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Vizinhos sufocados pelo pó em Salgadinho

Moinho é acusado de jogar poeira no ar. Moradores queixam-se de doenças respiratórias

Rafael Carvalheira
Rafael Carvalheira
Publicado em 04/10/2012 às 7:30
Foto: Bernardo Soares/JC Imagem
Moinho é acusado de jogar poeira no ar. Moradores queixam-se de doenças respiratórias - FOTO: Foto: Bernardo Soares/JC Imagem
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Quem olha do alto os telhados das residências vizinhas ao Moinho Cruzeiro do Sul, localizado no bairro de Salgadinho, em Olinda, Grande Recife, percebe um esbranquiçado que parece neve, mas é poeira dos grãos de trigo, lançada pelo estabelecimento industrial. O pó branco que vem da fábrica de farinha invade as casas da região e afeta a saúde dos moradores. Asma, alergias, irritações nos olhos e garganta são problemas enfrentados por quem vive no entorno do moinho e respira poluição. 

“É impossível não inalar a poeira porque ela está em toda a parte. Não adianta limpar os lençóis, pois o pó invade a casa até de madrugada e cai em cima da gente. Tem dias que a minha filha de 18 anos acorda com o rosto todo inchado. O piso das casas fica todo branco”, relata Jacira Melo Silva, 43, moradora da Rua Herculano Bandeira. 

A estudante Leilane Eugênia da Silva, 12 anos, também respira diariamente a poeira que vem do moinho, vizinho à casa onde ela mora com os pais. A asma que maltrata a menina só dá trégua quando ela sai de casa. “Quando durmo fora fico livre das crises. Mas a poluição provocada pela fábrica não ajuda no tratamento. Preciso tomar vários remédios para controlar o problema”, diz. Sinais de que a poeira prejudica a saúde da população multiplicam-se pelas ruas vizinhas ao estabelecimento. “Gripes” que nunca são curadas, infecções em olhos e gargantas, alergias que afetam de idosos a recém-nascidos e casos de asma estão presentes em muitas famílias. 

De acordo com o médico pneumologista e alergologista do Hospital das Clínicas José Ângelo Rizzo, o pó do trigo pode provocar asma às pessoas com tendência a ter a doença e piorar o quadro de quem já está doente. “Se a quantidade de trigo em suspensão no ar não for regulada, a população pode, sim, adoecer. Epidemias de asma já aconteceram por causa da poeira de soja, em Barcelona, e aqui no Brasil, quando as padarias trabalhavam com fornos à lenha. Nada impede que a população circunvizinha ao moinho sofra com problemas respiratórios, causados pela poeira”, avalia. Para o imunologista, o único remédio que pode resolver o problema verificado em Salgadinho é a mobilização. “De um modo geral, a lei permite que haja muita protelação por parte das empresas. Protestar, fazer manifestações é a única saída que os moradores têm”, opina.

Em resposta às denúncias, o gerente nacional da Moinhos Cruzeiro do Sul afirma que todo resíduo de produto da fábrica passa por filtros antes de ir para a atmosfera, mas adianta que a empresa vai investigar o caso. “Temos um setor de garantia da qualidade que controla tudo isso. A denúncia, para nós, é novidade. Trabalho com moinho há 20 anos e, mesmo quando não existiam os filtros, nunca ouvi falar nesse tipo de problema. Mas vamos investigar, estamos abertos para mitigar qualquer transtorno. Pode ter sido uma questão pontual”, declara. A Prefeitura de Olinda informou que a Secretaria de Controle Urbano já foi informada sobre as denúncias e que realizará vistoria no local.

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