"Fake news"

Ferramenta Confere.ai ajuda a combater a pandemia de desinformação

Confere.ai realiza checagens automáticas de conteúdos e está sendo desenvolvido , numa parceria entre o SJCC, a Unicap e startup Verifica.Ai, . Você pode participar dos testes dessa ferramenta

Débora Oliveira Laís Arcanjo
Débora Oliveira
Laís Arcanjo
Publicado em 14/06/2020 às 8:29
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Confere.ai
Confere.ai faz checagens de texto e links usando inteligência artificial - FOTO: Confere.ai
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Já está em fase de testes uma ferramenta que realiza checagens de links e textos, com o objetivo de estimular que as pessoas verifiquem as informações recebidas antes de compartilhá-las. A meta é ajudar no combate à desinformação, fenômeno que se popularizou sob o nome de "fake news" (notícias falsas). A ferramenta, que recebeu o nome de Confere.ai, é baseada em inteligência artificial e está sendo desenvolvida desde o início deste ano no Sistema Jornal do Commercio, por meio de uma parceria com pesquisadores da Universidade Católica de Pernambuco e a startup Verific.AI. O projeto recebe financiamento da Google News Initiative para a América Latina. A partir da próxima semana, o sistema poderá ser acessado por qualquer pessoa interessada em participar dos testes (basta se inscrever no formulário que aparece mais abaixo neste texto).

A ferramenta está sendo disponibilizada num momento em que a pandemia do novo coronavírus provocou verdadeiras ondas de desinformação. Em 2020, o termo covid-19 tem dominado o ciberespaço, o que fez a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificar o momento como uma "infodemia". Em meio à pandemia, a sociedade vive um dilúvio de informações – precisas ou não – o que dificulta o acesso a fontes e orientações confiáveis. Campo fértil para a produção e consumo das chamadas "notícias falsas".

Sete em cada 10 brasileiros já acreditaram em pelo menos uma desinformação sobre a covid-19, segundo estudo realizado da Avaaz, comunidade de mobilização social online. Isso não acontece por acaso. De acordo com o Digital News Report do Reuters Institute e da Universidade de Oxford, o Brasil é um dos principais compartilhadores de conteúdos por aplicativos de mensagens, como o WhatsApp. O estudo da Avaaz mostrou que, na pandemia, brasileiros tendem a acreditar mais em desinformações produzidas sobre o novo coronavírus do que cidadãos de outros países, como Itália e EUA.

 

Pandemia de desinformação

“Não estamos só lutando contra uma pandemia, lutamos contra uma infodemia”, definiu o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, em fevereiro. De lá para cá, a situação se tornou ainda mais crítica. Relatório da Organização Pan Americana de Saúde (PAHO) mostra que, em abril, foram publicados 19,2 mil artigos no Google Acadêmico e produzidos 550 milhões de tuítes sobre a covid-19. Alguns estudos fazem uma correlação direta entre a enxurrada de informações e o aumento da produção e circulação de desinformação.

A coordenadora de neuropsicologia do Centro de Neuropsiquiatria e Neurologia Cognitiva da Faculdade de Medicina de Buenos Aires, Sandra Germani, afirma que uma das causas para a dificuldade do cérebro em distinguir o conteúdo verídico do falso é a relação das convicções com a tomada de decisão. "Ao cérebro, apresentam-se opções, uma sobrecarga de informações, e ele deve escolher em qual delas crer sobre um tema que mexe com sua saúde, sua sobrevivência. A decisão vem de algum ponto em comum com seu sistema de crenças, algum ponto de identificação."

A desinformação, durante a pandemia de covid-19, circula em ondas, segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e a Rede Internacional de Fact-checking (IFCN). Os primeiros boatos, em janeiro, eram sobre a origem da doença, depois passaram por sintomas, diagnósticos, reivindicações supremacistas, testes e bloqueios, impactos sociais e ambientais e, mais recentemente, fraudes.

Para sobreviver a esse momento sem ser movido pela desinformação, Sandra Germani recomenda calma. "O medo é uma emoção básica que se ativa diante de uma ameaça. Uma pandemia implica a existência de um perigo real, um vírus. A sobrecarga de informações nubla a razão, e o medo faz o resto", explica a neurocientista. O mestre em mídias digitais e coordenador do programa Coronavírus em Xeque (Rádio Paulo Freire), Ivo Henrique Dantas, dá dicas para diferenciar uma informação verdadeira. A primeira é conferir a fonte. “O papel do usuário neste período é não compartilhar informações sem fonte verificável e conferir se a informação foi desmentida por algum projeto de checagem.

Comprova e Confere.ai

Um dos principais desafios atuais é desenvolver o senso crítico na sociedade e encontrar mecanismos para combater a desinformação. O Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC) está inserido em dois projetos que têm enfrentado esse cenário. Um deles é o Projeto Comprova, coalizão de 28 veículos de comunicação do país que realiza verificação de fatos e que entrou na sua terceira fase na semana passada, depois de um expediente de 75 dias dedicado a checar boatos sobre a covid-19. Na fase atual, jornalistas de várias redações, incluindo a do JC, verificam em conjunto conteúdos suspeitos sobre políticas públicas do Governo Federal e eleições municipais. É possível enviar pedidos de checagem através do WhatsApp (11) 97795-0022 ou pelo site projetocomprova.com.br.

A outra iniciativa de que o SJCC está participando é o Confere.AI, sistema automatizado de checagem de informações que pretende criar uma cultura de verificação na população, de modo que qualquer pessoa possa realizar checagens mais simples. O Confere.ai dará ao cidadão a possibilidade de atuar como um checador e multiplicador de informações confiáveis. O projeto surgiu de uma pesquisa realizada no mestrado em Indústrias Criativas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e, em parceria com o Sistema Jornal do Commercio, foi selecionado pelo Desafio de Inovação do Google News Initiative na América Latina.

“A diretoria do Sistema Jornal do Commercio conheceu o protótipo por meio de alguns professores da Unicap. Desde aquele momento, percebi que havia ali um instrumento poderoso no combate à desinformação. Por isso apresentamos a ideia no desafio que o Google promoveu. Vê-lo agora, prestes a ser lançado, me dá a certeza de que foi uma aposta mais do que acertada”, conta a diretora de Estratégias Digitais do SJCC, Maria Luiza Borges.

O Confere.AI une conhecimentos jornalísticos à ciência da computação. "Foi construída uma base de dados composta por diversas notícias mineradas na internet, bem como classificadas por outros serviços de checagem e iniciativas de pesquisa. Aplicamos modelos computacionais baseados em uma aprendizagem previamente indicada", conta o doutor em biotecnologia e integrante da equipe de desenvolvimento do Confere.ai, Anthony Lins.

A plataforma funcionará como um filtro, que poderá ser usado antes do compartilhamento de informação. "Há várias ondas de desinformação em curso. Elas estão se mostrando danosas para a qualidade do debate público. Estamos dando à sociedade mais instrumentos para evitar que isso aconteça", relata a coordenadora do projeto e idealizadora do protótipo no mestrado da Unicap, Alice de Souza.

O Confere.ai criou um sistema que mede o índice de confiabilidade de textos e links. Foi produzida uma escala com níveis diferentes de classificação, baseada em critérios que consideram as características da notícia, como descreve o doutor em Design da Informação, professor da Unicap e integrante da equipe do projeto, Dario Brito. "Levantamos desde o mestrado e seguimos trabalhando com mais afinco agora diversos critérios textuais que ajudam a máquina a distinguir uma informação de uma desinformação, conferindo mais ou menos credibilidade ao que está escrito. Nos últimos meses, a equipe estudou os perfis textuais de milhares de matérias, das mais diferentes procedências, a fim de extrair esses padrões", explica Brito.

O projeto está em fase beta, para ajustes e atualizações. O maior desafio da equipe agora é regular a inteligência artificial para aumentar o nível de precisão e assim torna-la cada vez mais útil para o usuário e também para os profissionais de comunicação. Para que isso seja alcançado, será preciso colaboração. Quanto mais links e textos a ferramenta receber, melhor ela aprenderá a diferenciar notícias verdadeiras de desinformações.

Uma versão para testes será disponibilizada para quem se interessar em participar dessa primeira fase de funcionamento do Confere.ai. Se você tem interesse de ser um dos primeiros usuários a utilizar a ferramenta, basta preencher o formulário abaixou ou enviar um e-mail para contato@confere.ai.

Ondas de desinformação

Segundo a diretora-adjunta da Rede Internacional de Fact-checking (IFCN), Cristina Tardáguila, a desinformação sobre a covid-19 vem ocorrendo em ondas. O fenômeno também foi estudado pelas pesquisadoras Julie Posseti e Kalina Bontcheva, em estudo publicado pela Unesco, agência das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Confira algumas das principais ondas:

Os mitos da origem: As desinformações desse período sugeriam que o Bill Gates tinha a patente do novo vírus ou que teria sido criado em laboratório.

Sintomas diagnóstico, tratamento e curas: Falsos remédios ou vacinas, informações sobre imunidade e formas de prevenção foram propagados em todo mundo. Vídeos de pessoas caindo na China viralizaram, supostamente como resultado da covid-19.

Reivindicações supremacistas: Nessa onda alegações de que certas religiões ou raças não foram infectadas se espalharam.

Testes e bloqueios: Como as pessoas foram forçadas a ficar em casa, essa onda lidou com reivindicações relacionadas a testes e quarentenas.

Falsas estatísticas: Onda de dados deturpados em relação às taxas de doença e mortalidade.

Impactos econômicos: As desinformações citavam o impacto da pandemia na economia e na saúde, sugeriam que o isolamento social não era economicamente justificável e que o covid-19 estava criando empregos.

Descrença da mídia: Surgiram falsas acusações que jornalistas e veículos de comunicação estavam criando desinformação. Jornalistas foram agredidos publicamente e campanhas para descredibilizar a mídia foram criadas.

Impactos sociais e ambientais: Nessa onda, desinformações sobre a quarentena levaram pessoas a entrarem em pânico e racionarem comida. Outras notícias falsas sugeriam a volta de golfinhos aos golfos venezianos.

Politização: Informações foram compartilhadas em um esforço de minimizar a pandemia. Em alguns países, autoridades divulgaram informações de que a querentena duraria poucos dias, que a doença se assemelhava a uma gripe comum e de que vodca com sauna protegeria os indivíduos contra a covid-19.

Fraudes: Uma onda de conteúdo foi propagada com o objetivo de roubar dados das pessoas.

 

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