Saúde

Dois séculos de vacinação e desconfiança

A desconfiança nas vacinas, inclusive a rejeição total de uma parte da população em se vacinar, não surgiu com a pandemia de covid-19 e sim com a própria vacinação

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Publicado em 08/08/2021 às 6:00
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Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O Distrito Federal começou a vacinar pessoas com 49 anos a partir de hoje. A vacinação contra a Covid-19 começou no dia 19 de janeiro e o DF já recebeu 1.455.070 doses de imunizantes. - FOTO: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
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A desconfiança nas vacinas, inclusive a rejeição total de uma parte da população em se vacinar, não surgiu com a pandemia de covid-19 e sim com a própria vacinação. "A rejeição à vacinação é tão antiga quanto a própria vacinação", segundo o historiador da saúde Patrick Zylberman. Uma jornada que dura mais de dois séculos de avanços e suspeitas.

Com pústulas altamente contagiosas, a varíola foi um flagelo terrível durante anos. Em 1796, o médico inglês Edward Jenner teve a ideia de injetar uma forma do vírus da varíola benigna em uma criança para estimular sua reação imunológica. O processo funcionou e, com ele, nasceu a "vacinação".

No Reino Unido, a vacina contra a varíola se tornou obrigatória para as crianças a partir de 1853. Essa obrigatoriedade gerou uma oposição gigantesca. Os críticos alegavam o "perigo" de injetar produtos procedentes de animais, "motivos religiosos" ou um "ataque às liberdades individuais".

A partir de 1898, uma "cláusula de consciência" foi adicionada à legislação britânica para permitir que os relutantes não se vacinassem. No final do século XIX, Louis Pasteur desenvolveu uma vacina contra a raiva a partir de uma cepa atenuada do vírus. Em 1885, realizou uma injeção bem-sucedida em Joseph Meister, uma criança que foi mordida por cão suspeito de ter raiva.

Neste caso, também houve desconfiança. Pasteur foi acusado de querer ficar rico com a fabricação de uma "raiva de laboratório".

Após a vacina contra o tifo desenvolvida no final do século XIX, os anos 1920 viram a chegada das vacinas contra a tuberculose (BCG, 1921), difteria (1923), tétano (1926) e a coqueluche (1926).

Também nos anos 1920, sais de alumínio começaram a ser utilizados como coadjuvantes para aumentar a eficácia das vacinas. Isso também foi uma fonte de suspeita para os críticos das vacinas, especialmente na França.

Em 1998, um estudo publicado na renomada revista médica The Lancet sugeria uma relação entre as vacinas SPR (sarampo, caxumba, rubéola) e o autismo.

No entanto, foi descoberto que se tratava de uma "enganação" do autor Andrew Wakefield, mas nem a negação oficial da revista nem os trabalhos posteriores comprovando a ausência de vínculo conseguiram conter os temores.

Este estudo ainda é frequentemente citado pelos críticos das vacinas.

Esse ceticismo tem como consequência o "ressurgimento de algumas patologias contagiosas" como o sarampo, destaca Patrick Zylberman em seu livro "La Guerre des vaccins" (A Guerra das Vacinas).

O sarampo matou 207.500 pessoas no mundo em 2019, 50% a mais que 2016, em um contexto de redução da vacinação global, alerta a OMS.

 

Em 2009, a pandemia da gripe H1N1, causada por um vírus da mesma família da gripe de 1918, soou as sirenes da OMS. Campanhas de vacinação foram organizadas, mas a epidemia foi menos grave que o previsto, deixando apenas 18.500 mortes.

Milhões de doses tiveram que ser destruídas e as críticas à má gestão reforçaram a desconfiança nas vacinas em vários países, onde os "anti-vacinas" destacam casos de efeitos colaterais, apesar de serem muito raros.

 

Oficialmente erradicada desde agosto de 2020 na África graças à vacina, a poliomielite resiste na Ásia, no Paquistão e Afeganistão, onde esta doença causa paralisia nos mais novos.

O fracasso das campanhas de vacinação é explicado principalmente pela desconfiança das populações rurais e a crença em teorias da conspiração contra os muçulmanos.

 

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