CULTURA PUNK

Neilton Carvalho, da Devotos, é arquiteto do som do Alto José do Pinho

Músico e artista plástico, Neilton aprendeu a montar seu instrumento com sucata e inventar novas técnicas artísticas

GG ALBUQUERQUE
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GG ALBUQUERQUE
Publicado em 07/03/2017 às 10:36
Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
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“A cultura do Alto José do Pinho é a cultura da procura. Se não tem, faz”, sintetiza Neilton Carvalho, ele mesmo seu grande representante. Aos 45 anos, é conhecido principalmente como guitarrista da banda Devotos, mas também é artista plástico e um dos fundadores do Altovolts, grupo de pesquisa de “tecnologias mortas” que constrói artesanalmente amplificadores valvulados, processadores de efeitos e caixas acústicas – usados por Siba, Dado Villa-Lobos, Juninho (do Ratos de Porão) e outros músicos célebres.

Todas as atividades de Neilton sempre levam adiante a máxima ideologia punk do Faça Você Mesmo: construindo os próprios instrumentos, mexendo em sistemas eletrônicos, questionando métodos e formas tradicionais, inventando novas técnicas. Quando perguntado sobre o início de tudo, Neilton viaja até a infância. “Eu e meu irmão queríamos fazer as coisas e nunca tivemos grana. Queria o carro do Batman, mas era caro pra cacete. Como qualquer criança, a gente queria o brinquedo de última geração. E o brinquedo de última geração da gente era feito com latinha de doce, uns carrinhos de bombeiro, da polícia, tudo feito na feira de Casa Amarela. A gente pegava um carrinho pronto da feira e ia remontando, incrementava, botava uma luzinha”, relembra. 

Nessa mesma época, inspirado pelos discos que seu pai trazia do centro do Recife (incluindo uma coletânea de Elvis, a primeira vez que ele ouviu o som de uma guitarra), formou uma bandinha com o irmão e a irmã. “Acho que eu tinha uns oito anos. A gente fazia uns tamborzinhos e tentamos fazer um violão, mas não deu certo, lógico (risos). Fizemos também uns brinquedos com lata... A gente ficava lamentando que não tinha dinheiro para comprar os brinquedos da Estrela e da Grow, mas depois foi caindo a ficha de que era mais legal fazer o próprio brinquedo. Não tinha nem noção que estava aprendendo, era realmente necessidade de querer brincar e não ter brinquedo”.

Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
Neilton Carvalho em sua oficina - Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
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Neilton Carvalho em sua oficina - Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
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Feiticeira, a guitarra frankenstein de Neilton com autografo de Max Cavaleira à canivete - Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
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Feiticeira, a guitarra frankenstein de Neilton com autografo de Max Cavaleira à canivete - Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
Amplficador valvulado da Altovolts, construído artesanalmente - Foto: Ashlley Melo/ JC Imagem
Reprodução
Arte criada para a capa de 'Sacrifício Pela Fé', disco do guitarrista pernambucano Fred Andrade - Reprodução

A década de 1980 foi o apogeu do rock no País e Neilton estava envolto por tudo isso. “Rolava Television, Smiths, The Cure na rádio, na hora do recreio. Foi o ponto principal que me fez gostar de ir pra escola”, conta, entusiasmado. Daí veio a curiosidade e o fascínio pela guitarra elétrica, mesmo sem a mínima ideia de como tocar. “Eu não tinha a mínima noção de como funcionava uma guitarra, mas queria saber. Eu vendia pulseirinha e fui juntando uma grana, literalmente embaixo do colchão. Vendia uma camiseta, uma pulseira e botava lá de baixo”. 

Naquela época, ele e um amigo aproveitavam o recreio para pular o muro da escola e ir ao Bompreço no centro de Casa Amarela. “Tinha uma seção de instrumentos musicais e a gente ficava lá namorando a bateria, o baixo, guitarra. E eu vi que tinha uma guitarra que o valor não era tão alto. Era uma Sonic da Giannini, a pior guitarra da época. Mas não entendia disso, não sabia o que era bom e o que era ruim, só sabia que o dinheiro dava. Anotei o preço, voltei pra aula e quando cheguei em casa contei o dinheiro do colchão. Já tinha próximo da metade do valor”, ele conta. 

“Falei com meu professor de Matemática, que era o mais louco que tinha lá, pedindo pra ele ser meu fiador”, prossegue. “Aí ele disse que ia e no dia ele não foi. Pense numa morgação. Eu contando o dinheiro, a guitarra olhando pra mim, eu olhando pra ela… Voltei pra casa. Quando voltei, meu pai estava tomando uma numas barraquinhas que tinha lá perto. Ele me viu de cabeça baixa e perguntou o que era. Aí eu disse: ‘é que queria comprar uma guitarra’. Ele olhou para mim e perguntou: ‘E tu sabe tocar isso?’. Eu falei: ‘Sei!’. Mas sabia p**** nenhuma (risos)”. 

Naquele dia, o seu pai completou a quantia que faltava. Em 1987, aos 15 anos, Neilton conseguiu sua primeira guitarra. “Cheguei em casa e a primeira coisa que eu fiz foi desmontar a guitarra”, diz. “A gente não tinha porta no quarto, era uma cortina. Meu pai abriu a cortina e viu ela desmontada: ‘Tu é louco?! O que é que tu fez?!’. Eu falei: ‘Calma, vou remontar’. Lógico que quando eu remontei saiu faltando coisa, mas funcionava”, ele ri.

Desde então, ele seguiu aprofundando os estudos. Aos 17 anos, trabalhou em uma eletrônica em Nova Descoberta e foi aprendendo mais sobre os sistemas de funcionamento. 

“Na guitarra eu já tinha trocado captador, trocado braço, estava uma tosqueira. E foi quando teve a necessidade de montar uma guitarra mesmo, baseado nas coisas que eu via em revista. Eu ia em sebo e pegava essas Guitar Player, Guitar World. Mesmo sem saber ler inglês, eu ia vendo as figuras, chegava ate a comprar catálogo pra ver preço. Essas revista foram uma luz pra mim”, conta. Tendo como base essas publicações e as experiências com sucata, ele então construiu sua primeira guitarra. Mas somente anos depois o seu instrumento ficou conhecido por ser feita de sucata.

“Em 1991 o Faith no More veio fazer uma turnê no Brasil e vieram tocar no Geraldão. A Trip estava acompanhando a turnê dos caras e Paulo André (produtor e criador do Abril Pro Rock) foi meio que anfitrião e falou: ‘Olha, tem uma banda punk no morro, no Recife’. Eles foram bater no lugar em que a gente ensaiava, que era tudo feito em casa, o som, a bateria, a minha guitarra, amplificador, tudo plugado no teto. Eles sentaram lá no estúdio bem pequeno e viram a guitarra. Terminou o ensaio, já depois da entrevista sobre punk, ele falou: ‘Guitarra bonita, mas não tem marca. Tu arrancou?’. Respondi: ‘Não, não tem marca porque eu que montei’. E ele: ‘Montasse como?’. Aí eu falei por alto que trabalhava em eletrônica e tal. Quando saiu a notinha com uma foto grande da gente lá na Trip, foi: “A banda punk do morro de Recife que constrói seus instrumentos”. 

A repercussão foi gigantesca. “Foi bom e foi ruim, porque terminou com o Devotos conhecido nacionalmente por conta da história e foi ruim porque todo mundo queria ver a guitarra. Os caras não estavam muito preocupados com o som. Eu estava me acostumando, mas até certo momento eu disse: ‘Que negocio chato’”.

"Quando a gente assinou com a BMG (gravadora que lançou o primeiro álbum da Devotos, há 20 anos), eu fui obrigado a levar a guitarra e eu não levei, fui com uma outra que eu tinha montado já como uma provocação. Do tipo: ‘Olha, a gente tá lançando um disco, não tá fazendo nada bizarro’. Porque a guitarra não era bizarra. A galera lia e já imaginava, por exemplo, que eu taria fazendo uma guitarra meio Devo, cheio de coisa, ou então tipo a de Eddie Van Halen, que era detonada. E achando que eu sabia qual era a de Eddie Van Hallen. o pessoal achava que a gente tinha informação e a gente não tinha. Não havia como saber da história de Van Hallen ou como saber do termo Do It Yourself. A gente sabia lá o que era isso, sabia nem falar inglês", ele diz.

Ao assinar contrato com a BMG, Neilton Carvalho conseguiu comprar guitarras Gibson e Fender, amplificador da Marshall. “Como qualquer músico que tá começando, eu sempre achava que a marca é que ia te endossar. Algumas coisas você coloca realmente e se impressiona, mas outras coisas são uma merda. De todas as guitarras de marca que comprei, a única que eu não mexi foi a Gibson”, diz. Hoje a guitarra que usa na Devotos o acompanha há 27 anos. Batizada de Feiticeira, é um verdadeiro Frankenstein. O corpo e o braço são de modelos que vinham “vazios”, só a estrutura para ser montada. Pedaços de diferentes guitarras, parafusos toscos, um pequeno boneco de Topo Gigio e até um autógrafo de Max Cavaleira com canivete.

“O fato da gente ser desprendido de conceitos e padrões cria possibilidades maiores para mim de experimentar. E se sair bom, a gente responde, se sair ruim também. Não tem porque a gente não experimentar isso e cada disco poder sair um som diferente. Podemos dizer que o punk nos permite isso”, conclui.

ARTES PLÁSTICAS TÊM LUGAR ESPECIAL NA CARREIRA

A carreira de Neilton paralela ao Devotos e Altovolts é como artista plástico. Ele realizou diversas exposições e fez capas para discos de diferentes artistas, como Fred Andrade (Sacrifício Pela Fé), The Baggios (Brutown) e Academia da Berlinda (Nada Sem Ela).

“Eu lembro na escola soprando tinta guache com canudo e fazendo mistura no papel. Daí pra cá eu só lembro de coisas pontuais. O papel em branco e a primeira vez que eu sujei ele, os quadrinhos que meu pai trazia de Turma da Mônica, Tio Patinhas... Até depois de velho ter acesso aos quadrinhos de arte”, diz, citando Frank Miller como referência.

“Eu lembro, profissionalmente, o primeiro quadro vendido. Foi com o primeiro disco do devotos, em 1996, ainda na concepção da capa. Eu não assinei o projeto gráfico, mas fiz uma porrada de aquarela e mandava para o Rio de Janeiro que o disco estava sendo feito lá. O pessoal não sabia o que fazer com tanta aquarela e a galera da BMG ficava: ‘Não vende, não?’. Aí acabou que vendi para os diretores da BMG, Dado Villa-Lobos comprou uma, o empresário da Legião comprou… Eu não sabia que aquilo valia alguma coisa. Eu nunca imaginei que eu ia viver de artes plásticas. Depois foi quando eu me entusiasmei e fui pintando a torto e a direito. Já usei aquarela, óleo, carvão mas minha força é mais na tinta acrílica”, completa.

Ele fez um curso de designer gráfico em 1987, mas desenvolveu sua técnica de fato com intuição e autodidatismo. “Tudo que eu leio eu pergunto o porquê. Por que aquarela só pode ser com tinta aquarela? Eu diluía a acrílica e fazia parecendo aquarela, era muito mais barato”.

Na Devotos, a arte de Neilton também foi aplicada no merchandising da banda. “Eu pintava as camisetas, uma por uma, a mão. Não tinha silk screen, era caro. Fazia uns negócios coloridos, a mão. Eu queria sair na frente, não fazia qualquer coisa. As caixinhas da fita demo da Devotos também: eu botava um pano com a logo da Devotos pintada a mão”. 

Quanto às capas, ele diz que é fundamental ter conexão com quem a encomenda. “Eu não faço para qualquer um, eu tenho que ter uma ligação. Sei lá, Gaby Amarantos. Não gosto do som dela, mas se ela pedir, a gente conversar e eu vir que tem uma coisa que crie um elo, então beleza. Mas liga uma agência de fulaninho que quer a capa para sicraninho. Como é que eu vou fazer? Precisa de uma identificação”.

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