INFRAESTRUTURA

A transposição e as suas várias inaugurações

A água do Rio São Francisco chegou ao primeiro reservatório do Ceará na última sexta-feira com a presença do presidente Jair Bolsonaro. O projeto tem um cunho político eleitoral forte

Angela Fenanda Belfort
Angela Fenanda Belfort
Publicado em 26/06/2020 às 22:26
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Foto: Divulgação/Ministério da Integração Nacional
A transposição do São Francisco pode beneficiar cerca de 12 milhões de pessoas, quando suas obras complementares estiverem concluídas - FOTO: Foto: Divulgação/Ministério da Integração Nacional
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Depois de 13 anos em obras, o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido) inaugurou a chegada da água da transposição do Rio São Francisco ao reservatório de Jati, o primeiro do Ceará. O emprendimento é a maior obra hídrica realizada no Nordeste desde a década de 70 do século passado. “Estou feliz de trazer água para quem precisa. É uma novela que está chegando ao fim”, disse Jair Bolsonaro, em entrevista, depois de acionar o botão que encheria o açude. Quer dizer, a ‘novela’ ainda não terminou e incluiu também pequenas inaugurações dos três últimos presidentes do País: Michel Temer (MDB), Dilma Rousseff (PT) e Lula (PT). E assim, como a de hoje, nehuma delas celebrou o término da obra. Ainda faltam 2,5%% a serem concluídos no Eixo Norte, um dos dois canais do empreendimento, que capta a água na margem do São Francisco, em Pernambuco, e vai levá-la também para Paraíba e o Rio Grande do Norte, além dos Estados já citados.

>> Bolsonaro visita Ceará e aciona água de transposição do Rio São Francisco

“Todos querem ser pai, mãe, ou padrinho da Transposição do São Francisco. É uma obra estruturadora que tem um apelo político de cunho eleitoral muito forte pois leva água pra uma região e municípios que têm dificuldade de obtê-la”, resume o professor associado do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Ernani Carvalho. E complementa: “a transposição teve um ecumenismo de inaugurações para todos os gostos, partidos e ideologias”.

O lado bom, segundo Ernani, é que o Brasil está ultrapassando aquela tradição de abandonar uma obra porque foi iniciada por um grupo político que não é o meu. “Isso é um avanço no País. E, mesmo com as crises econômicas que ocorreram nos últimos cinco anos, todos os presidentes fizeram questão de dizer que estavam liberando recursos para a transposição”, comenta o professor.

A secretaria de Recursos Hídricos de Pernambuco, Fernandha Batista, compartilha da mesma opinião que o cientista político. “É uma obra que tem muitos pais e mães. Mas a maior luta é dar continuidade aos projetos complementares. O acesso à água é um dos principais elementos de redução da desigualdade. E o Agreste virou Sertão”, comenta. Grande parte da década passada foi de uma estiagem intensa em grande parte do Nordeste, iniciada em 2011/2012 e que só terminou depois de 2017. Isso também mostra o quanto esse projeto é necessário, pois ao longo dos dois canais foram construídos pelo menos 27 reservatórios de água.

De inauguração em inauguração, a transposição dá mais um passinho. A da última sexta-feira, cada estação do trecho inaugurado tinha uma bomba, o que deixava essa parte do canal com a capacidade de transportar pouco mais de 10 % da sua capacidade. O Eixo Norte tem 260 km de extensão, começa em Cabrobó, em Pernambuco, e termina no Sul do Ceará, e tem uma ramificação que chega ao Rio Grande do Norte, que ainda será construída. O atual governo também desembolsou cerca de R$ 509,3 milhões para recuperar trechos do canal deteriorados pelo tempo. Para o leitor ter uma ideia, o Eixo Norte estava com 96% de execução das suas obras em agosto de 2018. E este percentual foi mais ou menos o mesmo de 2016 até 2018 por vários motivos, incluindo a crise econômica, construtoras que abandonaram as obras por causa da Lava Jato, pedidos de repactuação de preços, entre outros.

O outro canal da transposição é o Eixo Leste com 217 quilômetros de extensão, captando a água na cidade de Floresta, em Pernambuco, e indo até Monteiro, na Paraíba. Foi inaugurado oficialmente no dia 10 de março de 2017 pelo então presidente Michel Temer (MDB) sob uma grande pressão política pois a região de Campina Grande estava quase entrando em colapso devido a uma grande estiagem que assolou a região. Também na época, contou com um certo grau de improvisação com quatro motobombas emprestadas pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que na época, tinha pretensão de disputar a presidência da República em 2018. Nove dias depois, os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff fizeram um grande ato de inauguração do Eixo Leste próximo a cidade de Monteiro, na Paraíba.

A transposição foi iniciada em 2007 pelo então presidente Lula e a expectativa era de que fosse concluída em quatro anos. Na última quinta-feira, o ex-presidente Lula (PT) postou nas suas redes sociais: “O povo sabe quem lutou para tornar realidade a transposição do São Francisco”, lembrando a paternidade do projeto.

ÁGUA NA TORNEIRA

Até agora, foram gastos cerca de R$ 10,8 bilhões pelo governo federal na transposição. “As águas do São Francisco chegarem ao Ceara é um marco. No entanto, só andamos até agora uns 70% do caminho. Faltam 30% que são as obras complementares que vão fazer a água chegar na torneira das pessoas. O Ramal do Agreste está num ritmo bom. Mas os recursos da Adutora do Agreste chegam a conta gotas. O governo federal dá prioridade a obra que é dele”, explica o professor da UFPE e especialista em Recursos Hídricos, José Almir Cirilo.

Dos dois ramais da transposição, o Leste é o mais importante para o abastecimento do Estado. A partir dele vão sair o Ramal do Agreste e a Adutora do Agreste. O primeiro é um canal de cerca de 70 km que começa em Sertânia e vai até Arcoverde, foi iniciado em abril de 2018, está sendo implantado pelo governo federal e está com 60% de realização das obras. Este ano, recebeu R$ 163,6 milhões da União.

Já a primeira etapa da Adutora do Agreste é o maior projeto hídrico de Pernambuco com cerca de 772 km de extensão, que se arrasta desde 2013, e está sendo construída pelo governo do Estado com recursos repassados pela União. Desse total, foram implantados 580 km. Faltam cerca de R$ 240 milhões para a adutora ser concluída. De janeiro até o começo deste mês, a União tinha repassado R$ 10,6 milhões para a Adutora do Agreste. Na visita que o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, fez a Pernambuco no começo da semana passada, prometeu repassar mais R$ 25 milhões para a Adutora do Agreste e R$ 43 milhões para o Ramal.

“Caso não cheguem mais R$ 44 milhões, a Adutora do Agreste será paralisada em setembro”, explica Fernandha Batista. Se a primeira etapa da Adutora do Agreste fosse concluída, 23 municípios e pernambucanos poderiam receber a água do São Francisco vinda do Eixo Leste. Este canal beneficia 46 cidades, das quais só sete estão em Pernambuco e o restante na Paraíba. Ou seja, depois de 13 anos do início da transposição, as principais obras complementares em Pernambujco continuam inacabadas.

Também não está definida como será a gestão da transposição. O custo anual de manutenção do empreendimento é de cerca de R$ 320 milhões, dos quais R$ 190 milhões são gastos na conta de energia. O governo federal chegou a anunciar que implantaria um projeto de geração solar por um empreendedor privado que usaria uma parte dessa energia no projeto e comercializaria o restante. Não saiu do papel. E é bom lembrar que se o custo do projeto continuar alto vai ser pago na conta de água dos consumidores de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Cerca de 12 milhões de pessoas podem ser beneficiadas pela transposição, quando o projeto e todas as suas complementares estiverem em operação.

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