Machismo

Ciara Carvalho: Até quando vamos rir do ataque às mulheres, à imprensa, à democracia?

O presidente Jair Bolsonaro, ao atacar com insinuações sexuais uma jornalista da Folha de S. Paulo, é como se dissesse, muito à vontade, para quem quiser ver e ouvir: Fiz, faço e faço de novo. E daí? Quem vai me impedir?

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 18/02/2020 às 16:45
Análise
Foto: Antônio Cruz/ABr
O presidente Jair Bolsonaro, ao atacar com insinuações sexuais uma jornalista da Folha de S. Paulo, é como se dissesse, muito à vontade, para quem quiser ver e ouvir: Fiz, faço e faço de novo. E daí? Quem vai me impedir? - Foto: Antônio Cruz/ABr
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"Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim."

A frase, dirigida a uma jornalista, mulher, não agride só pelo machismo, sexismo e falta de respeito que escancara. Agride igualmente pelo riso que provoca. Não só do presidente da República, que, de forma intencional, ataca uma profissional da imprensa, valendo-se de uma insinuação sexual para desmoralizar um trabalho que o desagrada. Vejam o vídeo. Frase cuspida, várias pessoas acham graça. Mulheres, inclusive.

 

Não é à toa que Jair Bolsonaro escolhe atacar o jornalismo, livre e independente, fazendo-se valer de piadas de duplo sentido, que colocam a condição de mulher, seu corpo e seus atributos sexuais, à frente da figura do profissional. Ao usar desse jogo baixo, ele dá vazão a uma postura que espelha como pensa e age parte significativa da sociedade. Quando nós, mulheres, exigimos respeito, é porque existem homens, como o presidente da República, que ainda nos enxergam pelo seu viés de mundo, orgulhosamente machista.

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Todos os dias, desde que chegou à presidência da República, Jair Bolsonaro testa o quanto de civilidade e respeito o País conseguiu amealhar nos seus 35 anos de retorno à vida democrática. Ele deu a primeira banana para a imprensa. Espanto. Horror. Indignação. Mas, para igual desalento, muitos acharam graça. Minimizaram, naturalizaram. Confortável, na sua recorrente falta de limites, de decoro e de respeito às instituições democráticas, o presidente repetiu o gesto dias depois. Dessa vez, com mais ênfase e teatralidade.

NÃO TEM GRAÇA, PRESIDENTE

Hoje ele esticou mais uma vez a corda já tão esgarçada. Deu mais um passo em sua escalada de afronta à democracia. Ao atacar com insinuações sexuais uma jornalista da Folha de S. Paulo, é como se dissesse, muito à vontade, para quem quiser ver e ouvir: Fiz, faço e faço de novo. E daí? Quem vai me impedir?

O que mais assusta é o riso. Dele e dos que estão em sua volta. Não só no vídeo. Mas estampado em tantos rostos pelo País.

Não tem graça, presidente.

Até quando vamos rir do ataque às mulheres, à imprensa, à democracia?

Só para não esquecermos: o Brasil é o quinto País no mundo onde mais se matam mulheres. Nada é por acaso.

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