EMPODERAMENTO

Trabalhe como uma mulher

No dia 8 de março é comemorado o Dia Internacional da Mulher e para celebrar o JC conversou com mulheres que trabalham em ambientes considerados ''de homem''

Rute Arruda
Rute Arruda
Publicado em 08/03/2019 às 6:30
Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
FOTO: Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
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Trocar uma lâmpada queimada, mudar uma resistência no chuveiro ou fazer qualquer outro reparo doméstico considerado chato, dar 'aquele grau' no carro, com direito a troca de óleo e conferida na calibragem dos pneus ou, simplesmente, mas não menos árduo e perigoso, garantir a segurança da população nas ruas no combate à violência. Imagine você fazer isso com brilhantismo e, nos dias atuais, ainda conseguir quebrar alguns paradigmas da sociedade. Estes são alguns dos exemplos de mulheres que levam o significado da palavra 'empoderamento' ao pé da letra e, neste dia 8 de março, que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, o JC conversou com quatro personagens para mostrar que não existe mais isso de "trabalho de homem". Por sinal, neste ano, o tema definido pela Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, a ONU Mulheres, para celebrar a data é "Pensemos em igualdade, construção das mudanças com inteligência e inovação". Sendo assim, apresentamos as histórias de quatro guerreiras: Jaque, Evaneide, Manoela e Isolda.

'Jaque Conserta' e desconstrói tabus

Fazer reparos domésticos muitas vezes pode parecer um "bicho de sete cabeças". Para muita gente pintar paredes, instalar pias, e até mesmo trocar uma lâmpada, é sinônimo de desespero. Mas é no bairro de Santo Amaro, no centro do Recife, que Jaque Pinheiro garante que é mais simples do que parece. A baiana de 35 anos chegou há quase oito anos no Recife e há dois atende mulheres que precisam realizar serviços de reparos em suas residências.

Com mais de mil curtidas no Facebook, a página "Jaque Conserta" leva dicas para os internautas e desconstrói que o "lugar de mulher é apenas na cozinha". Para Jaque, a essência do seu trabalho é a representatividade e foi na infância, na fase das descobertas, que seu talento começou a dar sinais de que seria promissor. "Uma mulher que vê outra mulher realizando esses serviços, vai pensar muitos menos vezes de chamar um homem para consertar. O trabalho, muitas vezes é cansativo, mas qualquer mulher pode fazer", afirma. "Eu tinha vontade de colocar essa ideia em prática há muito tempo. Sempre fui eu que consertei as coisas dentro de casa, desde criança, sempre tive muita proximidade e interesse nesse universo das ferramentas", completou.

 

 Foto: Bianca Sousa/JC Online 

A rotina da baiana começa às 9h e segue até às 17h. Além do trabalho árduo, Jaque promove oficinas de aproximadamente quatro horas para as mulheres com o mesmo intuito em que faz os reparos, fazer com que se sintam representadas e tenham autonomia de realizar as tarefas. "São mais ou menos dez mulheres por turma, porque a ideia é de que elas pratiquem. O efeito causado pelas oficinas é maravilhoso. Eu já tive aluna de mais de 70 anos e que nunca tinha pego em uma furadeira antes. Além disso, unir o meu trabalho com a minha militância é perfeito", relata orgulhosa.

''Sempre duvidam da capacidade da gente''

De fardamento grosseiro e coturno, a sargento Manoela Correia surge como um ponto de luz na Polícia Militar. Com um coque cuidadosamente preso, batom rosado e delineador aplicado com precisão, ela tenta trazer um pouco de sensibilidade para o seu dia a dia em uma corporação que vive uma rotina bruta nas ruas. Ao lado dela caminha a cabo Isolda Carlos, de uniforme-passeio e acessórios dourados como toque pessoal para abrilhantar a farda de tom sério. Enquanto transitam por áreas de presença predominantemente masculina, as duas buscam, cada uma à sua maneira, ocupar mais seus espaços e levantar a bandeira das necessidades femininas ainda pouco compreendidas dentro de quartéis e delegacias.

De acordo com a assessoria da Polícia Militar, o efetivo de Pernambuco atualmente conta com 18.990 policiais na ativa, sendo 2.249 mulheres, o equivalente a 11,8%. Segundo a sargento, esse percentual ainda pode crescer nos próximos anos, considerando que, nas últimas turmas, cerca de 20% do novo efetivo tem sido de mulheres. Para ela, no entanto, apesar do crescimento ser positivo ele ainda é pouco diante do quadro geral e da importância de haver mais mulheres nas ruas. 

Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
 

“As pessoas sempre duvidam da capacidade da gente. Seja pela capacidade física, pelo modo de abordar. A força do homem é algo que realmente vem do aspecto fisiológico, mas a gente que é mulher investe muito nos treinamentos, na técnica, e esse é nosso diferencial. Com técnica fazemos tudo tão bem quanto o homem”, garante Manoela. Por outro lado, ela ressalta que as necessidades da Polícia Militar para atuar no dia a dia vão muito além da força física.

“A guarnição que tem uma mulher é mais preparada para abranger todas as ocorrências, como, por exemplo, com outra mulher, crianças, idosas”, afirma, enquanto é apoiada pela cabo Isolda: “Inclusive, as pessoas que são trans as vezes se sentem melhor com a gente também. Sentem mais essa cobertura, esse respeito. A abordagem é diferente. Isso é importante pois amplia o campo de atuação da polícia e de conforto para eles”.

'A Grande Eva'

Com gloss nos lábios, unhas pintadas e cabelo bem penteado, uma figura feminina se destaca em meio aos veículos que param para abastecer no posto de gasolina recém aberto na Avenida Norte. De postura e atitudes firmes, Evaneide Maria dos Santos, de 46 anos, a única frentista mulher do estabelecimento, marca seu lugar em meio aos sete homens funcionários da empresa. Eva, como gosta de ser chamada, mostra que de “pequena Eva”- como canta a banda de mesmo nome - ela não tem nada, pelo contrário, é grande até demais quando o assunto é enfrentar desafios.

Mãe aos 43 anos de idade, Eva descobriu ser muito mais do que pensava. “Era meu sonho ser mãe, mas isso nunca acontecia”, diz a frentista que relembra o momento em que descobriu a tão esperada gravidez. “Quinze dias após o falecimento da minha mãe, descobri que estava gerando uma vida, e aquilo foi meu conforto, e agora, sou eu por minha filha, e futuramente, ela por mim”, conta, cheia de orgulho, a mulher que sustenta a casa e ainda tem vigor de sobra para mimar a filha mesmo após 12 horas de trabalho. 

 Foto: Bianca Sousa/JC Online 

 

Maria Vitória é o nome de quem a espera em casa todos os dias. Entre buzinas, motores, “boa tarde” e “boa noite”, Eva vai conquistando mais um dia no emprego ao qual se orgulha de tirar o salário que provê o que ela e a filha precisam. “Chego em casa às 22h e ela está acordada me esperando, dizendo ‘mamãe chegou!’; é uma festa todos os dias”, conta a mulher.

Em ambiente ainda dominado por homens, Eva é prova de que “lugar de mulher é onde ela quiser”, inclusive somando funções: a de frentista e a de ser mãe. “Não existe trabalho dificultoso, existem pessoas que se acomodam, e acabam tornando tudo muito difícil, ao invés de enfrentar e seguir em frente”, conta a mulher que faz do trabalho, motivo de orgulho e comprovação de que é possível quebrar barreiras e construir laços, em qualquer lugar, por toda mulher. 

Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
Sargento Manoela Correira e Cabo Isolda Carlos - Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
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Sargento Manoela Correira e Cabo Isolda Carlos - Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
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Sargento Manoela Correira e Cabo Isolda Carlos - Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
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Sargento Manoela Correira e Cabo Isolda Carlos - Foto: Bobby Fabisak/ JC Imagem
Foto: Bianca Sousa/JC Online
Frentista Eva - Foto: Bianca Sousa/JC Online
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Frentista Eva - Foto: Bianca Sousa/JC Online
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Frentista Eva - Foto: Bianca Sousa/JC Online
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Frentista Eva - Foto: Bianca Sousa/JC Online
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Jaque Pinheiro - "Jaque Conserta" - Foto: Bianca Sousa/JC Online
Foto: Bianca Sousa/JC Online
Jaque Pinheiro - "Jaque Conserta" - Foto: Bianca Sousa/JC Online
Foto: Bianca Sousa/JC Online
Jaque Pinheiro - "Jaque Conserta" - Foto: Bianca Sousa/JC Online

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