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Biografia resgata legado de Victor Moreira para a moda e o teatro

Escrita por Marcondes Lima, obra mostra trajetória fascinante do pernambucano

Márcio Bastos
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Márcio Bastos
Publicado em 28/02/2018 às 14:15
Ashlley Melo/JC Imagem
Escrita por Marcondes Lima, obra mostra trajetória fascinante do pernambucano - FOTO: Ashlley Melo/JC Imagem
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Entre esculturas de santos, croquis, lápis, pincéis, fotos, quadros e cadernos espalhados (mas quase meticulosamente organizados) é possível começar a montar o quebra-cabeça dos elementos que inspiram Victor Moreira. Mas, engana-se quem acredita que pode revelar o universo deste criador pernambucano com um rápido olhar. Fervilhante, sua criatividade faz com que, entre o concreto e o abstrato, mantenha-se sempre em estado de potência, se reinventando e construindo a partir dos sonhos. Prestes a completar 84 anos, esse fascinante artista ganha, enfim, um trabalho que ajuda a preservar seu importante legado e a penetrar em seu fascinante universo criativo. Escrito por Marcondes Lima, o livro A Arte de Victor Moreira é lançado hoje, às 19h, no Museu do Estado (Cepe Editora, 168 páginas), com apoio do Funcultura.

Designer de moda, figurinista, cenógrafo teatral, correspondente de moda, ilustrador, sonhador. Foram muitas as funções exercidas por Victor Moreira ao longo de sua carreira. Cinéfilo (seu avô era proprietário do Cine Olinda), encontrou no glamour hollywoodiano que futuramente viria a marcar sua produção. Seu bom gosto e fascínio pelo belo, no entanto, nunca vieram acompanhados de elitismo e suas produções foram pensadas a partir da valorização de materiais que valorizavam a cultura e os materiais abundantes no Nordeste.

“Victor tem duas características maravilhosas: seu apreço à memória, que o fez guardar um precioso acervo, e o espírito de pesquisador nato. No fashion design, ele começa de uma forma muito interessante, na atividade como estampador, em uma fábrica, utilizando um material que era desvalorizado, o algodão, para produzir peças que se aproximavam da alta costura. Sua curiosidade e a vivência no interior da fábrica, fizeram com que sempre todas as etapas, da produção à comercialização. Para ele, moda não era só conceito”, explica Marcondes Lima.

A inserção na moda, aliás, aconteceu quase por acaso. Em 1954, uma cheia assolou o Recife e um dos lugares afetados foi o Hospital Ulysses Pernambucano, na Tamarineira. Para ajudar a angariar recursos para a recuperação Victor, junto com sua turma do curso de Odontologia, montou um desfile beneficente com peças assinadas por ele.

O sucesso foi tamanho que pouco tempo estava trabalhando na Cotonifício Othon Bezerra de Melo, onde fez carreira. Pela empresa, passou a fazer viagens frequentes para o Sudeste e para a Europa, atrás de tendências, que trazia ressignificadas para o clima local. Em Fortaleza, também ajudou a redefinir a moda local, valorizando o trabalho das rendeiras e artesãs locais.

NOVA JERUSALÉM

Outro capítulo marcante da prolífica carreira de Victor é sua contribuição para o teatro pernambucano. Por influência de Luiz Mendonça, chega ao Brejo da Madre de Deus, nos anos 1950, para auxiliar no Drama do Calvário. Com o crescimento da encenação e o sonho de Plínio Pacheco de construir a cidade-teatro, se torna figura ativa no que viria a ser a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, atuando como figurinista e cenógrafo.

“Sem Victor, a Paixão não seria o que é. Ele tem um diálogo intenso e extremamente importante que alimenta muito o ideário de Plínio Pacheco. É o grande parceiro de sonho de Plínio. Muitos dos cenários foram pensados por ele. Questões técnicas e relativas ao texto também. Victor, como a maioria dos cenógrafos, figurinistas, iluminadores e técnicos, está sempre nos bastidores e sua contribuição por vezes não é dimensionada como deveria. Espero que este livro possa lançar luz sobre sua história e que gere outros trabalhos porque a obra dele é muito vasta”, reforça o pesquisador.

Victor não para de inventar: sonha com um centro educacional e cultural em Fazenda Nova, que forme novas gerações e perpetue a memória do espetáculo. Já tem tudo esboçado e não para. Toda noite, ao acordar, registra seus sonhos em um caderno, construindo com seu traço um mundo mais elegante.

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