Homenagem

O múltiplo talento de Beatriz Segall vivia à sombra de Odete Roitman

Além da TV, Beatriz Segall brilhou no cinema, teatro, participando de obras que fizeram história

da Estadão Conteúdo LUIZ CARLOS MERTEN
Cadastrado por
da Estadão Conteúdo
LUIZ CARLOS MERTEN
Publicado em 06/09/2018 às 9:54
Foto: Reprodução
Além da TV, Beatriz Segall brilhou no cinema, teatro, participando de obras que fizeram história - FOTO: Foto: Reprodução
Leitura:

Vilã, mocinha, performance de musical - em mais de 70 anos de carreira, a atriz Beatriz Segall notabilizou-se por um talento múltiplo. Mesmo assim, era mais conhecida pelo papel de Odete Roitman, a vilã que foi assassinada durante a novela Vale Tudo, exibida pela Globo em 1988. Uma fama que a incomodava, pois encobria uma notável trajetória. Beatriz de Toledo Segall morreu nesta quarta-feira, 5, em São Paulo, aos 92 anos. A causa da morte não foi informada. A atriz estava internada havia algumas semanas no hospital Albert Einstein, com problemas respiratórios. Seu corpo deverá ser cremado ao meio-dia de hoje, em Cotia, na Grande São Paulo.

Nem que quisesse, Beatriz Segall poderia interpretar personagens deselegantes. Nascida, em 1926, numa família de classe média, o pai dirigia uma prestigiada escola no Rio e ela teve educação esmerada, segundo os padrões dos anos 1940 - piano, francês e bordado. Amava o teatro, mas, quando anunciou à família que queria ser atriz, o pai quase teve uma síncope. Meninas de boa família não subiam ao palco, naquele tempo em que atrizes tiravam carteirinhas de prostitutas para exercer a profissão. Mas, nos anos 1950, quando recebeu uma bolsa para estudar francês e literatura em Paris, não renunciou a nada.

No Brasil mesmo, já havia iniciado um curso de teatro com a grande Henriette Morineau. A temporada na França foi gloriosa - prosseguiu esses estudos, enamorou-se do filho (Maurício) do pintor Lasar Segall. Casaram-se em 1954 e tiveram três filhos - Sérgio, Mário e Paulo. O primeiro tornou-se um importante cineasta, assinando como Sérgio Toledo. Foi premiado em Berlim, em 1987, com Vera. Durante dez anos, Beatriz permaneceu devotada à família, aos filhos. Em 1964, o ano do golpe militar, retomou a carreira, substituindo Madame Morineau na montagem de Andorra, no Oficina, de José Celso Martinez Correia. Não parou mais. O marido pertencia à ALN, tendo sido preso e torturado. Beatriz teve de ser o arrimo da família nesse período difícil.

Diferentes brilhos

Brilhou em todas as mídias - assinando como Beatriz Toledo, estreou no cinema em 1950, com A Beleza do Diabo, de Romain Lesage. Não filmou muito, mas participou de trabalhos importantes - Cléo e Daniel, À Flor da Pele, Pixote, a Lei do Mais Fraco, Romance, Desmundo. Na TV, embora tenha participado de novelas de grande sucesso - Dancin’ Days, Água Viva, Pai Herói, Sol de Verão, Barriga de Aluguel - o grande papel foi como Odete Roitman, que virou emblema de autoritarismo e corrupção em Vale Tudo, folhetim de Gilberto Braga (escrita com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères).

Consagrada como vilã, sua personagem inspirou o mistério que, nem depois de solucionado - Quem matou Odete Roitman? -, deixou de inspirar humoristas e autores.

No teatro, entre muitíssimas personagens, em montagens que fizeram história - Os Inimigos, Marta Saré, O Inimigo do Povo, A Longa Noite de Cristal, O Interrogatório -, foi uma extraordinária intérprete de Edward Albee em Três Mulheres Altas, contracenando com Natália Thimberg e Marisa Orth na versão dirigida por José Possi Neto, em 1995. Em 2009, recebeu do então governador José Serra a comenda da Ordem do Ipiranga.

Em 2015, a curiosidade e o desafio a fizeram aceitar um papel no musical Nine - Um Musical Felliniano, de Charles Möeller e Claudio Botelho. Ainda que com uma voz sem grande potência, ela se destacou pela forte presença.

Últimas notícias