NOVO CORONAVÍRUS

Na UTI, o respirador é a estrela principal, diz médica intensivista do Hospital Oswaldo Cruz

A médica Ana Flávia Campos, do Hospital Oswaldo Cruz e coordenadora da UTI de doenças infecciosas da unidade, afirma que, para as formas mais graves de covid-19, o respirador poderá representar a diferença entre viver e morrer.

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 15/04/2020 às 7:10
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Guga Matos/JC Imagem
Foto: Guga Matos/JC Imagem Data: 29-6-2017 Médica Ana Flávia Campos diz que 70% dos leitos de UTI do Hospital Oswaldo Cruz estão ocupados com suspeita ou confirmação de contaminação pelo coronavírus - FOTO: Guga Matos/JC Imagem
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JORNAL DO COMMERCIO - Como está a situação de respiradores hoje no Hospital Oswaldo Cruz, que é referência no tratamento de doenças infecciosas?
ANA FLÁVIA CAMPOS - A UTI está com 10 leitos. Eram sete e foram criados mais três, para dar suporte a essa pandemia. Todos os leitos estão 100% ocupados. Desses, cerca de 70% são de pacientes com suspeita ou confirmação de contaminação pelo coronavírus.

JC - Qual a importância desses aparelhos?
ANA FLÁVIA - Eles são fundamentais para ajudar o paciente a respirar. São aparelhos complexos, que precisam ser manipulados pelo médico, pelo fisioterapeuta e pela enfermagem. São muito específicos, precisam de uma fonte de oxigênio, de uma fonte de ar comprimido. Os pacientes que desenvolvem o quadro de insuficiência respiratória aguda precisam de bons aparelhos. Então, as pessoas que estão tentando fazer respiradores mais simples, até de uma forma artesanal, a ideia é muito boa, mas, de forma nenhuma, atende a gravidade do comprometimento pulmonar que esses pacientes apresentam. Eles desenvolvem a síndrome da angústia respiratória, que é uma doença de mortalidade muito elevada e que precisa de um respirador avançado, que tenha recursos para a gente tratar uma condição tão grave assim.

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JC - É possível o uso do equipamento em casa?
ANA FLÁVIA - Em absoluto um paciente com insuficiência respiratória aguda deve ser conduzido em residência. E até pode. Mas vai ter que ter fonte de ar comprimido, fonte de oxigênio, ele vai ter que ter médico, fisioterapeuta, uma estrutura de terapia intensiva. É um doente crítico. Essa doença, inclusive, é uma doença complexa, que pode afetar o coração, os rins.

JC - Não é só uma questão pulmonar...
ANA FLÁVIA - Não. A doença pode acometer outros órgãos.

JC - O respirador é um aparelho individual ou ele pode ser compartilhado em uma mesma UTI?
ANA FLÁVIA - Ele jamais pode ser compartilhado ao mesmo tempo. O respirador é um aparelho individual, exclusivo do paciente em uso. Inclusive, o ar circula no ventilador e contamina. Então, eu não posso dividir esse aparelho com ninguém, antes que seja desinfectado. O respirador tem uma vida média longa. Ele vai ser usado para muitos pacientes.

JC - Hoje ele representa a parte mais essencial nas UTIs? Pela covid-19 se tratar de uma doença respiratória?
ANA FLÁVIA - Ele é realmente fundamental. Para as formas graves, se você não tem um respirador, não tem nada. Agora, não adianta ter só o respirador. Tem que ter o monitor que vai medir a oxigenação dos pacientes cardíacos, que vai medir a pressão arterial, as bombas de infusão, é um conjunto de equipamentos que vai ajudar a salvar a vida do paciente. Mas o respirador é a estrela principal.

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