Fechamento de portas

Em Olinda, colégio encerra as atividades e pega pais e funcionários de surpresa

Notícia foi dada com uma semana antes do início do ano letivo

Bruna Oliveira
Bruna Oliveira
Publicado em 28/01/2020 às 20:33
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Foto: Léo Motta/JC Imagem
Notícia foi dada com uma semana antes do início do ano letivo - FOTO: Foto: Léo Motta/JC Imagem
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atualizada às 12h05 do dia 29 de janeiro de 2020

“Absurdo” é a palavra utilizada por funcionários e pais de alunos do Colégio Luiza Cora (CLC), instituição de ensino privado, localizada no bairro de Casa Caiada, em Olinda, no Grande Recife, para definir a situação vivenciada por eles nesta terça-feira (28). A instituição, mesmo com início das aulas previsto para a próxima segunda-feira (3), comunicou o encerramento das atividades. A decisão foi uma surpresa para todos. 

Um comunicado, enviado por um aplicativo de mensagem, na segunda-feira (27), convocou professores e funcionários do Colégio Luiza Cora para uma reunião no dia seguinte. Ao chegar no encontro, a surpresa: a instituição estava fechando as portas. Nesta quarta-feira (29), representante da instituição de ensino prometeu devolver o dinheiro investido pelos pais e quitar salários de professores e funcionários.

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O Procon-PE notificou o CLC nesta quarta, solicitando, com prazo de 24 horas, esclarecimentos sobre "possível encerramento das atividades, matrículas realizadas, pagamentos e demais informações sobre alunos já matriculados". Agora, o CLC precisa protocolar o fechamento e se comprometer a devolver todo o valor que foi gasto pelas famílias, como matrículas, fardamento, lista de material escolar e livros do ano letivo.

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Explicação

A coordenadora do Luíza Cora, Adriana Alves, explicou que a decisão foi tomada porque apenas 150 alunos foram matriculados para o ano letivo de 2020 e o quantitativo não iria suprir a demanda de gastos. "Pensamos nos funcionários e nas nossas crianças", disse. A escola tinha expectativa de que 500 alunos fossem matriculados.

Adriana Alves ainda alegou que a escola está promovendo parcerias com dois colégios particulares da região, que oferecerá isenção da matrícula e descontos nas mensalidades. Porém, caso os pais queiram ir para outras instituições, terão todo o valor gasto na matrícula ressarcido.

No entanto, Carla Costa, turismóloga e mãe de aluna, explica que sente, em Olinda, uma carência de vagas para a série da filha, que fará 1º ano do ensino médio. "Já liguei para várias escolas, inclusive as públicas, e não tem vaga. Já sei que não vou conseguir vaga para ela onde eu gostaria e pelo preço que eu poderia. Então vou me submeter à outras opções", disse.

Salários atrasados

A situação se agrava porque, segundo a professora de ballet Isabelle  Sampaio explicou em entrevista ao JC, os salários dos funcionários estão atrasados desde novembro de 2019. "Não recebemos nem o 13º salário. Apenas foram feitas promessas de que seríamos pagos, mas nunca foram cumpridas", disse.

Além dos problemas salariais, os professores agora enfrentam também o desemprego, realidade que chegou sem aviso prévio.  

"Como podem fechar as portas uma semana antes de começar as aulas? Como os professores vão conseguir outro emprego se todas as escolas já fecharam o quadro de funcionários?", indagou Isabelle, que também afirmou que um professor, colega de trabalho, anteriormente deixou de ir para outro emprego para permanecer no CLC. 

A coordenação do Luíza Cora relaciona o atraso e afogo nas contas à inadimplência apresentada em 2019, que, segundo ela, "beirou os 70%" de todas as mensalidades. "Os funcionários da secretaria, coordenação e os donos ficarão aqui [na escola] até o mês de abril para prestar contas e fazer históricos de documentações", explicou Adriana.

Sentindo-se lesada, a professora contou à reportagem do Jornal do Commercio que procurou um advogado para resolver a situação, já que, segundo ela, o colégio informou que irá fazer cálculos para resolver como irão pagar o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e o seguro desemprego, já que não há uma solução para remunerar os funcionários.

"O CLC disse que está esperando os pais inadimplentes de 2019 fazer o pagamento, para, assim, pagar os professores. Mas como os pais vão pagar se a escola fechou?”, conclui.

Alunos desamparados

A advogada Jéssica Paixão, que matriculou os dois filhos no Colégio Luiza Cora para o ano letivo de 2020, mal conseguiu trabalhar nesta terça-feira (28). Assim como outros pais e responsáveis, a mulher se desesperou ao se deparar com um e-mail enviado pela direção do colégio informando o encerramento das atividades.

"O CLC COLÉGIO E CURSO EIRELI comunica a Vossa Senhoria que foi forçada a encerrar suas atividades, em razão de não ter atingindo o número suficiente de alunos matriculados, ao modo de não comportar os custos operacionais do nosso empreendimento. Diante do encerramento, solicitamos o comparecimento na Unidade 1 da Instituição, das 8h às 12h e 14h às 17h dos dias 30/01 e 31/01, para que possamos tratar do plano de devolução das matrículas desembolsadas, bem como dos documentos pertinentes à transferência”, diz um trecho do documento enviados aos pais e responsáveis dos alunos.

Para Jéssica, a instituição, na verdade, agiu de forma criminosa, já que, segundo ela, uma amiga conseguiu realizar a matrícula do filho ainda na segunda-feira (27). "Até ontem (segunda) receberam a matrícula de uma amiga minha. Ela também comprou livros escolares e fardamento, então foi tudo muito bem pensado, porque não é possível que tenham acordado e decidido fechar a escola de repente", declarou. 

Rochelly Tavares, que também é mãe de uma aluna matriculada no Luiza Cora, contou que ao comparecer ao colégio, em janeiro, gastou mais de R$ 1 mil em despesas oriundas dos materiais escolares solicitados pelo CLC. 

"Eles não avisaram nada. Em agosto fizeram uma campanha de matrícula para o parcelamento da mesma e nós pagamos. Enviaram a última cobrança normalmente, em dezembro, com uma mensagem de outra campanha de matrícula e não informaram nada do tipo", contou a mãe, que está no interior do Estado a trabalho e deixou tudo organizado para que a filha fosse à escola na próxima segunda-feira (3).

De acordo com Jéssica Paixão, no mês de agosto, citado acima por Rochelly, um boato de que o Colégio Luzia Cora fecharia se espalhou entre os responsáveis dos alunos e, ao serem questionados sobre o assunto, o CLC desmentiu a informação, por meio de um comunicado, o que tranquilizou as pessoas. 

Futuro dos estudantes já matriculados

Segundo Jéssica, após os boatos, o Colégio passou a realizar a pré-matrícula dos alunos para o ano de 2020 e, depois desse período ter sido encerrado, a escola passou a oferecer 50% de desconto no valor da matrícula. Ainda de acordo com ela, ao ser questionado sobre isso, o colégio informou, de maneira verbal, que os que já haviam realizado a pré-matrícula receberiam desconto no valor da mensalidade de fevereiro de 2020.

Com muita revolta, Jéssica e outros grupos de pais passaram o dia conversando com os estudantes e procurando outras escolas para fazer matrícula dos alunos desamparados. "Como a notícia nos impactou hoje, procuramos conversar com nossos filhos, já que eles agora vão para uma escola que não conhecem ninguém e não têm afinidade com os professores", contou.

No comunicado enviado pelo CLC, a instituição também informou que havia feito uma parceria com o Colégio Santa Emília, também localizada em Olinda, em que os alunos matriculados seriam encaminhados para ela, de forma opcional, e teriam sua matrícula isenta.

"O valor da mensalidade do Colégio Santa Emília é muito maior que o do Colégio Luiza Cora, então, para muitos não há condições dos alunos estudarem lá", concluiu a advogada, que também informou que irá acionar a Justiça.

Pronunciamento do Colégio Santa Emília

Em conversa com o JC, o diretor do Colégio Santa Emília, Francisco Júnior, informou que a instituição não possui vínculo algum com o Colégio Luiza Cora. No entanto, na semana passada ele foi procurado pelo então diretor do CLC, conhecido apenas como Fábio, para realizar uma parceria com relação às matrículas.

"Ele me procurou dizendo que estava com poucas matrículas e que estava preocupado, porque havia feito uma campanha de matrícula para o ano letivo e que não tinha condições financeiras de devolver esse dinheiro", declarou Francisco Júnior.

Francisco informou que os dois realizaram a parceria de forma verbal e confirmou a isenção das matrículas. "Aceitei, porque se eu estivesse no lugar dele, gostaria que tivessem feito isso por mim", concluiu.

Saiba como economizar no material escolar

Matrícula, fardamento, livros didáticos, material escolar. O mês de janeiro é dispendioso para quem tem filhos que ainda estudam. Para este ano, a Associação Brasileira dos Fabricantes e Importadores de Artigos Escolares (Abfiae) estima alta de 8% nas papelarias. Por isso, planejamento tem sido a palavra-chave para os pais que tentam economizar.

Na última Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, divulgada em 2019, as despesas com educação representavam, em média, 4,7% do orçamento familiar do brasileiro. Entre os biênios 2007-2008 e 2017 e 2018, esse gasto cresceu 56%. Para aliviar o peso no orçamento, pesquisar os preços e antecipar as compras têm sido boas alternativas.

Outra saída muito escolhida pelos pais são as feiras livres de livros usados, também conhecidas como sebos. O movimento é crescente e, segundo os comerciantes, o fim do mês de janeiro é quando os sebos ficam lotados. A culpa é da mania do brasileiro de deixar tudo para última hora.

Veja onde tem material escolar mais barato no Grande Recife

 O Procon-PE repetiu no iinício do mês de janeiro a pesquisa de preços de material escolar realizada no mês de dezembro. Diferente de anos anteriores, o órgão fiscalizador encontrou redução nos preços. Dos 31 produtos mais procurados, 19 sofreram redução de  preço, seis mantiveram os valores e seis aumentaram. Na pesquisa de dezembro, inclusive, já havia sido analisada uma queda em relação ao mesmo período de 2018.

De acordo com o levantamento do Procon-PE, os produtos que mais caíram de preço foram: a massa de modelar (baixou de R$ 6,50 para R$ 4,00) - redução de 38,46%; o apontador de metal (de R$ 1,90 e para R$ 1,20), menos 36,84%; e a caixa de lápis de cor com 12 unidades, que saiu de R$ 19,99 para R$ 13,80 (- 30,97%).

Os fiscais pesquisaram 70 itens divididos entre: lápis preto; lápis de cor; caneta esferográfica; caneta hidrográfica; giz de cera; borracha branca; massa de modelar; tintas; fita adesiva; réguas; apontador de lápis; tesoura; cadernos espiral e brochura; lancheira; mochila e papelaria. Desses itens, o órgão nomina e precifica cada um, faz um recorte dos 31 mais procurados e compara com o ano anterior.

O que não pode ser pedido na lista de material escolar

1. Papel higiênico;
2. Detergente;
3. Sabonete*;
4. Material de limpeza em geral (desinfetante, lustra móveis, sabão em barra, dentre outros;
5. Pasta de dentes;
6. Shampoo*;
7. Pincel atômico;
8. Giz branco ou colorido;
9. Grampeador e grampos;
10. Fitas adesivas;
11. Álcool (líquido ou em gel;
12. Medicamentos;
13. Cartucho para impressoras;
14. Produtos de construção civil (tinta, pincel, argamassa, cimento, dentre outros);
15. Flanelas;
16. Marcador para retroprojetor;
17. Copos, pratos e talheres descartáveis;
18. Bolas de sopro;
19. Esponja para pratos;
20. Palito de dentes;
21. Elastex;
22. Lenços descartáveis;
23. Cordão e linha;
24. Fitas decorativas;
25. Fitilhos;
26. TNT;
27. Tonner;
28. Pregadores de roupas;
29. Plástico para classificados;
30. Pastas classificadoras;
31. Resma de papel ofício;
32. Papel de enrolar balas;
33. Papel convite;
34. CD-R e DVD-R;
35. Balde de praia;
36. Brinquedos para praia;
37. Brinquedos e jogos em geral;
38. Palitos de churrasco;
39. Palitos de dente;
40. Argila;
41. Envelopes;
42. Sacos plásticos;
43. Carimbo;
44. Colas em geral, inclusive colorida;
45. Lã;
46. Livro de plástico para banho;
47. Miniaturas em geral (carros, aviões, construções, etc...);
48. Fita dupla face;
49. Pen drive, dentre outros.
* Shampoo/sabonete: apenas permitido aos alunos do Ensino Fundamental I, desde que matriculados na modalidade de tempo Integral.

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    Gestos como este podem ajudar as crianças e adolescentes a terem um melhor desempenho escolar, de acordo com dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), exame internacional que avalia estudantes de 15 anos de cerca de 70 países, disponíveis na plataforma de dados educacionais Mapa da Aprendizagem.

    A plataforma reúne os dados coletados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), no Pisa 2015, que é a última edição com os resultados disponíveis. Nesse ano, o enfoque foi em ciências. Entre os estudantes que disseram que os pais se interessam muito pela vida escolar, a média de desempenho em ciências foi 414,08 pontos. Já entre aqueles cujos pais não mostram interesse na escola, a média foi 357,19. A diferença equivale a quase dois anos de estudos entre os dois grupos. As informações são da Agência Brasil.

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