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O descansar do guerreiro

"José Neves - único pernambucano a ser eleito presidente nacional da OAB - ocupa o topo da lista desde os primeiros passos que empreendi na caminhada". Leia o artigo de Gustavo Henrique de Brito Alves Freire

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire
Publicado em 21/11/2021 às 10:00
Artigo
REPRODUÇÃO/OAB-PE
José Neves presidiu a OAB-PE no período de 1953 a 1971 e o Conselho Federal da OAB no triênio de 1971 a 1973 - FOTO: REPRODUÇÃO/OAB-PE
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Cala fundo na alma libertária pernambucana, vestindo de luto o Brasil pelo defensor dos direitos humanos que ele foi em traumática quadra histórica, a da ditadura civil-militar de 64/85, a despedida do Dr. José Cavalcanti Neves, aos 100 anos de uma vida marcada pela absoluta retidão entre discurso e prática em prol da cidadania.

Não convivi como gostaria com o presidente José Neves, perda muito maior minha que dele, porém, acabei me tornando próximo de parte de sua família, em especial do seu filho Jorge, ex-presidente da OAB/PE assim como ele, e do seu neto Carlos, também advogado-raiz, hoje emprestado ao TCE, tudo graças à política classista.

Como profissional do Direito, orgulhoso de ser advogado, e como voluntário do Sistema OAB, sempre quis ter comigo, como inspirações, os melhores referenciais. José Neves - único pernambucano a ser eleito presidente nacional da OAB - ocupa o topo da lista desde os primeiros passos que empreendi na caminhada. Um farol cuja luz não há ventania que consiga apagar. Uma rocha. Um titã.

Nos últimos anos temos sido instados, nós brasileiros, quase que diariamente, a defender o óbvio no plano da democracia. Temos sido chamados a entender que longe da legalidade e da liberdade como vetores, nada vinga no terreno civilizatório. Pois que a defesa do óbvio não se torne clichê e que trajetórias como a do dr. Neves nos sejam o combustível abundante.

Não há como deixar de destacar que a passagem do dr. José Neves ao plano da espiritualidade se deu em pleno mês de eleições na OAB pela qual ele doou o melhor de si. Quando surgem disputas por vezes renhidas na entidade, polarizadas ao extremo, é hora de voltar-se às lições de sua presidência na OAB para propor um armistício. Há muito mais hoje em jogo e a perigo que ambições eleitorais.

Descanse em paz, guerreiro das justas causas, cuja travessia ao plano celestial nos traz, dentre muitas outras, uma oportuna reflexão. Para Hannah Arendt, "a essência dos Direitos Humanos é o direito a ter direitos". Que a vida de José Cavalcanti Neves nos relembre insistentemente disso.

Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado

*Os artigos são de responsabilidade do autor e não refletem necessariamente a opinião do JC

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