RIO GRANDE DO SUL

Igreja é investigada por anunciar 'imunização' contra coronavírus em Porto Alegre

"Venha porque haverá unção com o óleo consagrado como forma de imunizar contra qualquer epidemia", dizia o panfleto chamando para o culto. Após repercussão, pastor pediu perdão

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Publicado em 06/03/2020 às 20:39
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Igreja é investigada por anunciar 'imunização' contra coronavírus em Porto Alegre - FOTO: REPRODUÇÃO
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A polícia está investigando uma igreja evangélica em Porto Alegre por promover um culto no qual prometia a "imunização" contra o coronavírus e outras doenças, informou a comissária responsável pelo caso.

"O poder de Deus contra o coronavírus. Venha porque haverá unção com o óleo consagrado como forma de imunizar contra qualquer epidemia, vírus ou doença", dizia o panfleto publicado nas redes sociais da Igreja Catedral Global do Espírito Santo, situada na capital gaúcha.

Alertados por inúmeras denúncias, a polícia chegou ao local do culto no último domingo, mas "naquele momento não identificaram nenhum tipo de delito", disse à AFP a delegada Laura Lopes, à frente do caso.

"Como houve essa divulgação do folheto, abrimos um inquérito policial para verificar o que realmente está sendo falado para os fiéis, se eles estão divulgando alguma espécie de cura ou imunização contra as doenças", informou Lopes.

Representantes da igreja, assim como alguns fiéis, foram chamados para depor, segundo a delegada.

A investigação busca determinar se os líderes religiosos praticaram "charlatanismo" que, segundo a lei vigente no país, pode implicar em até um ano de prisão.

Pastor pediu perdão

O pastor da igreja, Silvio Ribeiro, convocou nesta terça uma coletiva de imprensa e afirmou que em nenhum momento teve a intenção de negar o papel da ciência e da medicina no tratamento das doenças.

"Em nenhum momento (o anúncio) promete que o óleo cure o coronavírus. Em nenhum momento diz que vou vender o óleo", ressaltou Ribeiro, que defende que em todos os seus cultos, ao longo de 27 anos, orienta as pessoas doentes a buscar um médico.

"Eu peço perdão a todos e digo que a nossa intenção com esse banner foi levar fé, esperança e amor para as pessoas, jamais outra coisa", justificou.

Casos de coronavírus no Brasil

O número de casos confirmados do novo coronavírus (Covid-19) chegou a 13 no país. Há ainda 768 casos suspeitos e outros 189 foram descartados pelas autoridades de saúde. O boletim foi divulgado pelo Ministério da Saúde nessa sexta-feira (6), em Brasília. O resultado marca um aumento e cinco pacientes infectados pelo vírus desde o último balanço, divulgado nessa quinta-feira (5).

Um dos novos casos foi registrado na Bahia. Uma mulher de 34 anos, residente da cidade de Lauro de Freitas, que teve o diagnóstico depois de viagem pela Itália, onde passou pelas cidades de Milão e Roma. Embora esteja assintomática, ela se encontra isolada em casa, sob observação das autoridades de saúde.

Os outros quatro novos casos foram identificados em São Paulo, totalizando dez pacientes com o vírus no estado. Completam a lista um no Rio de Janeiro e um no Espírito Santo. No Distrito Federal um teste acusou a infecção, mas a secretaria de saúde ainda aguarda a contraprova.

Avaliação

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, informou que o país não fará mais a definição de casos suspeitos pela origem do paciente, passando a considerar todas as pessoas vindas de voos da América do Norte, Europa, Ásia e Austrália. No caso da América do Sul e África, o cuidado pode ocorrer caso um país vire foco do vírus.

“Nexo internacional facilita muito a classificação de suspeitos e excluídos. No momento que qualquer viagem internacional nos últimos 14 dias fica mais fácil classificar o indivíduo. Isso produz mais eficiência para o sistema”, argumentou o diretor do departamento de imunização e doenças transmissíveis da pasta, Júlio Croda.

Repetindo o que havia afirmado após se reunir com o presidente Jair Bolsonaro hoje pela manhã, o titular da Saúde adiantou que, embora não seja possível prever com exatidão, a perspectiva é que em breve haja o começo de transmissão comunitária, quando não é possível identificar a cadeia de transmissão e o primeiro infectado. Essa condição torna a investigação e o combate mais complexos, uma vez que não permite mais mapear as pessoas que entraram em contato com indivíduos infectados.

Atendimento

Mandetta considerou que agora uma das preocupações é com o atendimento. Isso porque a infecção tem caráter prolongado, o que ocupa profissionais e leitos hospitalares. Por isso, a orientação é que procurem as unidades de saúde pessoas com sintomas da contração do vírus.

“É um quadro clínico arrastado, quando internam em hospitais, pacientes permanecem por período prolongado. Não rodam os leitos. É diferente de gripe, em que pessoa fica de cama 2, 3 dias. Este momento é das pessoas evitarem o hospital. Se conseguirmos trabalhar hospital para quem necessita, acho que temos condições de atravessar com números de leitos que precisamos”, recomendou.

Medidas

A partir dessa avaliação, o Ministério da Saúde anunciou que pretende agilizar a habilitação dos leitos. O procedimento consiste em reconhecer aqueles em funcionamento e iniciar o pagamento pelos serviços envolvendo esses recursos. A equipe da pasta informou que vai dialogar com secretarias estaduais para facilitar os retornos e medicação de pacientes com doenças crônicas para liberar profissionais e estrutura de atendimento.

Na segunda-feira (9), deverá ser editada uma norma regulamentando o isolamento domiciliar. “Mantemos recomendação para que pessoas com quadro gripal que é melhor perder dia de trabalho, mas que pessoas tomem medidas de autocuidado em relação a sua saúde respiratória. Nós temos orientado para que aquelas unidades de trabalho que possam fazer uso de trabalho em casa, usem”, acrescentou o ministro.

Será montado um comitê com o Tribunal de Contas da União (TCU) para avaliar os procedimentos de contratação e aquisição de insumos de forma flexibilizada em razão da demanda. Já a campanha de imunização contra a gripe está mantida para início no dia 23 de março em todo o país, começando com públicos-alvo, como gestantes, crianças e idosos.

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