Centro do Recife

Por falta de estrutura, ocupação Marielle Franco é desfeita

A desocupação do edifício Sulamérica aconteceu no último sábado

Mayra Cavalcanti
Mayra Cavalcanti
Publicado em 08/04/2019 às 6:58
Foto: Mayra Cavalcanti/JC
A desocupação do edifício Sulamérica aconteceu no último sábado - FOTO: Foto: Mayra Cavalcanti/JC
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O que restou da ocupação Marielle Franco foram um sofá e alguns pedaços de madeira que ficaram encostados na parede do Edifício Sulamérica, na Praça da Independência, número 91, no bairro de Santo Antônio, Centro do Recife. Na sacada, uma faixa com os dizeres “Que os imóveis abandonados e devedores virem moradia e trabalho pro povo” mostra que o edifício, abandonado desde 2008, teve moradores por um tempo. Até o último sábado (6), 30 famílias que ocupavam o local saíram, após 382 dias. Saíram, segundo o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), devido às más condições estruturais do imóvel e à falta de apoio do poder público.

“A gente completou um ano de ocupação e fez um balanço desse tempo. A estratégia do movimento era levantar o debate sobre a moradia popular no Centro e as políticas públicas para as mulheres. A gente conseguiu cumprir um papel importante. Mas não viu outras coisas necessárias avançarem, que foram a abertura de diálogo com a Prefeitura (do Recife) e a segurança dos moradores, em relação às partes elétrica e hidráulica do prédio”, explica Rud Rafael Souza, um dos coordenadores estaduais do MTST.

As 30 famílias que viviam nos seis andares do edifício desocuparam completamente o imóvel no sábado. Foram necessários dois caminhões, que realizaram seis viagens, para que a retirada fosse concluída. Com o fim da Marielle Franco, parte das pessoas foi para outras ocupações do movimento, como a Carolina de Jesus, no Barro, bairro da Zona Oeste, enquanto outras foram para casa de parentes.

Além da Carolina de Jesus, o MTST é responsável pela ocupação do Sítio dos Pescadores, no Pina, Zona Sul, e acompanha ado Mocotó, em Boa Viagem e a da Aliança com Cristo, no Jiquiá. Rud Rafael conta que, no ano passado, a Defesa Civil fez uma visita e detectou risco 3 no Sulamérica, o que é considerado alto. “Mesmo a gente tendo terminado um andar em relação à parte elétrica, era preciso avançar nos outros andares. O tempo dessas demandas estava muito acelerado e a gente não conseguiu recursos. Por isso, avaliamos a segurança das famílias. Paralelamente, ainda corria judicialmente um processo de reintegração de posse. Se identificado no Ministério Público que havia risco, a gente poderia investir recursos, ter a reintegração e seria muito pior”, declara.

Luta

Rud Rafael conta que o movimento agora vai focar para conseguir retornar ao Sulamérica. “Fortalecer a ideia de que essa luta só ganhou um novo estágio. A gente precisa de um imóvel com condições estruturais, com melhorias no sistema hidráulico e elétrico para avançarmos nos projetos de creche e cozinha. A gente tem o sentimento de dever cumprido. Falta política pública. Falta a prefeitura para fazer avançar. E vamos pressioná-la”, completou.

A organização previa a instalação de uma creche e uma cozinha popular na ocupação Marielle Franco, com o objetivo de gerar renda para as mulheres que habitavam o Sulamérica. O MTST estuda a viabilidade de construir esses equipamentos em outro local.

O advogado George Freire, representante da Empresa Nacional de Hotéis Ltda, dona do Sulamérica, não atendeu às chamadas. Por meio de uma nota, a Prefeitura do Recife informou que o edifício é uma propriedade privada, mas que a Prefeitura se coloca à disposição para diálogo com movimentos sociais. Confira a íntegra da nota:

A Prefeitura do Recife informa que o edifício Sulamérica, localizado no nº 91 da Praça da Independência, é uma propriedade privada e que se coloca à disposição para o diálogo com o movimento que ocupou o edifício, como faz com todos os movimentos sociais da cidade. A Prefeitura do Recife informa ainda que foram entregues, desde 2013, 22 novos conjuntos habitacionais totalizando 2.669 novas unidades, entre casas e apartamentos. Estão em fase de execução outros seis conjuntos, totalizando 979 novas unidades.

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