Agora comentarista da TV, chef Carmem Virgínia é vítima de comentário racista

Além de vários elogios, pernambucana é também atacada nas redes

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Além de vários elogios, pernambucana é também atacada nas redes - FOTO: Reprodução GNT

Expansiva, bem-humorada, com um perfil amplamente diferente da maioria das apresentadoras de TV, inclusive no segmento da gastronomia midiática, Dona Carmem Virgínia dos Santos, recifense, 41 anos, neta de merendeira e mãe de santo orgulhosa, é um dos trunfos no sucesso do reality show Cozinheiros em Ação, do canal fechado GNT. Mas seu humor e performance provocam também estranhamento e, não raro, a ira da comunidade que circula de página e página pessoais destilando críticas raivosas. Não por acaso, uma comunidade chamada pela sociologia das relações virtuais de hatters - ou, do inglês, odiadores. Ontem, Carmem pôde se inscrever na lista dos atacados.

Com um perfil falso, uma usuária da rede de relacionamentos Instagram usou o perfil físico e a religiosidade de Dona Carmem como pontos para atacar sua participação no programa. “Não gosto daquela jurada falastrona, que anda com os panos de macumba na cabeça”, postou a dona do perfil @jeizajeova no Instagram. De acordo com Carmem, a pessoa lhe enviou várias mensagens privadas e chegou a ligar para seu restaurante para destratá-la.

“Essa pessoa tem todo o direito de não gostar de mim, dentro ou fora do programa, mas não de me atacar nesse nível. Ela me chamou de cozinheira do cão, de gorda. Falou que não gostava da forma como eu ‘humilhava’ os participantes, que eu era uma nordestina safada, que eu era uma gorda nojenta, que não sabe de que ponto me tiraram. Não foi apenas uma antipatia, ela não gostou realmente de eu estar ali”, conta Carmem, que estuda ainda se vai tomar as medidas judiciais cabíveis contra o ataque.

“Eu sou mesmo preta, gorda, mãe de santo. Eu tenho essas três coisas que esse povo acha que é defeito. Pra mim, as coisas são mais difíceis porque eu vou ter, sempre, que provar minha competência em dobro”, diz Carmem, que aprendeu a cozinhar, menina, tanto em casa como no terreiro de candomblé frequentado pela família. “Muita gente vem ao meu restaurante e, emocionada com minha comida, diz que perdeu qualquer preconceito que pudesse ter. Mas eu não faço comida de santo, apesar de achar sempre que cozinhar é um gesto religioso de amor. No restaurante, eu faço comida para a mesa, não para o santo”, ela diz.

A pernambucana está à vontade nesta nova experiência, embora não estive nos seus planos quando se iniciou nos quitutes. “Nunca quis, aliás, ser outra coisa além de cozinheira. Quem está ali é uma cozinheira, não a melhor do Brasil, apenas alguém boa no que faz com amor”, ela diz. “E é apenas a minha opinião, que preciso externar. Criticar é tão difícil quanto ser criticada”, diz Dona Carmem. Como jurada, ela faz fama pela maneira como externa suas críticas, a exemplo da feita pela demora de um participante em preparar um purê. “Meu filho, uma demora dessa pra fazer um purê! Nem se fosse o purê que a mãe de Michael Jackson fez pra ele cantar daquele jeito”, disse, provocando gargalhadas.

Amada por gente como o colega de bancada Thiago Castanho, o chef-galã midiático paraense que simulou uma tatuagem nas costas com o rosto de Dona Carmem para apoiar a apresentadora depois de algumas críticas por suas tiradas bem-humoradas e sinceras, Dona Carmem acredita que ainda incomoda muita gente por não corresponder naquilo que o sociólogo francês Pierre Bourdieu chama de ‘expectativa de performatividade social”.

EXPECTATIVA

“Muita gente se incomoda mesmo com o fato de eu, com meu perfil e minha origem, estar ali num lugar quase nunca ocupado com gente como eu. Uma loira, branquinha, magra e do cabelo liso não costuma passar por isso”, ela diz. Dona Carmem, contudo, segue agradando mais que irritando. Além de começar a planejar alguns novos produtos na mídia, ainda secretos, tem seu carisma cortejado por colegas do mesmo canal. Vai aparecer, por exemplo, em participações especiais nos programas Que Seja Doce, de Felipe Bronze, e Fale Conosco, de Júlia Rabelo. Ela, inclusive, não é a única a ser alvo de comentários racistas. A atriz Thaís Araújo, amiga pessoal de Carmen Virgínia, por exemplo, já foi vítima algumas vezes de comentários corrosivos nesse sentido.

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