Patrimônio

Olinda completa 50 anos como patrimônio histórico brasileiro

O título foi concedido pela União para a Cidade Alta de Olinda, com 1,2 quilômetro quadrado de preservação rigorosa e 10,4 quilômetros quadrados de proteção total

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 22/04/2018 às 8:08
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
FOTO: Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Leitura:

Há 50 anos, em 19 de abril de 1968, a Cidade Alta de Olinda recebeu o título de patrimônio histórico brasileiro e a missão de preservar para as gerações futuras edifícios coloniais dos séculos 16 e 17, fachadas de azulejo do século 18, casas neoclássicas do século 19 e a arquitetura eclética do século 20. O tombamento começa pelo casario antigo, adentra nos quintais verdes e se completa com a vista para o mar.

“Casario, vegetação e mar é o tripé que dá sustentação ao tombamento de Olinda pela União e também ao título concedido pela Unesco em 1982, de Cidade Patrimônio da Humanidade”, afirma o engenheiro do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-PE) Frederico Almeida. As leis de proteção do Sítio Histórico do município, diz ele, foram criadas para manter os três pilares em equilíbrio.

Foto Diego Nigro/JC Imagem
Cidade Alta de Olinda completou 50 anos como patrimônio histórico brasileiro em 19 de abril de 2018 - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
Olinda preserva monumentos dos séculos 16, 17, 18, 19 e 20 nas colinas tombadas do Sítio Histórico - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
Igreja da Sé, na Cidade Alta de Olinda, tem fachada colonial renascentista e é catedral desde 1676 - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
A Igreja de Nossa Senhora Carmo de Olinda é uma das mais antigas construções carmelitas no Brasil - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
Igreja da Graça, no ponto mais alto de Olinda, representa arquitetura jesuítica do século 16 no País - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
Arquitetos, engenheiros e arqueólogos de Olinda chamam a atenção para obras descaracterizadoras - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
A Igreja de São João Batista dos Militares escapou do incêndio dos holandeses em Olinda em 1631 - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Casario, quintal verde e mar é o tripé que dá sustentação ao tombamento da Cidade Alta de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Técnicos da área de patrimônio de Olinda alertam para a redução das árvores nos quintais - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Igreja da Misericórdia, no Sítio Histórico, foi tombada pela União como monumento isolado em 1938 - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
Igreja da Misericórdia, no Sítio Histórico, foi tombada pela União como monumento isolado em 1938 - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto Diego Nigro/JC Imagem
A construção da Igreja da Graça, na Sé, foi inspirada na Igreja de São Roque, em Lisboa (Portugal) - Foto Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
A Igreja do Monte é uma das construções mais antigas da área tombada da cidade de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Fiação aérea em excesso prejudica a paisagem tombada do Sítio Histórico de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Casa antiga com porta descaracterizada na Rua Prudente de Moraes, Sítio Histórico de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Balcão de treliça (muxarabi), de influência moura, em casa na Praça João Alfredo, em Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Casa 28 da Rua do Amparo, em Olinda, tombada em 1938 como monumento isolado, precisa de reparos - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
A beleza colorida do casario preservado na Rua Bernardo Vieira de Melo, na Cidade Alta de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Fachada de azulejo nas cores azul e branca (Rua de São Bento) é característica do século 18 - Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Foto: Diego Nigro/JC Imagem
Caixa d'água revestida por cobogó, projeto do arquiteto modernista Luiz Nunes na Sé de Olinda - Foto: Diego Nigro/JC Imagem

O desafio dos poderes públicos ao longo desses 50 anos é tentar evitar a descaracterização da arquitetura e o corte das árvores nos quintais da cidade, fundada em 1535 e que completou 483 anos em 12 de março último. “Por falta de controle urbano, os quintais estão sendo devastados. De 1970 a 2005, o Sítio Histórico perdeu 25% da sua cobertura vegetal”, afirma o arquiteto da Secretaria de Patrimônio e Cultura de Olinda Clodomir Barros.

Ele fez o levantamento para a pesquisa de mestrado em desenvolvimento urbano e alerta para o aumento do desmatamento nos últimos anos. “Isso é preocupante, a paisagem faz parte do tombamento. Michel Parent (inspetor da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, Unesco) descreve Olinda como um jardim entremeado de arquitetura”, acrescenta a arquiteta Nazaré Reis.

A destruição das árvores dos quintais é mais significativa do que as modificações nas fachadas do casario, na avaliação de Nazaré Reis, representante da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) no Conselho de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda. “E não é de hoje que isso está acontecendo”, destaca a arquiteta. Os problemas se agravaram, observa Clodomir Barros, a partir de 1995 com o desmonte do Sistema de Preservação dos Sítios Históricos criado em 1979.

Vanguarda

“O sistema, formado pelo conselho, fundo de preservação e órgão executor, era considerado de vanguarda e serviu de modelo para o mundo”, destaca Plínio Victor, arqueólogo da prefeitura. A cidade foi obrigada por lei a ter uma estrutura que cuidasse do patrimônio para conseguir o título da Unesco e o sistema não pode ser revogado porque sem ele Olinda perde a certificação mundial, explica Plínio Victor.

Em 1995, a Fundação Centro de Preservação dos Sítios Históricos, órgão executor do sistema, foi substituída pela Secretaria de Patrimônio, que é mais vulnerável a questões políticas, observa o também arqueólogo da prefeitura José Aylton Coelho. Com as mudanças, as obras passaram a ser executadas por secretarias distintas, sem a visão única e integrada dos técnicos como na época da fundação, completa Valéria Macedo, engenheira da Secretaria de Patrimônio e Cultura.

A fundação tinha mais de 200 funcionários, dos quais 100 específicos para executar obras, como canteiros, marceneiros e pedreiros, recorda Patrícia Pedrosa, arquiteta da prefeitura e presidente do Conselho de Preservação. O Sítio Histórico, diz ela, deixou de ser tratado como uma área especial desde que o sistema de preservação ficou inativo (não é considerado extinto). O resultado é visível nas fachadas modificadas do casario e nos postes cheios de fios nas ruas, ressalta.

“Este deveria ser um ano de celebrações para Olinda – 50 anos do título de patrimônio nacional e 80 anos do tombamento isolado das primeiras edificações da Cidade Alta pelo Iphan, como o Mosteiro de São Bento, Convento de São Francisco, Igreja da Graça e a casa 28 da Rua do Amparo, entre outros – mas no lugar de comemorar estamos juntando frustrações”, lamenta o arquiteto Clodomir Barros.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias