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Caso Gil do Vigor: se a ilha é da homofobia, se retire. Por Eduardo Sena

José Matheus Santos
José Matheus Santos
Publicado em 15/05/2021 às 9:19
Foto: Divulgação
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*Por Eduardo Sena, em artigo enviado ao Blog

Não faz nem dois anos que um árbitro parou pela primeira uma partida de futebol no Brasil por conta de gritos homofóbicos. A régua histórica mostra o tamanho do caminho que o esporte mais popular do País precisa trilhar para a construção de um ambiente saudável para todos. Nesta sexta-feira (14), o percurso pareceu se alongar. A estulta reação de um dos conselheiros do Sport Club do Recife, revelada por este blog, diante da cena de um dos mais famosos torcedores do clube dançando no gramado na Ilha do Retiro, mostra, como anotou Millôr, que o Brasil tem um grande passado pela frente.

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O destempero foi nutrido pelo fato de Gilberto Nogueira ser gay. Não aquele “discreto”, “fora do meio”, “que nem parece”, mas um que cuja vivência e individualidade sexual obteve ressonância de larga escala no País nos últimos meses. Quem lembra do atleta Neto Baiano na temporada de 2014, vestindo a camisa do Sport e comemorando seus gols com a “dança do frescando”, é testemunha de que não é o mexer dos quadris no gramado a razão da “depravação”, mas quem o faz.

 

A regra do jogo, fora das quatro linhas, não está escrita, mas também é cristalina: no futebol, têm coisas que héteros podem, gays não. Mas qual é medo que se tem, afinal? Por que a presença dos LGBTQI+ nesses espaços eivados de machismo representam uma ameaça, incorrendo no delito social de “ausência de vergonha na cara”?

Sempre frequentei assiduamente os jogos do Sport na Ilha do Retiro, muitas vezes sozinho, e nunca sofri diretamente nenhum gesto homofóbico. Claro que me incomodava os xingamentos de “veado”, “bicha”, “frango” e que tais dirigidos aos atletas e à arbitragem. Antes de ofensivo (embora a tentativa fosse claramente a de insultar), sempre achei acriançado. Pensava na quantidade de adjetivos que poderiam usar: “incapaz”, “displicente”, “fraco”, “medonho”, “preguiçoso”. Já gritei um “nem tua mãe te ama” e vi nos olhos do jogador que foi uma das coisas mas horríveis que ele ouviu na vida. Mas gay? Que bobagem!

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Infelizmente, ainda há quem veja na preservação de um rito machista e heteronormativo, sob a égide da “tradição”, do “sempre foi assim”, modelos e parâmetros corretos de ação e convivência. Ao vestir a camisa do Sport e fazer o tchaki tchaki sob o gramado da Ilha do Retiro, Gil do Vigor rompeu esse legado nocivo, fazendo o esporte e o Sport dar um passo à frente na evolução e quebra de preconceitos que tanto a sociedade precisa. Estamos em 2021, e episódios isolados ou assíduos como o visto hoje, de controle dos corpos e da própria diversidade, estão fora de contexto. Depravação é eternizar esse atraso. Se a defesa é por essa ilha homofóbica, por favor, se retire.

*Eduardo Sena é jornalista, gay e torcedor do Sport

Confira a reportagem de Antônio Gabriel, da Rádio Jornal, sobre a polêmica:

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