
“O que você vai ser quando crescer?”. Todo mundo, um dia, foi alvo dessa pergunta. Na infância, a resposta pode ser qualquer uma. Mas ao final do ensino médio, já na adolescência, tem um peso grande porque significa decidir o futuro profissional. Muitos jovens focam na preparação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e deixam para resolver a graduação somente às vésperas da inscrição do vestibular ou do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Quem define o curso que vai concorrer no início do ano (ou antes disso) tem mais chance de planejar e direcionar os estudos para conseguir o tão sonhado ingresso no ensino superior de acordo com as exigências de cada universidade.
As provas do Enem serão realizadas dias 3 e 10 de novembro. Até lá são exatos 231 dias. O Sisu só deve abrir inscrição em janeiro de 2020, ou seja, coloque aí mais uns 60 dias nessa conta até a hora de assinalar o curso. Para o vestibulando indeciso, o momento agora é de buscar ajuda. A orientação vocacional, realizada por psicólogos, é uma das alternativas.
“O quanto antes essa reflexão acontecer, melhor. Se possível antes de o estudante chegar ao 3º ano. As escolas deveriam ter um papel mais ativo nessa tarefa. Em geral se preocupam mais com a formação básica, quando a orientação profissional é também muito importante”, destaca o presidente da Associação Brasileira de Orientação Profissional, Rodolfo Ambiel.
Na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o índice de evasão, no primeiro ano de curso, fica na média de 8%. Significa que de cada cem jovens, oito desistem da graduação. Na Federal Rural (UFRPE), a taxa é maior: 25% aproximadamente.
MATURIDADE
“A escolha profissional acontece em pleno ápice da adolescência, num momento de importante desenvolvimento neurológico, cognitivo, emocional, social. São muitas frentes que precisam ser administradas pelos estudantes que, em sua maioria, ainda não possuem a maturidade necessária. A orientação profissional ajuda a promover uma escolha apropriada numa época onde o adolescente ainda se sente perdido”, observa a psicóloga Paula Aureliano.
No Colégio Dom, situado em Casa Caiada, Olinda, no Grande Recife, os alunos da última série do ensino médio participam de vivências em grupo, a cada 15 dias, para descobrirem seus desejos e habilidades. “Há também palestras, pesquisas em sites, excursões para feira de profissões da UFPE e reuniões com os pais”, explica a psicóloga da escola, Cristina Neves.
Um dos desafios é justamente convencer os pais a não influenciarem o filho. “É preciso desconstruir a ideia de que só medicina, engenharia e direito dão dinheiro. Os pais já tiveram o momento deles de escolher a profissão. Geralmente esse conflito é significativo e deixa os alunos angustiados”, observa Cristina.
“A família deve se apropriar de informações atualizadas do mundo das profissões e daí favorecer um espaço de diálogo sobre o tema e, quando possível, viabilizar o contato do adolescente com pessoas e ambientes de trabalho que lhe despertam interesse, facilitando a identificação das vantagens e desvantagens de cada área”, sugere Paula Aureliano.
SITES
A orientação vocacional é um serviço que infelizmente não é oferecido pela UFPE nem por cursos de psicologia ministrados por seis faculdades privadas do Recife e contactadas pelo JC (Fafire, Estácio, Unicap, Uninassau, Joaquim Nabuco e FPS). A saída para o vestibulando que não tem condições de pagar pelo trabalho é buscar ajuda em sites.
Um deles é a plataforma gratuita Que curso? (www.quecurso.com.br), criada em 2017 e que já atendeu mais de 1,4 milhão de pessoas. “Nossa metodologia está referenciada em testes psicológicos. A plataforma é gratuita e tem uma interface intuitiva e atraente para os jovens”, informa um dos fundadores do site, Ricardo Rüppell.
“Percebo jovens com medo do futuro. O nível de estresse, ansiedade e depressão entre os adolescentes é alto. Muitos escolhem a profissão não pela vocação, mas porque dá dinheiro ou para satisfazer os pais. Isso acaba atrapalhando a preparação no Enem”, destaca a psicopedagoga Rossana Barreira.
DEPOIMENTOS
"Decidi por ciência da computação depois do Enem e antes das inscrições do Sisu. A orientação profissional foi importante porque me ajudou a tirar dúvidas e fazer a escolha certa, de acordo com minhas habilidades. Estou gostando muito da graduação”, diz Pedro Caminha, 18 anos, 3º período de ciência da computação na UFPE.
"Nunca fiz teste vocacional. Não lembro da escola se preocupar em conversar sobre profissões. Talvez se tivesse tido orientação no 3º ano fosse diferente. Cursei sete períodos de engenharia civil. Mas chorava desde os primeiros dias. Amadureci, pensei bastante e resolvi seguir um desejo de infância, ser médica”, relata Victória Lins, 23 anos, vestibulanda de medicina.
"Cursei um ano de engenharia na UFPE. Passei outro ano tentando entrar em medicina. Agora decidi ser professor de matemática. Para muitos pais, curso bom é medicina, direito e engenharia. Muitas vezes o jovem acaba seguindo carreira que não quer por causa da pressão da família e da escola”, afirma o fera Adriano Brito, 19 anos.