Contra o tribalismo. Por Rodrigo Jungmann

jamildo
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Publicado em 03/04/2021 às 11:30
Bolsonaro durante visita à Transposição do Rio São Francisco em junho de 2020. Foto: Reprodução/Twitter
Bolsonaro durante visita à Transposição do Rio São Francisco em junho de 2020. - FOTO: Bolsonaro durante visita à Transposição do Rio São Francisco em junho de 2020. Foto: Reprodução/Twitter
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Por Rodrigo Jungmann de Castro, no Instituto Liberal do Nordeste

Curiosa é a minha sina. Entre gente de esquerda, sou amiúde tido como fascista inveterado. Por seu turno, a tosca e ignara alcateia de mentecaptos que no Brasil costuma aparecer na imprensa e nas redes sociais sob a designação de “direita” costuma me ter na conta de traidor do movimento que passa por ser a verdadeira direita no Brasil deste primeiro quarto do Século XX, o bolsonarismo.

Num certo sentido, isso pouco importa, porque as minhas peripécias e andanças pessoais nada são no grande esquema das coisas e, se é certo que as mencionei neste artigo e voltarei ocasionalmente a mencionar em peças vindouras, tal se dará exclusivamente porque julgo que importantes lições gerais podem muitas vezes ser hauridas do exame de situações particulares.

Curiosa é a minha sina, afirmei há pouco. E, com efeito, assim o é, visto que os tão encontradiços testes de coordenadas políticas invariavelmente me põem a uma curtíssima distância do centro, em que pese a minha inserção no campo liberal (sem quaisquer grandes ressalvas) e no conservador (com importantes ressalvas a serem explicitadas em peças futuras).

Dito de maneira simples e comezinha, sou um moderado.

Surge de imediato, portanto, a necessidade de explicar por que a moderação poderia ser tida como extremismo – e mais ainda, como uma posição a ser denunciada com denodo e, se possível, silenciada.

Isso nos traz ao cerne da grande questão política dos nossos dias: Qual é a causa, ou quais são as causas, da loucura política? Por que há tanta polarização? Por que a política gravitou irrefreavelmente no sentido dos extremos, da incivilidade, da demonização do adversário, e para tão longe da razoabilidade e do âmbito do diálogo racional?

A primeira coisa que urge compreender como condição basilar para o diálogo construtivo é que política não é matemática nem ciência exata e que, como diria Aristóteles, não se pode cobrar mais certeza da investigação intelectual numa área do saber do que é admitido pela sua própria natureza. Disso segue inapelavelmente uma lição que os mantenedores do site “Heterodox Academy”, que recomendo, colocam como lema da sua orientação para o diálogo: “Great minds don’t always think alike”, ou seja, “As grandes mentes nem sempre pensam do mesmo jeito”.

Para que ocorra um diálogo construtivo entre grandes mentes que discordam – ou simplesmente entre pessoas normais, pacíficas, cordatas e movidas pela boa-fé e que buscam sinceramente a verdade – urge que sejam atendidas algumas condições prévias.

De tanto refletir sobre essas questões, sou levado à conclusão de que o grande problema, a questão de vida e morte dos nossos dias, não é a oposição entre esquerda e direita, atendida a condição de que se trate de uma esquerda e uma direita moderadas, mas antes a oposição entre universalismo e tribalismo, sendo este último a fera selvagem, a abominação dos nossos dias. Ora, uma vez rejeitado o tribalismo, cairão por terra de imediato os extremismos, que, por sua própria natureza, são inevitavelmente tribalistas. O fascismo é tribalista, o neopopulismo é tribalista. É tribalista o stalinismo. Horror dos horrores, com toda a sua assombrosa sofisticação intelectual, o marxismo, não hesito em dizê-lo, é, na sua própria medula, uma corrente de pensamento tribalista.

O pensador universal busca a verdade onde ela estiver. A ideia de que o seu lado possa estar ou não certo aparece em casos normais como um mero estímulo à busca, mas a uma busca sempre passível de correções e revisões, visto que os pronunciamentos finais deverão sempre depender de constatações a posteriori, e não de pretensas constatações que na verdade sempre estiveram lá e que servem como um ponto de partida mais ou menos encoberto e disfarçado e destinado a provê-lo de antolhos que só o levem à confirmação de conclusões antecipadamente abraçadas. Ao tribalista, por sua vez, não interessa a busca desinteressada da verdade, tanto quanto seja humanamente possível a criaturas defeituosas como nós, os humanos. A “verdade” que ser quer é a do meu lado, da minha turma, da minha tribo.

O tribalista divide o mundo entre o nós da pureza e da retidão e o eles da imundície e da torpeza. Incorre-se no risco de desaparecer o espaço para o diálogo. A história mostra que a democracia liberal é uma flor tenra e perecível. Karl Marx não diferiu em substância dos fascistas ao verberar em O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte contra o que chamou de “cretinismo parlamentar”. É sabido que na década de trinta do século passado os agitadores comunistas e nazifascistas da República de Weimar em tudo discordavam, mas não na condenação às operações normais da democracia parlamentar.

Com efeito, por que gastar tanto tempo em debates intermináveis? Por que ouvir e argumentar? Por que buscar consensos possíveis? Por que fazer concessões? Por que admitir a possibilidade de se deixar convencer pelo argumento alheio? Nada disso faz sentido para quem já se julga detentor das verdades finais. Por que, em suma, conversar com demônios se e eu e a minha tribo somos tão puros?

Uma importante literatura vem ganhando corpo em anos recentes dando conta de que o tribalismo é, por assim dizer, a condição de partida da raça humana. Nesse contexto, podem-se consultar com proveito as obras relevantes de Jonathan Haidt (A mente moralista) e Joshua Greene (Tribos morais).

A hipótese que parece mais plausível é a de que o tribalismo se mantém firme e forte porque conferiria uma importante vantagem evolutiva a quem, se o leitor me permitir a licença literária, trouxer bem forte dentro de si o “gene tribalista”.

É um lugar-comum de certo gênero de ficção, que tem os primórdios da raça humana como tema, a representação de grupos de hominídeos vociferantes nas margens opostas de um rio que marca uma linha territorial divisória contestada por ambos. Bem, outra coisa não somos senão os herdeiros dos vencedores, a quem convinha imensamente a agressividade no trato dos seus oponentes. É de presumir que o hominídeo “sensato”, “razoável” e “aberto ao diálogo” tenha sido um indivíduo de escassa ou nenhuma prole.

Isso é o que podemos dizer no âmbito da gênese, mas não no da racionalização das atitudes tribais. Não basta que defendamos incondicionalmente o nosso lado e ataquemos o dos inimigos. É necessário cercar a irracionalidade com uma aura de decência. Como insiste Haidt em suas obras, a maior parte das desavenças na seara política não é devida a genuínas divergências interpretativas, mas a uma firme propensão ao cultivo de uma certa identidade, de uma visão de nós mesmos que nos ponha do lado das pessoas boas, das pessoas de quem esperamos aceitação e amparo, daquelas a quem queremos impressionar favoravelmente. A maior parte das questões que versam, supostamente, acerca de divergências, não o é na verdade. O que está em jogo é a identidade cultivada pelo indivíduo, a sua visão sobre o que é ser uma boa pessoa.

É a firme convicção deste autor a de que os extremos brutais da política cotidiana e mesmo os excessos de integrantes de correntes políticas que em si mesmas não cultivam os excessos de maneira programática, por assim dizer, devem-se em larga medida ao tribalismo.

O que nos cabe fazer a respeito é identificar e deslindar as causas, os agravantes e os fenômenos que lhe são concomitantes e, com base nessa análise, apontar para possíveis soluções ou formas de minorar os problemas.

A meu juízo, e tendo em mente de forma toda especial a realidade brasileira dos dias que correm, é necessário um exame detido de certos fatores, aqui mencionados em rol não exaustivo e certamente passível de ampliação: (1) o princípio de que o abismo chama o abismo, como diz a máxima latina; (2) a natureza inapelavelmente tribalista desse agridoce fenômeno moderno que são as redes sociais; (3) o apriorismo ideológico, conceito a ser exposto em contribuições futuras; (4) aquilo que a chamo de “a tirania das palavras”; (5) o uso do deboche ou do silêncio para impedir um genuíno debate lá onde ele é mais necessário e (6) o dogmatismo dos bem-intencionados.

Esses serão os temas de artigos futuros, mas é inevitável que sobrevenha entre eles um considerável grau de sobreposição. Na próxima peça a ser escrita, serei forçado, ainda que a contragosto, a entrar em alguma medida no terreno da autobiografia.

Rodrigo Jungmann de Castro é professor da UFPE

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