Desabamento

Em Camaragibe, a esperança se perdeu em meio ao lamançal

Quatro corpos de uma mesma família foram localizados, após desabamento na cidade. Dois garotos continuam desaparecidos

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 15/06/2019 às 9:17
Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
Quatro corpos de uma mesma família foram localizados, após desabamento na cidade. Dois garotos continuam desaparecidos - FOTO: Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem
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A tristeza nesta sexta-feira (14) tinha um rosto. Um nome. Linderson Albuquerque de Melo. Com as roupas e o corpo sujos de barro, sem dormir há mais de 24 horas e carregando uma sandália rosa agarrada à corrente pendurada no pescoço, o rapaz franzino subia e descia as escadarias a toda hora. De um lado para o outro. Era o retrato da desolação. Durante horas, alimentou a esperança de ter a família resgatada com vida. A esposa, duas filhas e três enteados haviam sido soterrados por uma barreira que desabou em Camaragibe, em meio ao temporal que assolou a Região Metropolitana do Recife na última quinta-feira (13). A espera se prolongou pela madrugada. Por volta das 3h30 desta sexta-feira, a tragédia se confirmou. Os corpos da esposa, Edilene Maria da Conceição, 30 anos, e da filha mais nova, Maria Beatriz, 11 meses, foram retirados do lamaçal. Estavam agarrados. Mãe e filha. Era uma das sandálias que estava nos pés de Beatriz que Linderson carregava no peito.

Ainda era escuro quando as equipes localizaram Maria Bianca Conceição de Albuquerque, 3. Já nas primeiras horas da manhã, após a retirada dos corpos de Edilene e das duas meninas, Kauan Ricardo da Silva, 8, foi achado sem vida. Os esforços se concentraram então em encontrar os outros dois garotos, que permaneciam soterrados: Lucas Ricardo da Silva, 6, e o irmão Ítalo Wendell de Souza, 14.

Foi um dia inteiro de buscas. Bombeiros e moradores se mostraram incansáveis. Com enxadas na mão, os bombeiros se revezavam num minucioso trabalho para vencer a montanha de barro que soterrou a casa onde a família morava. Já os vizinhos se uniram em um cordão humano e solidário, ajudando a retirar a lama, balde a balde. No início da tarde, eram poucas as chances de encontrar sobreviventes. “Não acho mais que seja possível. Precisaria ter um milagre, porque o barro já está ficando duro. Mas só vamos descansar quando acharem todos”, confessou Cláudio Gomes Batista, 49, pai de Linderson e avô de Maria Beatriz e Maria Bianca. Diante de tanta dor, chorar parecia insuficiente.

Em vários momentos, a busca ganhou contornos ainda mais dramáticos. Quando acharam a boneca de uma das meninas, o jovem pai, de 27 anos, saiu carregando o brinquedo sozinho e em silêncio. A bolsa do colégio de um dos garotos foi encontrada mais adiante e novamente deixou moradores emocionados. Treinados para atuar em resgates, cães do Corpo de Bombeiros passaram o dia apontando um canto aqui e outro ali no meio do lamaçal. Um dos animais chegou a se machucar. Pelo segundo dia, o trabalho novamente entrou pela noite. Mas as crianças continuavam desaparecidas.


O major Anderson Barros, assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros, afirmou que as buscas só serão encerradas quando os dois corpos forem localizados. Ele explicou que o dia ensolarado de ontem ajudou a deixar o barro mais seco e, consequentemente, mais compactado. “Isso dificulta muito o trabalho. Em casos de deslizamento de terra, há ainda o agravante de que são pequenas as chances de se formarem bolsões de ar, o que reduz a possibilidade de encontrarmos sobreviventes muitas horas após o desabamento”, informou o major, ressaltando que os quatro primeiros corpos estavam bem próximos.

Além da residência onde morava a família de Linderson, outra casa vizinha foi atingida pela queda da barreira. Horas após o deslizamento, ocorrido por volta de meio-dia da última quinta-feira, os bombeiros localizaram o corpo de Edivaldo Ferreira da Silva, 23. A esposa dele, Larissa Lafaiette, 20, conseguiu ser resgatada com vida. Ela ficou soterrada até a cintura e teve a bacia quebrada. A jovem está internada no Hospital da Restauração e o seu estado de saúde é estável. Segundo a família de Edivaldo, o enterro está previsto para acontecer na tarde deste sábado (15), mas ontem ainda não tinham sido definidos a hora e o local do sepultamento.

TRAGÉDIA EVITÁVEL

Entre familiares e moradores do bairro dos Estados, onde ocorreu o desabamento, a perda de tantas vidas não era vista como uma fatalidade. Mas como uma tragédia que poderia ter sido evitada, se a prevenção tivesse chegado a tempo, pelas mãos do poder público. “Só agora, com tantas mortes e todo esse sofrimento, é que a prefeitura colocou uma lona próximo à barreira que desabou. Chegaram tarde demais”, criticou Cláudio Gomes, avô de duas das cinco crianças.

Mãe de dois filhos, com 4 e 5 anos, Wyliane Maria de Brito, 24, não consegue esquecer o que viu. Ela mora numa casa próxima à área do deslizamento e assistiu as residências serem soterradas. Numa mistura de dor e revolta, diz que, há cerca de um ano, moradores protocolaram um documento junto à prefeitura de Camaragibe, solicitando a instalação de canaletas na área para ajudar no escoamento da água, na época das chuvas.  “Com certeza se essas canaletas tivessem sido colocadas, não teria ocorrido isso. Porque a água teria por onde escorrer e a barreira não chegaria a desabar.” A sensação de impotência, diante de tanto sofrimento, é igualmente traumatizante. “Eu vi tudo. Essa cena não vai nunca mais sair da minha mente. Mas o que mais dói é saber que aquelas crianças poderiam estar vivas, se alguma providência tivesse sido tomada. Só penso nos meninos. Poderiam ser meus filhos.”

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