ENGANOSO

Projeto Comprova: Tabela com risco de transmissão de covid-19 não foi divulgada por governo americano

Post associa tabela a um link para o Center for Disease Control and Prevention (CDC), em inglês, mas nenhuma das informações que aparece na tabela está no texto publicado pelo órgão de saúde norte-americano. Pesquisadores alertam que ainda não há estudos suficientes para embasar o tipo de conclusão da postagem

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Publicado em 17/06/2020 às 20:19
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Projeto Comprova
Postagem viralizou nas redes sociais - FOTO: Projeto Comprova
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Conteúdo verificado: publicação compartilhada pelo WhatsApp e em páginas de Facebook com o texto “O Center for Disease Control do governo dos EUA oficializou as evidências científicas emergentes sobre a transmissão do coronavírus”.

Um texto que circula nas redes sociais alega que um órgão do governo federal norte-americano, o Center for Disease Control and Prevention (CDC) [Centro para Controle e Prevenção de Doenças em português] , listou circunstâncias e ambientes com uma escala de risco de transmissão do novo coronavírus.

O post é enganoso ao associar a tabela a um link do CDC, em inglês. Nenhuma das informações que aparece na tabela está no texto publicado pelo órgão de saúde norte-americano.

O texto também engana o leitor porque dá a entender que há uma referência categórica na avaliação de risco de determinadas ocasiões sociais, como casamentos. Para isso, o texto usa como referência a medição de “partículas virais” de SARS-CoV-2, o novo coronavírus. Mas pesquisadores alertam que ainda não há estudos suficientes para embasar esse tipo de conclusão.

Como verificamos?

A equipe do Comprova acessou o site oficial do CDC — órgão do governo federal norte-americano responsável por orientações para a população durante a pandemia de covid-19. Buscamos a tabela que viralizou e informações semelhantes. Também consultamos o biólogo Luiz Almeida, do conselho editorial da revista Questão de Ciência — publicação digital de divulgação científica —, para avaliar a razoabilidade das informações.

Usamos sites de busca para encontrar textos com conteúdo similar ao da tabela. A pesquisa foi feita em português e em inglês. Com isso, chegamos a um post no blog do professor de Biologia Erin Bromage, da University of Massachusetts Dartmouth. Nele, Bromage explica os riscos de infecção pelo novo coronavírus em diversos ambientes e a carga viral dispersada ao respirar, falar, espirrar e tossir. Encontramos entrevistas nas quais ele explica que criou o blog para ajudar a esclarecer dúvidas de amigos e parentes e o conteúdo acabou viralizando. Entramos em contato com Bromage por e-mail e por mensagens diretas no Twitter. Ele confirmou que recebeu as perguntas e disse que iria retornar. Mas até o fechamento desta verificação, no final da quarta-feira, 17, a resposta não havia chegado.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis na data desta publicação.

Verificação

O CDC afirma que a principal forma de contágio é de um indivíduo para o outro. O site do órgão esclarece que o risco é maior entre pessoas que estão a menos de 1,8 metro de distância, pelas gotículas de saliva dispersadas quando uma pessoa infectada fala, espirra ou tosse. Essas gotas podem atingir uma pessoa saudável e carregar partículas do SARS-CoV-2 para os pulmões. O CDC ainda alerta que pessoas assintomáticas podem transmitir o novo coronavírus. De acordo com o site oficial do órgão de saúde, quanto maior a proximidade e o tempo de contato entre as pessoas, maior o risco. O CDC explica que o contágio por meio de superfícies contaminadas é possível, embora mais raro.

Por isso, a recomendação é: manter distanciamento social, lavar as mãos com água e sabão ou limpá-las com álcool em gel, limpar superfícies e objetos frequentemente tocados e cobrir nariz e boca com tecido (ou seja, máscaras) quando a pessoa estiver em lugares públicos. Mas o CDC não fala em números de partículas virais necessárias para o contágio e nem divulgou uma tabela com essas informações.

O texto do site do CDC possui uma marca de conteúdo revisado no último dia 16. O órgão justifica que editou o material da página para “fornecer mais clareza a todos os tipos de público”. E alega que a mudança desta semana pretendia facilitar a leitura e não era resultado “de nenhuma ciência nova”.

Ao que parece, as informações da lista que viralizou na internet brasileira vieram de um post no blog do professor universitário Erin Bromage. O biólogo é formado, tem mestrado e doutorado pela James Cook University, na Austrália e, atualmente, trabalha como professor associado do Departamento de Biologia da da University of Massachusetts Dartmouth, nos EUA. Ele não é ligado ao CDC. Em uma entrevista para a CNN norte-americana, Bromage contou que criou o blog para “dar conselhos tangíveis para amigos e familiares sobre os riscos [de contágio] com que deviam se preocupar e o que era desperdício de energia mental”.

O post do professor, em inglês, foi publicado em 6 de maio e atualizado no dia 20 do mesmo mês. Até o dia 17 de junho a publicação já tinha sido visualizada por mais de 18 milhões de pessoas em todo o mundo. No texto, Bromage explica que partículas do vírus são dispersadas por pessoas infectadas pela respiração, fala, espirro ou tosse. Ele diz que ainda não há levantamentos sobre quantas partículas são necessárias para provocar o contágio pelo SARS-CoV-2, mas, com base em estudos com outros tipos de coronavírus, estima que cerca de 1.000 partículas virais sejam suficientes para infectar uma pessoa saudável. Não há, porém, consenso sobre essa quantidade. Alguns virologistas acreditam que pode ser até dez vezes menor.

Com isso, Bromage lista quantas partículas se dispersam em diferentes situações. “A emissão de uma partícula viral pela respiração segue essa ordem: falar alto emite menos gotículas [contaminadas] que cantar. Espirro é o que mais emite. quanto mais força para um som deixar a boca, mais partículas são emitidas e maior a distância que elas alcançam”, resume.

O professor alerta que, para a infecção pelo novo coronavírus acontecer, não é preciso inalar mais de 1.000 partículas virais de uma só vez. A exposição continuada também leva ao contágio. Com isso, lista os lugares e situações em que, para ele, há maior risco de infecção, como banheiros públicos e restaurantes. “Depende da concentração de partículas no ar do tempo de exposição. Em lugares amplos com boa ventilação ou ao ar livre, a concentração de vírus é diluída em um volume maior e ar. Quanto menos vírus no ar, mais tempo você pode ficar naquele ambiente antes de se infectar”.

Sobre a transmissão e os estudos conhecidos sobre o tema, a equipe do Comprova conversou por mensagens com o biólogo Luiz Almeida, do conselho editorial da revista “Questão de Ciência”. Ele afirmou que “a transmissão é muito mais efetiva pelo ar; não importa se o ambiente é aberto ou fechado, o que vai importar são as pessoas ao seu lado, se alguma delas tem o seu vírus”. Mas não corroborou os cálculos apresentados na tabela: “Não é verdade que conseguimos concluir neste momento que há um risco maior em ambientes fechados”.

Por que investigamos?

O Comprova investiga conteúdos que apresentam informações suspeitas sobre a pandemia do novo coronavírus e alcançam um grande número de pessoas nas redes sociais. É o caso do texto investigado aqui, sugerido por leitores que o receberam pelo WhatsApp. Até o dia 17 de junho, o conteúdo teve mais de mil compartilhamentos em ao menos dez publicações no Facebook. A tabela também apareceu em outras plataformas, mas com muito menos alcance. As postagens mais populares tiveram 530 interações no Twitter e apenas 12 curtidas no Instagram até o dia 17.

O Comprova colocou o conteúdo em suspeição porque o post associa a tabela a um link do CDC, em inglês, e nenhuma das informações que aparece na tabela está no texto publicado pelo órgão de saúde norte-americano.

Além disso, como não há ainda vacina e nem medicamento eficiente para combater o novo coronavírus, as medidas de prevenção mais eficientes são não-farmacológicas, como uso de máscaras e o distanciamento social.

Desde abril deste ano vários estados e municípios brasileiros tornaram obrigatório o uso de máscaras de proteção em ambientes públicos, seguindo recomendação do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em meio à polarização política que envolve todos os temas relacionados à covid-19, o uso da máscara virou quase um posicionamento político. O presidente Jair Bolsonaro já foi flagrado sem o acessório em mais de uma ocasião e, no 15 de junho, o ministro a Educação, Abraham Weintraub, foi multado pelo governo do Distrito Federal por participar de uma manifestação sem máscara. Boatos sobre máscaras contaminadas foram desmentidos pelo Comprova.

Outra fonte de discussão é o distanciamento social. A reabertura do comércio e a retomada das atividades econômicas estão no centro do debate desde que os primeiros casos de covid-19 foram confirmados no Brasil. Enquanto o presidente Jair Bolsonaro insiste em diminuir a gravidade da pandemia, estados e municípios colocaram em vigor medidas de isolamento e, alguns casos, lockdown. Nas últimas semanas, algumas das maiores cidades do Brasil — como São Paulo e Rio de Janeiro — começaram a flexibilização do isolamento social, o que indica maior probabilidade de contato entre pessoas contaminadas e não contaminadas pela covid-19. Isso assusta a população que busca formas de evitar o contágio. Com isso, publicações como a tabela verificada ganham fôlego.

Enganoso, para o Comprova, é o conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano. O conteúdo investigado é enganoso porque distorce recomendações de autoridades sobre a transmissibilidade da covid-19.

O site Boatos.org também verificou esse conteúdo.

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