ocorre o consumo. Isso também é bom para o País, porque o excedente que não é consumido por quem gerou, entra na rede da distribuidora - que leva para o consumidor final - sem percorrer grandes distâncias. Ou seja, não coloca mais energia na rede de alta tensão que já está saturada em muitos lugares do Brasil. 

E a expansão também contou com a implantação de grandes parques de geração solar, que totalizam 3,5 GW do total já instalado no País. Atualmente, as usinas solares de grande porte são a sétima maior fonte de geração do Brasil, com empreendimentos em operação em nove Estados (Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins. Os investimentos acumulados neste segmento ultrapassam os R$ 19 bilhões dos R$ 52,7 bilhões investidos em parques solares desde 2012, que contribuiu para a geração de 300 mil empregos, segundo um levantamento da Aboslar. 

"As usinas solares de grande porte geram eletricidade a preços até dez vezes menores do que as termelétricas fósseis emergenciais ou a energia elétrica importada de países vizinhos atualmente, duas das principais responsáveis pelo aumento tarifário sobre os consumidores”, explica o presidente da Associação Brasileira da Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia. Ele estava se referindo aos consumidores que compram energia das distribuidoras que são os que bancam a bandeira vermelha, uma taxa extra cobrada na conta de energia toda vez que aumenta os custos da produção, como ocorre agora, por causa da escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste.

Ainda de acordo com o levantamento da Absolar, na geração própria de energia os sistemas instalados - como os que são colocados em telhados - totalizam 6,5 GW de potência da fonte solar, o que equivale a mais de R$ 33 bilhões que foram investidos desde 2012 nas cinco regiões do Brasil. A tecnologia solar é utilizada atualmente em 99,9% de todas as conexões de geração própria no País, liderando com folga o segmento.

"A energia solar está deixando de ser do futuro e de gente rica para ser do presente e completamente democratizada", diz o coordenador de geração distribuída da Absolar, Guilherme Susteras. Ele cita como exemplo um projeto instalado entre as favelas Chapéu-Mangueira no Rio de Janeiro pela Organização Não Governamental Revolusolar, que colocou as placas solares num grande galpão, beneficiando várias famílias daquela comunidade que não dispunham de um telhado para gerar a sua própria energia. 

Guilherme afirma também que a energia solar também pode ter um papel importante neste desenho de escassez de água nos reservatórios das hidrelétricas. "Poderiam guardar mais a água dos reservatórios das hidrelétricas durante o dia e usar a energia delas mais a noite, quando a solar não pode gerar. Isso faria com que os reservatórios (das hidrelétricas) não esvaziassem tão rápido", afirma.

No mundo, somente 13 países têm mais de 10 GW instalados de potência de energia solar fotovoltaica.  Os que lideram este tipo de geração são a China com 253,8 GW, os Estados Unidos com 73,8 GW, o Japão com um parque instalado de 68,6 GW; a Alemanha com 53,7; a Índia com 38,9 GW e a Itália com 21,5 GW. "Isso mostra o quanto nós começamos atrasados, mas a tendência é crescer mais rapidamente a partir de agora", conclui Guilherme.  

 

 


 

 

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