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Engenho Uruaé: o passado de portas abertas

Mobiliado como uma casa de antigamente, Uruaé faz parte do roteiro turístico da Mata Norte

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 22/03/2014 às 16:19
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FOTO: NE10
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Desde sábado passado, a série sobre os engenhos de cana-de-açúcar passou a mostrar casarões que estão de pé e conservados no Estado de Pernambuco. Nesta condição, o Engenho Uruaé, em Condado, é o segundo a ser visitado pelo JC, depois de Poço Comprido, em Vicência. Mobiliado como uma casa de antigamente, Uruaé faz parte do roteiro turístico da Mata Norte. Esta é a oitava reportagem da série, iniciada em 25 de janeiro deste ano.

Fundado em 1736, no século 18, Uruaé iniciou suas atividades como engenho-banguê, virou usina, deixou de moer em 1937 e até hoje é fornecedor de cana. A antiga fábrica (onde se produzia o açúcar) está desativada, mas a casa-grande preserva sua função de moradia, compartilhada com temporadas de visitação turística.

De março a dezembro, o Engenho Uruaé recebe grupos de turistas, de estudantes e da chamada terceira idade para conhecer o casarão, a fábrica, a senzala e a Igreja de Nossa Senhora da Piedade. “A estrutura está completa”, afirma Eleonor Correia da Cunha Rabello, uma das herdeiras da propriedade, que se mantém nas mãos da mesma família.

Na casa-grande, que passou por reformas e perdeu as características do século 18, morou o abolicionista João Alfredo Corrêa de Oliveira (1835-1919). Durante uma brincadeira de criança, ele despencou do passadiço que unia o casarão à capela, para desespero da família, diz Eleonor Rabello, que conta aos visitantes a história do engenho.

O corredor interno de ligação entre as duas edificações (mantido em Poço Comprido e considerado raro na arquitetura dos engenhos) não existe mais. Foi derrubado anos atrás, o que teria evitado um possível tombamento do engenho pelo Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (atual Iphan), informa Eleonor. “Eu morei no engenho, mas não alcancei essa comunicação.”

João Alfredo era filho do tenente-coronel da Guarda Nacional e dono do Engenho Uruaé, Manoel Corrêa de Oliveira Andrade. A mãe, Joanna Bezerra de Andrade, está sepultada na Igreja da Piedade, que é aberta a cerimônias de casamento, batizado e aniversário. A noiva pode ser fotografada nas primeiras salas do casarão e a recepção é feita no salão de festas, instalado na antiga casa de coche.

Com dois pavimentos, a casa-grande é dividida em salas, cozinha e banheiro no térreo; salas e quartos no primeiro andar. O dormitório das meninas do engenho era conjugado com o quarto do casal. O cômodo só é fechado por fora, com ferrolho. À noite, quando as filhas se recolhiam para dormir, os pais trancavam a porta, diz ela, narrando mais um dos acontecimentos do engenho.

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Os quartos dos meninos, das meninas e do casal estão mobiliados com camas, armários, estantes de livros, baús e penicos. Mesas, cadeiras, oratórios, imagens de santos, um telefone antigo de parede, espelhos, candeeiros, bengalas, vasos, louças, escarradeiras e fotografias da família decoram os ambientes.

Numa das salas, Eleonor abre um móvel – uma mesinha, à primeira vista – e apresenta aos visitantes do século 21 um velho costureiro, com divisões para botões, agulhas, linhas e tesouras. Botões preciosos eram guardados em um compartimento especial, fechado à chave, comenta.

Eleonor Rabello faz parte da Associação do Turismo Rural Ecológico de Pernambuco (Apetur) e administra o engenho com um primo, que vive na casa-grande. Uruaé funcionou como pousada por dez anos, mas a hospedaria, instalada nas dependências do engenho, fora do casarão, teve de ser fechada há três anos, após curto-circuito, declara.

O engenho oferece opções de visita por um dia (day use) com café da manhã, passeio pelas edificações, palestras, lazer, almoço e lanche no fim da tarde. As refeições são feitas no salão de festas e a piscina, elemento moderno na propriedade, pode ser usada pelos turistas. Contatos pelo número (81) 3227-0579.

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