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Por medo de contrair coronavírus, grávida se recusa a deixar Fernando de Noronha para parto, mas é obrigada após decisão judicial

O arquipélago chegou a apresentar casos confirmados da covid-19, mas todos os pacientes estão curados clinicamente

Mayra Cavalcanti
Mayra Cavalcanti
Publicado em 11/05/2020 às 9:19
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ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
A administração da Ilha explica que os turistas que deixarem Noronha até cinco dias após a chegada serão direcionados à tenda para a realização do exame RT-PCR (nariz e garganta) antes do embarque - FOTO: ARNALDO CARVALHO/JC IMAGEM
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A transferência de uma gestante da Ilha de Fernando de Noronha para o Recife virou caso judicial após a empresária Alyne Luna, de 30 anos, se recusar a sair do arquipélago por medo de contrair o novo coronavírus. Após receber a informação de que seria transferida para a capital pernambucana por ordem judicial, a mulher, que está na 34ª semana de gestação, chegou a fugir, mas se apresentou na delegacia em seguida e foi trazida para o Recife nesse domingo (10). A transferência de gestantes da Ilha de Fernando de Noronha para o parto acontece geralmente na 28ª semana, já que não há maternidade no local.

Em entrevista à Rádio Jornal, a empresária explica que ficou sabendo da decisão na última sexta-feira (8) e que foram destinados policiais para a sua casa, já que o voo aconteceria no sábado (9). Segundo Alyne, ela acabou ficando assustada com a situação e fugiu. Ao entrar em contato com seu advogado, foi aconselhada a se apresentar na delegacia espontaneamente, atitude que ela tomou.

"Eu estava preocupada com o bem-estar da minha filha, da saúde dela. Estava muito angustiada com a possibilidade de vir direto para essa guerra da pandemia em Recife, quando em Noronha está zerado de casos. E eu assumia qualquer risco, desde que me deixassem ficar em minha casa junto com meu esposo", comenta.

O arquipélago chegou a apresentar 28 casos confirmados da covid-19, mas todos os pacientes estão curados clinicamente. A ilha vive em isolamento total desde o dia 20 de abril, desta forma, a população só pode sair de casa pra realizar atividades essenciais e urgentes, como a compra de alimentos, remédios e produtos de higiene, além de atendimento ou socorro médico.

Para Alyne, o ideal seria ter ficado na ilha, tanto para se preservar contra o novo coronavírus, quanto para estar ao lado do seu marido no momento do parto. "As minhas denúncias são a irresponsabilidade da administração com relação às necessidades e obrigações básicas de ter um hospital estruturado, a forma como me trataram, a pressão psicológica que eu sofri e o absurdo de ser obrigada a sair da minha casa, sem ter o direito de escolher aquilo que julgo melhor para a minha filha", relata.

CONFIRA O QUE DIZ A ADMINISTRAÇÃO DE NORONHA SOBRE O CASO

O protocolo médico durante o acompanhamento do pré-natal em Fernando de Noronha inclui o devido esclarecimento às gestantes sobre a necessidade de encaminhamento ao continente a partir da 28ª semana de gestação. A gestante, que está na 34ª semana, compareceu a sete consultas realizadas na Unidade de Saúde da Família Dois Irmãos, durante as quais foi orientada acerca da importância do término do pré-natal no continente. Foi esclarecido e orientado durante as consultas sobre os riscos à sua saúde e à do feto, decorrentes de sua permanência em Noronha após a 28ª semana de gestação.

O Hospital São Lucas, única unidade hospitalar de Fernando de Noronha, não dispõe de maternidade, bem como se enquadra em unidade de assistência de média complexidade, não sendo referência no atendimento de possíveis intercorrências que venham a ocorrer durante o parto.
Mesmo recebendo todas as orientações sobre os riscos, a gestante recusou-se a deixar a ilha, tendo inclusive descumprido duas decisões judiciais determinando seu encaminhamento imediato ao Recife, sob pena de remoção compulsória e coercitiva.

É compromisso da Administração do Distrito Estadual de Fernando de Noronha garantir a completa assistência às gestantes quando do encaminhamento ao continente, oferecendo hospedagem, passagens aéreas, alimentação, assistência social para apoio psicológico e todo suporte quanto à unidade de referência onde se realizará o parto.

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