Crise no Rio

'São cruéis dos dois lados', diz moradora da Rocinha

Confronto entre policiais e criminosos deixou três mortos e assustou moradores da Rocinha

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Publicado em 21/09/2017 às 9:20
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Confronto entre policiais e criminosos deixou três mortos e assustou moradores da Rocinha - FOTO: Foto: ABr
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O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou nesta quarta-feira (20) que soube antes da possibilidade de confronto entre traficantes na favela da Rocinha, na zona sul do Rio. Ele contou que ordenou que a polícia não interviesse, para evitar mortes de inocentes. Mas o conflito deixou três mortos e três feridos e a comunidade se mantém receosa como se vê abaixo no depoimento de Lúcia (nome fíctício).

"Desde a quinta-feira passada a gente foi avisado que a qualquer momento teria confronto. O Nem (o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, preso em Rondônia) mandou recado dizendo que o Rogério (Avelino, o Rogério 157, chefe do tráfico na comunidade) tinha de sair da Rocinha até domingo. Rogério não saiu e disse que o Nem teria de vir da cadeia até o morro, para tirá-lo".

"No domingo, às 6 horas, começaram os fogos, para avisar que ninguém poderia sair de casa. Umas 9h30 começou o tiro, muito tiro mesmo, correria, pessoas fechando seus comércios rapidamente. A gente em casa, sem luz nem água, sem poder sair. Os PMs nem se mexiam. Os bandidos passavam por eles e gritavam: 'Fiquem quietos que não é com vocês, é entre nós'", disse Lúcia

"Aqui, tanto bandido quanto policial pega o nosso celular para ver o que tem. O bandido quer saber se tem vídeos com imagens deles. O policial quer ver se estamos ajudando traficante. Os vídeos que filmam da janela e espalham são aterrorizantes: olho arrancado, gente queimada viva, cabeça cortada, pernas espalhadas. São cruéis dos dois lados, estão ali para matar e morrer".

"A vida ficou muito cara na Rocinha por causa do Rogério. O pessoal dele cobra R$ 90 pelo botijão de gás. Eles cobram taxa dos donos de supermercados, da água mineral. E passou a ter roubo, estupro, violência doméstica. A gente não pode reclamar com a polícia, até porque a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) não existe, fica só na rua principal".

"Meu filho menor se treme todo quando tem tiro"

"Como mãe, fico muito nervosa. Meu filho menor se treme todo quando tem tiro. Segunda e terça-feira não teve aula, só hoje. Trabalho com o coração apertado, com medo de o mais velho, que cuida dos menores, me ligar para dizer que o tiro voltou. A polícia entra nas casas. Imagina se entram e pegam meus três meninos lá... Tem patrão que não entende, então as pessoas se arriscam a sair, mesmo proibidas, para não serem demitidas. Na segunda-feira, tinha toque de recolher às 17 horas, e meu irmão saiu às 18 horas para o trabalho. Foi obrigado a voltar. Nessas horas, não tem o que fazer."

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