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Quiosque da Praia de Boa Viagem, no Recife, é arrombado pela nona vez na pandemia

Segundo os proprietários, a barraca já foi depredada 32 vezes nos 30 anos em que trabalham no local.

Maria Lígia Barros
Maria Lígia Barros
Publicado em 02/07/2020 às 12:57
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CORTESIA
Os prejuízos só neste período somam mais de R$ 15 mil - FOTO: CORTESIA
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atualizada às 16h27

Mais um quiosque da Avenida Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, foi alvo de arrombamento. Na madrugada desta quinta-feira (2), o estabelecimento número 31 da orla foi depredado e teve janelas quebradas. A Polícia Civil de Pernambuco instaurou inquérito para apurar o caso, sob investigação na Delegacia de Boa Viagem. Ninguém foi preso.

Segundo a proprietária Maria Izabel da Silveira, de 57 anos, esta é a nona vez que o estabelecimento sofre com os saques desde o início da pandemia do coronavírus, que forçou a parada das atividades comerciais na orla como medida de contenção da doença. 

No último sábado (29), as portas de alumínio da barraca foram levadas. Os prejuízos só neste período somam mais de R$ 15 mil. “Eu não aguento mais, não sei nem mais o que fazer. Estou com a cabeça tumultuada” , disse Izabel.

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“Eu vivo de calmante. Fui para o médico. Porque é impossível manter o controle numa situação com essa. Chegando conta, mãe doente, as filhas tendo que pagar faculdade. Não sei onde a gente vai parar, porque a gente vive dali. Eu sobrevivo do quiosque”, desabafou.

As invasões se somam à dificuldade de ter a fonte do sustento interrompida. “Está fechado lá, mas se pegar as nossas contas, estão pagas. Eu não recebi o auxílio, meu marido trabalha como MEI, não recebeu nada e agora tem essa bomba.”

Apesar de o fechamento ter aumentado o desespero dos comerciantes, a situação não é novidade. Ela e o marido mantêm o quiosque há 30 anos e já viram 32 arrombamentos.

“Já foi botado grade, lona, já foi colocado madeirite de 50 naval por cima, porque eles entravam por cima. Deixaram de entrar por cima e começaram a quebrar vidros, colocamos grade, portas de alumínio. Não sei mais o que fazer”, falou, aflita.

Izabel cobra pela obra de requalificação da orla. “Se não, não vai adiantar. O material é frágil, e eles estão podendo mais que a polícia”, reclamou. “Há mais de anos que a gente deu entrada nisso, e há uns 6 meses, antes da pandemia, já tinha sido negociado. Estava tudo encaminhado para começar antes de janeiro. Mas chegou o carnaval, a pandemia, e agora ninguém sabe como vai ser.”

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A reportagem entrou em contato com a Prefeitura do Recife para saber que medidas são contempladas para os donos de barracas em Boa Viagem. Por telefone, o secretário de Mobilidade e Controle Urbano do Recife, João Braga, informou que a prefeitura solicitou, em 2019, à Associação dos Barraqueiros de Coco do Recife (ABCR) um projeto para requalificar os quiosques a partir de um acordo com empresas. Segundo ele, não haverá recurso público devido a falta de verba. Braga informou ainda que até o final de julho o projeto será divulgado. 

Na semana passada, em entrevista ao JC, a presidente da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana (Emlurb), Marília Dantas, declarou que as intervenções na orla de Boa Viagem estão entre as prioridades no período de retomada das atividades no Recife.

“Já havia um planejamento para a avenida, com obras de drenagem, manutenção dos bancos, do calçadão. Com a pandemia, os serviços foram suspensos, já que havia uma determinação do não uso do calçadão e não queríamos continuar os serviços até para não estimular que as pessoas saíssem de casa", justificou. A gestora disse que, com o plano de retomada das atividades no Estado, a prefeitura já deu início aos trabalhos no local.

A presidente da ABCR, Josiane Miranda, reclamou do abandono. Além do estabelecimento de número 31, ela citou outros que sofreram depredação nos últimos meses. Alguns estão tão precários que não teriam condições de reabrir mesmo quando a flexibilização dos decretos estaduais de pandemia permitirem. "Ninguém tem dinheiro para nada. como é que a gente vai abrir de novo se nem uma linha de credito a gente conseguiu. Fica difícil", afirmou.

"O 48, em frente ao Parque Dona Lindu, não funciona para nada. O 18 não funciona, o 31 não funciona. O 35 quebraram tudo. A dona do 36 pegou um cara furtando, a polícia prendeu um mas o outro fugiu", elencou.

O sentimento, segundo ela, é de impotência. "O policiamento só tem funcionamento de dia. De noite não. As câmeras não funcionam", criticou.

A associação representa 60 comerciantes de Boa Viagem e 10 de Brasília Teimosa. "Nesta sexta-feira (3), a gente vai fazer um grande protesto às 15h com todo mundo em frente ao Acaiaca", convocou.

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