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Inflação, crise energética, desemprego. Por que Brasil destoa do mundo e não consegue engrenar mesmo com a pandemia em baixa?

As previsões de crescimento econômico divulgadas pelo FMI nesta semana, chamaram a atenção para o fato de que o Brasil está ficando pra trás em termos de crescimento econômico. Entenda porque isso é ruim pra todos os brasileiros

Angela Fernanda Belfort
Angela Fernanda Belfort
Publicado em 15/10/2021 às 11:20
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Agência Brasil
A falta de água nos resrevatórios do Centro-Oeste/Sudeste é uma das crises que contribuem para a economia crescer menos no Brasil - FOTO: Agência Brasil
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O mundo está começando a andar neste cenário de convivência controlada com a covid-19 e voltando a crescer, como mostram as projeções que o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou nesta semana. No entanto, a instituição baixou as previsões de crescimento do Produto Interno Brasileiro (PIB) do Brasil, o que vai crescer menos entre os emergentes. As projeções agora são de que o Brasil apresente um crescimento de, respectivamente, 5,2% e 1,5% em 2021 e 2022, o que representa menos -0,1 e -0,4 nas previsões realizadas em julho pela mesma instituição. Ou seja, as expectativas com relação à economia brasileira pioraram e o mesmo não aconteceu com as previsões para o mundo, América Latina e países emergentes. A crise energética e a inflação estão em alta no mundo inteiro, mas por que os brasileiros vão amargar uma retomada da economia mais lenta ? "É um conjunto de crises. É um conjunto de fatores que dificultam o crescimento", resume o economista e diretor-sócio da consultoria Ceplan, Jorge Jatobá. 

Nas previsões do FMI, o mundo vai crescer em média 5,9% em 2021, os países emergentes 6,4% e a América Latina, 6,3%. Para 2022, o mundo deve crescer 4,9%, os emergentes apresentarem um incremento de 5,1% das suas economias e os países da América Latina vão ter um aumento médio de 3%, que é o dobro do crescimento previsto para o Brasil. São considerados emergentes países, como o Brasil, Coreia do Sul, México, Índia, entre outros. 

O que chamou a atenção nas previsões do FMI é a impressão de que o País, mais uma vez, está ficando pra trás, quando se compara com  as previsões feitas em julho com as últimas projeções, de outrubro, do PIB para o período de 2020 a 2022. As previsões de crescimento continuaram as mesmas para os países emergentes e mundo com, respectivamente, 9,5% e 7,6%, enquanto a América Latina saiu de 1,5% (em julho) para 1,8% de aumento do PIB na previsão de outubro. Já o Brasil, tinha uma previsão de crescimento de 2,9% em julho e agora está com 2,4% para este período acumulado.  

Segundo dois economistas, a expectativa é de que o País vai crescer menos porque estão ocorrendo várias crises ao mesmo tempo, como por exemplo a crise hídrica - que no caso do Brasil também se transforma em crise energética - , a instabilidade política e outros fatores que contribuem para uma desaceleração da economia, como a volta da inflação em dois dígitos nos últimos 12 meses, e o aumento dos juros. Esses dois últimos vão impactar diretamente no bolso de todos os consumidores. A alta dos juros também diminuem os investimentos das empresas, que são necessários à retomada do crescimento econômico.

"Cada vez mais diminuem as estimativas de crescimento para o Brasil em 2021 e 2022. Já tínhamos os problemas estruturais de antes da crise sanitária. Depois veio a recessão da pandemia. Primeiro, isso também ocorreu por causa da forma que o governo federal tratou a pandemia: a vacinação lenta complicou a reabertura da economia e como consequência disso houve um novo pico de casos em março, abril e maio deste ano", explica Jatobá.

Outro fator que está contribuindo para a desaceleração da economia do Brasil é a crise energética, provocada principalmente por causa da estiagem na área dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste, responsáveis pelo armazenamento de até 70% da água que pode gerar energia no Brasil. As hidrelétricas respondem por cerca de 63% de todo o parque gerador instalado no País. Em alguns dias do mês passado, todas as hidrelétricas produziram 47% de toda a energia consumida pelos brasileiros. Com a falta de água, mais térmicas começaram a trabalhar pra não faltar energia. Esses empreendimentos usam como matéria-prima o diesel ou o gás natural. 

No mundo inteiro, a crise energética está ocorrendo devido à escassez de carvão - por causa da demanda da China - e também pela alta do preço do barril de petróleo que alcançou o maior preço dos últimos três anos. No caso do Brasil, foi necessário comprar mais óleo diesel e gás para alimentar as térmicas.  "A Petrobras equaliza os preços dos combustíveis com os praticados no mercado internacional. Tudo fica mais caro. Isso é repassado para os consumidores e acaba provocando mais inflação", explica Jorge Jatobá. 

No mundo, a alta generalizada dos preços varia na média de 4% a 5% ao ano.  No Brasil, a inflação dos últimos 12 meses - até setembro último - ficou em 10,25%, segundo o IPCA do IBGE que indica a inflação oficial do País.  E os grandes vilões da inflação têm sido os combustíveis - que influenciam os preços de todas as cadeias produtivas no Brasil, passando pelas indústrias e chegando ao supermercado e padaria -, a conta da energia elétrica, os alimentos - incluindo porque uma parte dos produtores decidiram exportar mais commodities, como por exemplo a soja, e a valorização do dólar que faz ficar mais caro tudo que é importado.

"Também tem uma inflação ligada à pandemia, porque houve um deslocamento da demanda de serviços para os bens industriais. Aumentaram os preços dos bens industriais e criou uma ruptura, porque com a pandemia, faltaram peças e componentes, porque as cadeias de suprimentos se romperam", comenta Jatobá. Grande parte das peças e componentes usados pelo mundo vem da China que também interrompeu a produção por causa da pandemia sem contar que também ocorreram problemas logísticos, que dificultaram o transporte e a entrega desses insumos em todo o mundo. 

No caso do Brasil, além dos fatores acima, entrou outro componente que também está prejudicando a economia: a valorização do dólar. A alta do dólar tem a ver com a instabilade política. É o fator Jair Bolsonaro, como foi definido pela colunista Miriam Leitão. "As palavras de um presidente da República são de um presidente da República, que é pródigo em gerar turbulências com outras instituições, sobretudo com o Supremo Tribunal Federal (STF)", lembra Jatobá. O STF é a instância máxima da Justiça do País.

Essas turbulências produzem mais instabilidade. "A conjuntura política cria um ambiente adverso e a economia vive de expectativas. Não saber como vai ser o futuro, faz as empresas cortarem investimentos, porque aumenta o risco do investimento", destaca Jatobá.

Quando o País apresenta queda do PIB, há perda de renda com mais pessoas desempregadas, como ocorre agora quando o desemprego alcançou 14,1%, atingindo 14,4 milhões de brasileiros, segundo os dados divulgados pelo IBGE em 31 de agosto. "A perda de renda reduz o consumo. Quando o consumo aumenta também contribui para o crescimento do PIB", revela Edgard Leonardo.  O aquecimento da economia faz as empresas aumentarem a contratação de pessoas para aumentar a produção, gerando mais renda e mais consumo. O aumento do PIB centrado no aumento do consumo num primeiro momento é bom, mas o que torna esse crescimento sustentável é o aumento da produtividade, que é baixa no Brasil. 

ANTES DA PANDEMIA

O Brasil já estava apresentando crescimento pífio antes da pandemia. "Na média, o Brasil cresceu 0,3% entre 2010 e 2020", recorda o economista e professor do Centro Universitário Tiradentes (Unit) Edgard Leonardo. Uma das maiores crises da economia brasileira ocorreu entre o quarto trimestre de 2014 e 2016, quando houve quedas no PIB do País e também muita instabilidade política, incluindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). 

Além da instabilidade política, os problemas estruturais da economia brasileira que contribuíram para o baixo crescimento da segunda década deste século continuam os mesmos: uma infraestrutura fraca, a  baixa qualificação da mão de obra, um sistema tributário muito complexo, falta de reformas que deixem a economia mais ágil, incluindo a desburocratização. "O País não fez a tarefa de casa para criar um ambiente de estabilidade política, jurídica e melhorar a produtividade, que é muito baixa", argumenta Edgard Leonardo.  A produtividade melhora principalmente com investimento maciço em educação,  infraestrutura e inovação, o que o Brasil não faz desde o século passado. 

E por que a previsão de crescimento para 2022 é ainda menor do que a de 2021 ? Primeiro, o crescimento de 2021 se dá sobre uma base muito fraca já que os serviços - responsáveis por 72% do PIB brasileiro - caíram muito em 2020 devido à pandemia do coronavírus. E o segundo fator que está contribuindo muito para isso é a instabilidade política. "Para o ano, teremos as eleições mais conturbadas depois da redemocratização. Há uma enorme quebra de braço pelo poder de dois lados com ânimos acirrados. O Congresso não se entende com Bolsonaro, que não se entende com o STF. Isso não traz estabilidade e gera uma expectativa de um PIB menor", constata Edgard Leonardo. 

E, para o Brasil voltar a crescer de forma sustentável. "Para resolver esses problemas da economia de forma sistêmica, seria preciso um plano de governo, passsando pelas reformas, melhorando a qualificação da mão de obra e a infraestrutura, entre outros", conclui Jorge.

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