Caso Portinari

Jovem que roubou quadro de Portinari volta ao museu, em Olinda, para pedir desculpas

Leonardo Jorge diz querer mudar de vida e, para isso, teria que primeiro pedir perdão à diretora do MAC, Célia labanca

Carlos Eduardo Santos
Carlos Eduardo Santos
Publicado em 30/06/2012 às 19:00
Guga Matos/JC Imagem
FOTO: Guga Matos/JC Imagem
Leitura:

Igo Bione/JC Imagem
Leonardo Jorge foi ao MAC pedir desculpas pelo furto do quadro à diretora do espaço, Célia Labanca - Igo Bione/JC Imagem
Igo Bione/JC Imagem
Leonardo Jorge foi ao MAC pedir desculpas pelo furto do quadro à diretora do espaço, Célia Labanca - Igo Bione/JC Imagem
Igo Bione/JC Imagem
Leonardo Jorge foi ao MAC pedir desculpas pelo furto do quadro à diretora do espaço, Célia Labanca - Igo Bione/JC Imagem
Igo Bione/JC Imagem
Célia entregou dois livros a Leonardo, que retribuiu com camisa do Projeto Travessia - Igo Bione/JC Imagem
Igo Bione/JC Imagem
Diretora do MAC fez questão de dedicar os livros a Leonardo - Igo Bione/JC Imagem
Igo Bione/JC Imagem
Leonardo Jorge se diz arrependido e pretende fazer faculdade - Igo Bione/JC Imagem
Guga Matos/JC Imagem
Tela de Portinari é de 1959. Foi roubada em 14 de julho de 2010 e recuperada menos de um mês depois - Guga Matos/JC Imagem

Fotos: Igo Bione/JC Imagem

Textos: Carlos Eduardo Santos

Um pedido de desculpas e o perdão não poderiam escolher lugar melhor para se encontrar. Um museu. Mais especificamente o Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Pernambuco, em Olinda, um dos mais importantes da América Latina. O pedido partiu de um jovem franzino, carioca de sotaque carregado, que há pouco mais de dois anos levou o MAC a ganhar as manchetes dos principais jornais do Brasil e até mesmo do exterior.

Leonardo Jorge da Silva, 26 anos, acusado de furtar do local a tela Enterro, do pintor Cândido Portinari, em 14 de julho de 2010, voltou no fim da semana passada ao museu. Dessa vez, no entanto, não buscava obras de arte. Estava atrás do perdão de Célia Labanca, diretora do espaço.

Para ele, solto há um mês através de decisão da Justiça para responder o processo em liberdade e que diz querer retomar a vida longe do mundo do crime, o pedido de desculpas seria o primeiro passo para o recomeço. O encontro aconteceu no fim da manhã de um dia chuvoso.

De um lado, Leonardo, ainda tímido, que vestiu a melhor roupa para a visita. Por cima da camisa preta de botão, a farda do Projeto Travessia, que o fez orador da primeira turma de detentos a concluir o ensino médio no Presídio de Segurança Máxima de Igarassu, no Grande Recife.

Do outro, na sala em anexo à entrada principal do museu, uma ainda desconfiada Célia Labanca. Quem primeiro falou foi ela, indagando logo se o jovem pretendia mudar de vida e avisando que o ser humano é resultado de suas escolhas.

De cabeça baixa, Leonardo parecia concordar com os puxões de orelha. Admitiu que fez a escolha errada e começou a explicar a história da sua vida, que teve início no bairro de Ramos, no Rio de Janeiro.

A partir daí, a conversa fluiu. Célia se mostrou impressionada com a desenvoltura, educação e conhecimento em arte do ladrão que tirou suas noites de sono naquele julho de 2010. Leonardo assumiu o crime na frente da diretora e afirmou que pretende entrar em uma faculdade e usar o que já aprendeu para voltar a ter uma vida digna.

Homossexual assumido, o jovem disse ter decidido mudar de vida após entrar na escola. “Ainda na prisão, comecei a fazer pesquisas para um próximo trabalho (furto). Mas vi na escola um refúgio, pois sofri muito lá dentro, principalmente pela minha condição sexual. E na escola percebi que posso usar meus conhecimentos para mudar de vida. Mas antes tinha que pedir desculpas”, ressaltou Leonardo, que entregou a camisa do Projeto Travessia e uma carta de sete páginas à Célia.

Para a diretora do museu, a atitude do jovem é nobre. “Esse menino é inteligentíssimo. E deve usar essa inteligência. Vejo que você é uma pessoa boa. Com todo o prazer, lhe perdoo”, afirmou Célia, que presenteou Leonardo com dois livros escritos por ela.

A diretora ainda disse que vai entrar em contato com a Chefia de Apoio a Egressos e Liberados do Estado, colocou o museu à disposição do novo amigo e garantiu: “Vou mandar emoldurar a camisa de Leonardo e colocá-la na sala dedicada a Cândido Portinari.”

Procurado pelo JC, o delegado Manuel Martins, que prendeu o carioca lá no Rio de Janeiro, afirmou ter percebido “algo diferente” no jovem. “Ele é uma pessoa diferenciada, muito inteligente. Não dificultou a investigação, nos contou tudo.”

O quadro foi recuperado no dia 31 de julho de 2010, no Rio de Janeiro. Na ocasião, Leonardo Jorge foi preso junto com o intermediador da venda, Leonardo Bispo da Silva.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias