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Racionais celebram 30 anos de história: 'Gênio nada, só falamos o óbvio'

Banda foi principal atração do festival Red Bull Music Academy, onde teve uma exposição contando sua história, debate aberto e show

JC Online
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Publicado em 11/06/2017 às 11:50
Foto: Red Bull Content Pool/Divulgação
Banda foi principal atração do festival Red Bull Music Academy, onde teve uma exposição contando sua história, debate aberto e show - FOTO: Foto: Red Bull Content Pool/Divulgação
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No dia 7 de setembro de 1991, Paulo Soares Pereira, aos 21 anos, pulava o muro do Ginásio do Ibirapuera e driblava o segurança para entrar no show do Public Enemy. Mais cedo naquele dia, ele havia ido ao hotel em que a banda americana estava hospedada e conversou com o vocalista Chuck D, que o chamou a aparecer no ginásio. Acabou que Paulo e seu pequeno grupo de rap subiram ao palco e fizeram o show de abertura daquela apresentação histórica dos americanos no Brasil.

Aos 47 anos, Paulo não é mais um mero rapper e definitivamente não precisa invadir palcos para tocar. Ele é Mano Brown, e ao lado dos amigos Edi Rock, Ice Blue e o DJ KL Jay comanda um dos maiores fenômenos da cultura popular brasileira nos últimos anos: o Racionais MCs, que completa 30 anos de carreira este ano e outros 20 do clássico álbum Sobrevivendo no Inferno. A banda foi o maior nome da primeira edição latinoamericana do festival Red Bull Music Academy, em São Paulo, onde realizou uma exposição contado sua história, participou de um debate aberto e, por fim, apresentou o show 3 Décadas de História.

Definido por Edi Rock como “a voz dos que nunca tiveram voz”, o Racionais trouxe todo o legado da música e identidade negra ao fim do século 20 e início do 21. “Sucesso, dinheiro, inveja, luxo, fama, amor, ódio, vingança, velhos conhecidos da humanidade são agora atualizados no contexto da herança escravocata, da expansão da cultura de consumo, e do impacto das novas tecnologias”, como escreve Fernando Velázques, curador e diretor artístico da Red Bull no folheto da mostra. Durante a conversa mediada pelo jornalista André Camarante, porém, Brown acrescentou: “Pra gente é mais do que natural falar sobre isso [raça negra], não é uma militância. Isso aí vai sair, vai fluir. Quando a gente tinha 18 anos, não havia o grupo e a gente já falava disso. Não tinha interesse econômico. A gente só tinha sonhos”.

Até a gravação do primeiro LP (Holocausto Urbano, em 1990) a banda ficou anos “chutando lata”. E mesmo depois, os rappers passaram por períodos difíceis, até meses aparecer nenhum show. Brown lembrou uma imagem forte: quando foi até a casa de Ice Blue, estavam “quinze neguinho desempregado, sentado na calçada, com as canela cinzenta. É nessa hora que a mente vira e mano vai pro caminho errado”. A banda só passou a “contar dinheiro” (e distribuir dinheiro entre amigos, fazer fotos ostentando grana, armas, tênis de marca) a partir do sucesso de Homem na Estrada (1993) do álbum Sobrevivendo no Inferno (1997), que incluia faixas como Diário de Um Detento e Capítulo 4, Versículo 3. Foi o momento em que o Racionais deixou de ser o som dos bailes da quebrada e atingiu todas as classes sociais, com clipe na MTV e tudo mais.

“O Brasil tem épocas de cegueira. O brasileiro se aliena e nessa fase estava cego, surdo e mudo. Tinha coisa muito óbvia que ninguém via”, refletiu Brown sobre o alcance da banda. “Eles não encontravam com os moleques no farol. Eles não tinham visto assalto, não tinham visto as favelas multiplicando na cidade. Não vêem o cara que trabalha na casa deles, tirando a sujeira pra eles. Como é que você ignora uma pessoa que tá na sala da sua casa, cheia de problema, triste, cabeça baixa? Você não percebe? Você não tá vendo uma pá de gente aí, os bares lotados, criança debaixo de ponte, puta rebelião morrendo gente pra caralho. Vocês tão onde, parceiros? Na França? Aí quando o Racionais veio falando o óbvio, os cara: ‘nossa, os cara é foda'. É foda o quê? Sou semianalfabeto, parceiro. País racista do caralho, só patifaria. Nós falamos o óbvio. Gênio nada, malandro, eu saí do primeiro colegial porque eu não aprendia. Fui me cansando, injuriando. Eu peguei raiva. Dos alunos, do professor, da escola.”

Apesar de toda projeção que Sobrevivendo no Inferno proporcionou, Brown e KL Jay discordam de que o disco seja seu principal trabalho. O rapper lembrou de momentos de tensão que as imagens e canções do álbum trouxeram, incluindo brigas e mortes em shows e até ônibus da banda baleado, como foi o caso de um show em Porto Alegre, em 1994. Foi quando o rapper tomou a decisão estratégica de parar.

“Estávamos no auge do Sobrevivendo quando o Brown falou vamo parar. Nós não tínhamos nem preparado dinheiro para isso”, conta Ice Blue. “O Racionais saiu de cena durante dois anos. Eu tava com 13 meses de aluguel atrasado. Foi uma opção pra gente reaprender a fazer rap. Coloca uns caras com uma Bíblia desse tamanho; um cara com cara de que vai matar nós, tava vindo uns psicão. Virei um personagem que não era eu. Eu falei: não tô curtindo essa batida arrastada, não tá redondo. O bagulho tá pedindo swing. ‘Você tá doido, vamo viver de quê?’ Se vira. Foi dois anos pra limpar tudo”, narra Brown.
Após o período de purificação trancada nas quebradas, a banda ressurgiu com Nada Como um Dia Após o Outro Dia (2002). “O Sobrevivendo é considerado um clássico, mas o Nada Como Um Dia é o disco mais real, mais musical, mais leve, mais rua. Sobrevivendo é um clássico, está nessa posição. Mas não é “o” disco. O Nada Como um Dia está até hoje nos carros, se não tocar no show os cara fica puto”, comentou KL Jay. Quatro anos depois, o Racionais recebeu a condecoração de Ordem ao Mérito Cultural, do Ministério da Cultura.

Além da retrospectiva, todos os integrantes do Racionais estão com o olhar no presente. Cores e Valores (2014) causou controvérsias ao trazer as batidas eletrônicas do trap. Edi Rock e Mano Brown lançaram álbuns solo como cantores, Ice Blue prepara o seu e KL Jay também solta um disco em agosto. São quatro homens negros que foram mais que ícones. Como diz Eliane Dias, produtora da banda e esposa de Mano Brown, “o Racionais é domínio público”.

Mas eles abdicam o confortável trono e sempre olham para a frente. No palco, intercalam Cores e Valores, Nada Como um Dia e Sobrevivendo no Inferno e o fascínio do público continua o mesmo. Trinta anos depois, o Racionais foi a diversos lugares, mas mateve as origens. Como lembrou Ice Blue: “Se a gente não invadisse o show do Public Enemy, não teria chegado lá. Por isso, muitas vezes quando eu via os moleques invadindo show do Racionais eu falava que era a única forma de eles chegarem. E eu questionava: ao mesmo tempo que virava baderna, fui um daqueles moleques também.”

VEJA DEBATE COM O RACIONAIS MCs:

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