POLÊMICA

Secretário de Saúde de cidade no Sertão é alvo de críticas após receber vacina contra a covid-19

São José do Egito recebeu apenas 540 doses do imunizante para distribuí-las entre o grupo prioritário da primeira etapa de vacinação. Prefeitura argumenta que o secretário atua na linha de frente. MPPE investiga o caso

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 20/01/2021 às 9:03
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Secretário de Saúde Paulo Jucá, de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco foi dos que furoua fila da vacinação. - FOTO: REPRODUÇÃO
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Atualizada às 19h09

O secretário de Saúde Paulo Jucá, de São José do Egito, no Sertão de Pernambuco, causou polêmica nas redes sociais após ter recebido a vacina contra a covid-19 nessa terça-feira (19), dia em que as 270 mil doses recebidas pelo governo do estado foram distribuídas aos municípios. O vice-prefeito da cidade, Eclériston Ramos, também recebeu a proteção.

Pela ainda baixa quantidade de vacinas em todo o Brasil, o grupo com prioridade para imunização foi dividido em subgrupos. Assim, os alvos deste primeiro lote são profissionais de saúde que trabalhem diretamente com pacientes de coronavírus, idosos e pessoas com deficiência que morem em instituições de longa permanência e indígenas que residem em aldeias.

Paulo Jucá recebeu o imunizante, e o momento foi registrado em uma foto. Apesar disso, ele é odontólogo e não pertence a nenhum grupo de risco. A reportagem do JC solicitou uma entrevista com o secretário, mas foi informada de que ele se pronunciaria somente através de nota. Nesta quarta-feira (20), a gestão afirmou que ele "esteve todo tempo na linha de frente de combate à covid, inclusive já foi infectado pelo vírus". 

Quando questionada qual seria a atuação de um odontólogo na "linha de frente", a prefeitura de São José do Egito explicou que "todos os profissionais da saúde foram mobilizados para atuar na linha de frente no combate a pandemia, seja no atendimento no hospital ou nas unidades de saúde, como também em barreiras sanitárias e trabalhos de orientação nas ruas, feiras e locais de grande circulação de pessoas".

A gestão afirma que o caso do vice-prefeito Eclériston Ramos (PSB) seria o mesmo, já que ele é médico "com atuação em São José e outras cidades da região".

A prefeitura garantiu que "mais de 500 servidores da saúde de São José do Egito estão atuando diretamente no combate a pandemia" e que foram garantidas doses para "todos os outros profissionais da linha de frente, bem como as idosos institucionalizados".

No entanto, se mais de 500 servidores atuam diretamente contra a covid-19 e todos foram vacinados, a conta não fecha. Isto porque cada pessoa precisa receber duas doses da vacina do Instituto Butantan, e a cidade dispôs de apenas 540 doses do imunizante, neste primeiro momento. Então, poderia distribuí-las para apenas 270 dos 33 mil habitantes. A gestão, inclusive, informou que guarda metade das doses para a reaplicação.

No mais, a prefeitura defende que a decisão de imunização do Secretário não foi decisão unilateral. "Foi consenso e escolha dos próprios profissionais de saúde pelo risco de reinfecção e para reforçar a importância da vacinação, fazendo dele como nome da linha de frente exemplo para os demais profissionais e cidadãos que necessitam da vacina, no combate ao negacionismo de setores da sociedade."

Fiscalização

Por nota, a Secretaria Estadual de Saúde (SES-PE) informou que "caso a cidade não tenha UTI ou enfermaria Covid, devem ser priorizados os serviços como emergência e as gradações - Atenção Primária, agentes de saúde, por exemplo, sempre optando por vacinar primeiro os com maior risco de exposição". A SES garantiu que "os municípios já receberam a primeira e a segunda dose para realizar suas ações nessa primeira fase", e disse ter acionado o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) para averiguar possíveis irregularidades no processo de vacinação". 

Já o MPPE afirmou, por meio de nota, que a 1ª Promotoria de Justiça de São José do Egito discutiu o assunto com a prefeitura nesta quarta. Segundo o órgão, foram alinhados alguns encaminhamentos, entre eles o de que a Secretaria de Saúde irá seguir o plano nacional de imunização e irá garantir a vacina aos grupos prioritários na ordem estabelecida. Leia a nota:

"Na reunião de hoje, 20/01/2021, entre a 1ª Promotoria de Justiça de São José do Egito e os Secretários de Saúde e Educação foram alinhados os seguintes encaminhamentos:

1) a Secretaria de Saúde seguirá o plano nacional de imunização e garantirá a vacina aos grupos prioritários na ordem estabelecida;
2) haverá intensificação das ações de fiscalização pelas equipes de vigilância à saúde;
3) diante da insuficiência de vacinas para imunização em massa estão sendo desenvolvidas novas estratégias de comunicação com o fim de buscar amplificar a adesão social às medidas de prevenção, sobretudo o distanciamento social, as rotinas de higienização e o uso de máscaras;
4) a viabilidade de retorno das aulas com segurança na rede municipal está sendo criteriosamente analisada;

A 1ª Promotoria de Justiça de São José do Egito, para cada município da Comarca (São José do Egito e Santa Terezinha), instaurou um procedimento administrativo para acompanhamento das ações da área da saúde ao longo da pandemia. A Promotorai de São José do Egito seguirá em diálogo constante com os gestores municipais para avaliar a efetividade das medidas adotadas."

Outros flagras

Um caso semelhante aconteceu na cidade de Jupi, no Agreste de Pernambuco. Circula na internet um vídeo que mostra um fotógrafo, que não integra o grupo prioritário de imunização, sendo vacinado contra o novo coronavírus. A Secretaria Estadual de Saúde afirmou que irá investigar o caso, junto à Secretaria de Defesa Social e Ministério Público, para que os responsáveis sejam punidos.

No Recife, uma arquiteta, que trabalha no Hospital de Referência à Covid-19 Unidade Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, também foi vacinada nessa terça (19). O caso tem circulado bastante nos grupos de WhatsApp e em rede social, onde ela postou foto com o cartão de vacina e, após polêmicas, apagou a imagem. Chama a atenção o fato de ela não ser profissional de saúde que atende pacientes com sintomas da covid-19 nas enfermarias e leitos de terapia intensiva (UTI).

 

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